“O preço do egoísmo é a solidão, da soberba a pobreza e do amor… A Dor."
***
Abri os olhos podendo ver apenas feixes de luzes que passavam em meu rosto. Coloquei a mão na frente tentando tapar a luz dos olhos que ardiam, meu corpo estava dolorido por conta da luta e senti apenas o chão duro e frio abaixo de mim.
— Filho? — escutei a voz de minha mãe, então imaginei que poderia estar apenas sonhando, mas senti sua mão fria pousar em meu ombro. Virei o rosto podendo ver ela com sua roupa de serviço, os olhos azuis apagados e o mesmo sorriso que me dava quando as coisas tinham a tendência de ficarem piores.
— Mãe! O que faz aqui? — me aproximei deixando um gemido escapar de meus lábios, ela olhou pra mim preocupada e então apressou-se em me acalmar.
— Estou cuidando do meu filho, o que mais? — sua mão acariciou meu rosto enquanto sentia que tudo parecia tão real, tão vivo…
Olhei em volta notando que estávamos em um lugar diferente. O chão era frio demais para ser de cimento ou de terra, era feito de ferro como as paredes e havia muitos tipos de mercadorias em volta, sacos de Nylon espalhados e um cheiro forte de algum produto que não identifiquei ainda.
— Como viemos parar aqui? Eu estava na luta e…
— Eu não sei filho. Também acordei aqui. Só lembro que estava chegando em casa e mãos me seguraram colocando um pano em meu rosto, então desmaiei.
— Como isto veio acontecer? — tentei lembrar do que havia ocorrido, quando percebi que meu adversário havia desistido da luta facilmente no último Round, e aquele homem suspeito…
— Não sei filho, mas o importante é que estamos juntos agora.
Concordei tentando me aproximar mais dela, que começou com sua crise de tosse, a qual me preocupava tanto. Ela teria passado no médico antes, mas aconteceu este sequestro e agora estamos indo a um lugar desconhecido dentro de um contêiner em um navio.
Aconcheguei seu corpo ao meu e me senti mais completo, porém a dúvida do que aconteceria no final do destino me preocupa e muito. Inalei seu cheiro doce não podendo imaginar que poderia ser a última vez, então aproveitei o momento enquanto minha mãe pegava no sono para descansar, então notei que o sol estava um pouco menos denso do lado de fora, como se nuvens tampas sem o seu brilho e então foi ouvido barulhos de algumas pessoas do lado de fora, conversando algo em outra língua e então a porta do contêiner é aberta de forma ligeira e um embrulho é passado por ela.
Deixei minha mãe deitada no colchão e me levantei sentindo o corpo fraco, aproximei do embrulho perto da porta que estava sendo trancada, ele era médico, então o peguei na mão e abri revelando um pedaço de pão com manteiga e um copo de café embalado. Tornei com a comida para o colchão e então deixei o embrulho de lado para olhar minha mãe dormir tranquila, seus cabelos começaram a ficarem grisalhos misturando o branco ao louro.
Olhei novamente o embrulho sentindo um nó na boca do estômago, então decidi deixar ela comer primeiro, caso sobrasse comeria também. Depois de alguns minutos quando decidi fechar os olhos, senti uma movimentação e então os abri vendo minha mãe com o embrulho nas mãos.
— Não comeu filho? — balancei a cabeça negando. — Tem que comer!
— Coma a senhora primeiro. O que sobrar eu como, não se preocupe.
Ela não contestou, escutei o barulho do embrulho e alguns segundos depois, sua mastigação. Minha mãe é mais importante, não suportaria perdê-la. Senti algo ser posto em cima de minhas pernas e vi um pedaço de pão que minha mãe deixou, ela ofereceu o copo que peguei, então me alimentei com seus olhos de preocupação em mim.
— Preciso de você forte. Como poderemos fugir dos fracos?
— A senhora comeu bem? — ela balançou a cabeça concordando e me oferecendo um sorriso ao qual interpretei como "tudo vai ficar bem".
Olhei o sol pela fresta de algumas fissuras das ferragens e imaginei que poderíamos estar em qualquer lugar, levando uma vida mais tranquila, talvez lutar pelos meus sonhos fosse um grande erro e agora imaginei que poderia ter seguido a carreira de meu pai e não estaríamos em risco agora.
O balanço do navio era muito desconfortável e alguns dias depois alcançamos uma temível tempestade em alto mar, o frio era absurdamente doloroso aos ossos o que me fez imaginar que estaríamos em algum lugar de muito gelo. Procurei por algo para conseguir nos esquentar pelo contêiner que parecia uma câmara de carne do açougue, conseguindo apenas uma manta, então todas as noites me aconchegar a minha mãe para a esquentar, porque suas tosses estavam mais frequentes e temi pelo pior com esse tempo frio. Todos os dias nesse tormento, éramos alimentados duas vezes por dia, o que nos mantinha vivos pelo menos, mas era pouco para ajudar com o que precisávamos. Cada dia vi o estado de saúde dela debilitar-se, e toda vez que entregavam as refeições, pedia para que trouxesse pelo menos um cobertor e explicava a situação, mas ignoravam.
— Querido… — suas tosses vieram com força, então me uni a ela no colchão. — Venha se aquecer com a mamãe.
— Lembro quando a senhora contava histórias de guerras e reis— Comentei para nos distrair.
— O temível futuro rei da Inglaterra, Arthur… — ela falou em meio às tosses, abracei seu corpo ajeitando a manta em nós enquanto ela começava a contar minha história favorita de quando menino.
— …Herdeiro que foi capaz de erguer uma nação forte, o nascido Rei. — meus olhos estavam nas brechas, contava os dias que se iam e os que nasciam, mais de vinte dias desde o primeiro dia que descobrimos estarem sendo deportados de navio para um lugar estrangeiro.
— Eram meus dias mais felizes. — comentei vendo ela sorrir e pegar no sono em meu colo, acariciei seus cabelos grisalhos sentindo seu rosto frio, suas mãos geladas.
Pensei num cantinho ensolarado do Kansas, um sítio e minha mãe cuidando de suas roseiras, seria um bom lugar para se viver.
Nos imaginei lá, tendo até mesmo minha família, uma esposa e muitos netos para que a avó pudesse mimar muito. Então sonhei com uma vida que fugiria da realidade, uma vida tranquila com uma grande família.
Senti carinho em meus cabelos e um calor que me aquecia de uma forma acolhedora, os braços de minha mãe ao meu redor, então abri os olhos e beijei o topo de sua cabeça.
Quando o navio cessou seus movimentos e então a porta foi aberta entrando alguns homens armados e com roupas de militares. Levantei tendo um m*l pressentimento e me aproximei.
— O que querem?
— Andando. — um dos três falou com sotaque aparente e ergueu sua arma em minha direção.
— Calma! É meu filho. — A voz desesperada de minha mãe soou atrás de mim, olhei de forma ameaçadora para o homem que não exitou em apontar a arma para ela.
— Fique aí! — ordenou. Ela voltou para o colchão e me senti incapaz quando ouvi seu choro suplicando por mim.
— Para fora! — outro homem mais baixo ordenou apontando uma arma de grande calibre para meu peito, então comecei a dar os primeiros passos para o lado de fora onde o céu estava escuro e o vento muito gelado fazendo minha pele congelar e meus ossos doerem. Virei para a porta não notando o golpe em meu rosto, a última visão foi do céu estrelado e com algumas cores dançantes por entre os pontos de luzes.