Verdades não ditas

621 Palavras
O silêncio entre eles não era vazio. Era cheio. Cheio de respirações ainda descompassadas, de olhares que demoravam mais do que o normal, de uma proximidade que, finalmente, não parecia proibida. Mariana estava deitada sobre o peito de Leonardo, o dedo desenhando distraidamente linhas invisíveis sobre a pele dele, enquanto o corpo ainda relaxava aos poucos. Ele observava o teto. Mas não estava distante. Estava pensando. — Posso te perguntar uma coisa? — disse ele, a voz baixa, mais tranquila do que o normal. Ela levantou levemente o rosto. — Pode. Ele demorou um segundo. — Por que você recusou o Miguel? A pergunta veio direta. Sem rodeio. Mariana não se assustou. Talvez até esperasse. Ela apoiou o queixo no peito dele, olhando pra ele com mais atenção. — Porque a gente nunca teve nada — respondeu, simples. Ele franziu levemente a testa. — Só isso? Ela deu um pequeno sorriso de canto. — Não. O silêncio veio, mas dessa vez… ele esperou. — Eu não quis ficar com ele — continuou ela — porque eu gosto de outra pessoa. O olhar de Leonardo desceu até o dela. Mais atento. Mais focado. — Quem? A pergunta saiu mais baixa. Mas carregada. Mariana não desviou. Não hesitou. — Você. Simples. Direto. Sem defesa. Aquilo acertou. Ele não respondeu na hora. Mas o canto dos lábios dele se curvou de leve. Um sorriso contido. Raro. Ela percebeu. — Você é muito convencido, sabia? — murmurou ela, provocando de leve. Ele soltou um pequeno riso pelo nariz. — Não… — respondeu. — Só não sou mais cego. O olhar voltou pra ela. Mais profundo. — É recíproco. Dessa vez, foi ela que ficou em silêncio por um segundo. Mas não por dúvida. Por sentir. De verdade. — Demorou, né? — disse ela, mais suave. — Demais. Eles ficaram se olhando por alguns segundos, sem pressa, como se estivessem finalmente entendendo algo que sempre esteve ali. Mas que nenhum dos dois quis nomear antes. Mariana passou a mão pelo rosto dele, com cuidado, quase carinho puro. — E a Juliana? A pergunta veio calma. Mas necessária. Leonardo soltou um pequeno suspiro, virando o rosto só o suficiente pra encarar o teto por um instante, como se aquilo nem merecesse tanto peso. — Não teve significado — disse ele. — Nunca teve. Ela permaneceu em silêncio. Esperando mais. E ele continuou. — Ela forçou aquilo hoje… você viu — completou. — Aquilo não é… nada. O olhar voltou pra Mariana. — Nunca foi. Ela analisou o rosto dele. Tentando encontrar alguma dúvida. Alguma mentira. Mas não encontrou. — E antes? — perguntou ela. — Antes também não — respondeu ele, firme. — Nenhuma delas foi. O silêncio veio. Mas leve. — Depois de você… — ele começou, e hesitou por um segundo — nenhuma tem graça. Aquilo mexeu. Mariana tentou esconder o sorriso, mas não conseguiu totalmente. — Você fala isso pra todas? Ele arqueou uma sobrancelha. — Você sabe que não. Ela sabia. E isso fez diferença. Ela se acomodou melhor contra ele, mais próxima, mais confortável, como se, finalmente, tivesse encontrado um lugar onde não precisava se defender. — Eu acredito em você — disse ela, baixo. E aquilo… Aquilo valeu mais do que qualquer outra coisa. Leonardo passou o braço por ela, puxando mais pra perto, sem pressa, sem necessidade de provar nada. Só… ficando. Os dois ficaram ali por um tempo. Conversando baixo. Rindo de coisas pequenas. Relembrando detalhes da infância, de momentos que pareciam distantes… mas que ainda estavam vivos entre eles. E, pela primeira vez em muito tempo… Não havia tensão. Não havia briga. Não havia medo. Só uma conexão que sempre existiu… Mas que agora, finalmente… Tinha sido aceita.
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