“A conquista pode vir a ser uma maldição em sua vida, porque de seus tesouros vem o engano; de sua alma o sofrimento.”
IVAN CZAR
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— Acorde! — uma voz insistia em me chamar, meus lábios estavam secos e uma grande enxaqueca tomava conta da região superior da cabeça, então lembrei de minha mãe e do Contêiner. Abri os olhos notando estar em algum tipo de cômodo vazio, com apenas um colchão abaixo de meu corpo dolorido, estava sozinho sentindo uma grande fraqueza.
Em minha frente o mesmo homem do contêiner, ele tinha uma barba média ruiva e usava o mesmo uniforme. Também estava armado e atrás dele havia outro homem vestido igualmente, mas de tamanho maior e de porte musculoso.
— Levanta.
— Onde está minha mãe! — ignorei sua ordem, ele ergueu a sobrancelha.
— Levanta ou bala na cabeça. — exigiu tirando a arma da cintura e apontando para minha cabeça. Soltei o ar me sentindo um derrotado, afinal eles estão com minha mãe em algum lugar e não poderei arriscar sua vida por bobagem. Ergui o corpo com certa dificuldade e então caminhei na frente deles com a arma sempre apontada em minha nuca, mas aí reparei que o local havia mudado de um corredor m*l iluminado para uma enorme sala de visitas com um bar em minha direita, sofás de couro escuro e um enorme lustre de cristal no centro do teto, muitas decorações, estatuetas de bronze e ouro, alguns diamantes e tapetes bordados à moda antiga com brasão. Luxuoso ao extremo, a minha esquerda uma grande escadaria que levava ao andar de cima e então avistei uma poltrona e uma pessoa estava sentada nela, de costas para mim apenas vi sua movimentação ao apagar o charuto e a fumaça subir.
— Então você é o famoso lutador ao qual teve a vitória em um dos melhores daquele país podre. — sua voz era autoritária, um homem que seria capaz de muitas coisas, apenas pela voz me parecia ser egoísta e muito imponente.
— É o que dizem, mas não estou a fim de papo— demonstrou não ter interesse então ele estalou os dedos e um outro homem apareceu na sala com uma cadeira de rodas e depois o ajudou a sentar nela.
— Depende do que desejar. Me diga, quer vê-la novamente? — ele se virou e seu rosto ficou nítido para mim, com bastante rugas e um olhar desprezível, o mesmo homem ao qual estava na área VIP do clube de luta.
— Onde ela está! — senti o sangue ferver e minha paciência se esgotar, o homem apenas se aproximou e me encarou.
— Em minhas mãos lutador. Dê-me o que desejo e lhes darei liberdade.
— O que quer então? — respirei tentando me acalmar. — Pelo amor!
— Seu suor, quero que lute por mim.
Ri de sua proposta absurda, não iria lutar para um maluco e, aliás, o que ele fez foi algo imperdoável.
— E o que te faz pensar que irei lutar?
— Lutará sim.
— Não lutarei…
— Lutará pela vida de sua mãe. — nenhuma expressão, nada. Ele apenas manteve sua ameaça suportando meu olhar de desafio.
— Se acontecer algo com ela, irei atrás de você não importando onde esteja.
Desta vez não haveria negociação, era a vida de minha mãe e nem se quer consegui a proteger, imaginei a decepção de meu pai neste momento. Então concordei, o homem falou algo em sua língua e os homens que me arrastaram aqui algemaram minhas mãos nas costas e colocaram um saco em minha cabeça impedindo de que pudesse ver qualquer coisa.
Meus passos foram forçados enquanto meu coração estava quebrado, vi ela pela última vez de uma forma debilitada e não aceitei esta situação, não queria aceitar, preciso a proteger. Fui guiado por um caminho que levava à degraus e depois me colocaram sentado em um carro. Meu destino seria lutar para um homem desconhecido, para salvar a vida de minha mãe e principalmente poder conseguir voltar para casa.
O carro arrancou de uma forma desenfreada me fazendo colar no banco, e algum tempo depois paramos em um local desconhecido para mim, o clima ainda era muito gelado que me fazia ter tremores, os homens me puxaram do carro e me guiaram, o barulho de meus pés indicavam que havia concreto abaixo deles e então o barulho de uma porta ser aberta. As algemas foram retirada e me empurraram para dentro trancando a porta novamente, quando consegui retirar o saco e poder ver um cômodo parecido com de uma sala, andei pela casa notando que haviam poucas janelas com grades, no quarto um banheiro e móveis que seriam apenas necessários para minhas necessidades, segui para o armário encontrando roupas de frio, decidi tomar um banho e colocar uma troca delas para aliviar o frio que percorria todo meu corpo.
Depois de toda a higienização, retornei para a cozinha encontrando pão e alguns frios na geladeira para poder fazer uns sanduíches, sentei junto a mesa e comecei a comer. Uma Lágrima cai de meus olhos, talvez o egoísmo tivesse de ser pago com meu sofrimento, porque eu tinha tudo antes de correr atrás de um sonho infundado, eu tinha tudo.
Uma vida que poderia levar, um lar e alguém que sempre me esperava para comer bolinhos de chuva olhando o pôr do sol. Terminei de comer deixando os talheres e o prato na pia, então retornei para o quarto e deitei na cama pensando se minha mãe teria sido enviada ao hospital, pelo estado em que se encontrava o medo de a perder estava sendo maior neste momento. Deixei o corpo descansar porque o dia seguinte precisarei conseguir alguma informação dela, não conseguirei ficar tranquilo caso sua situação piorasse, na verdade nem sei se conseguirei descansar.
Fiquei por um bom tempo olhando o teto do quarto, imaginando minha vida caso tivesse mesmo derrotado aquele lutador, vencido na vida, conquistado uma posição de respeito entre os nomes mais famosos, dado a vida que minha mãe sempre mereceu.
Meu pai sempre dizia para mim seguir a razão e nunca o coração, porque boa parte dos sentimentos são falhos e nos levam ao fracasso. Talvez ele tivesse toda razão de dizer isso.