Fique comigo

1541 Palavras
Os socos e pontapés na porta me fizeram paralisar. Estava apavorada, sentia como se meus pés estivessem presos no chão e todo o meu corpo tivesse sido congelado. — Vamos, pule! – Ivy falou com nervosismo. – Não precisa ter medo, eu irei te segurar. Escutei o som do armário começar a ser arrastado devido à força dos socos e chutes na porta. Uma fresta se abriu, dando espaço suficiente para ver seus olhos verdes arregalados e inquietos, como se estivesse prestes a me atacar. Meu corpo saiu do transe ao ver sua mão entrar pela fresta e começar a forçar a porta. Meu coração batia descompassado quando, finalmente, tomei coragem e saltei pela janela, aterrissando no telhado com um impacto doloroso. A neve macia cobria o telhado, mas minha perna ferida protestava a cada passo que eu dava. Com dificuldade, comecei a caminhar pelas telhas escorregadias, minha respiração saindo em pequenas nuvens de vapor. Ivy, embaixo de mim, me instava a continuar. — Violet, você consegue! – Ela sussurrou, mas sua voz estava carregada de ansiedade. Em meio a um tremor, pulei do telhado, aterrissando em cima de Ivy. Caímos na neve com um baque abafado, e eu gemi de dor enquanto a intensa dor em minha perna se tornava quase insuportável. O calor do corpo de Ivy amorteceu o impacto, mas eu estava sangrando muito. Tudo começou a ficar embaçado à minha volta, e a fraqueza ameaçou me fazer desmaiar. Ivy percebeu minha condição crítica e começou a bater com delicadeza no meu rosto, pedindo desesperadamente para eu ficar acordada. — Violet, por favor, fique comigo! – Ela implorou, com os olhos cheios de lágrimas. A voz de Ivy ecoava distante enquanto eu lutava para manter os olhos abertos. Minha visão estava turva, e a neve ao meu redor parecia uma mancha branca. Com um esforço tremendo, Ivy conseguiu sair de debaixo do meu corpo e me ajudou a me levantar. Com seu apoio, eu comecei a andar apressadamente, mesmo mancando e cambaleando. A casa que avistamos era majestosa e imponente, com grandes janelas que pareciam observar silenciosamente a cena. O ar ao redor estava carregado de tensão e mistério, como se a própria casa guardasse segredos sombrios. Ivy se aproximou da porta, seus punhos batendo com força na madeira envelhecida. Seus gritos eram desesperados, carregados de urgência. — Alaric! Abra a porta, por favor! – Ela implorava, sua voz trêmula e cheia de ansiedade. – Violet está gravemente ferida! Você precisa nos ajudar! Cada batida parecia ecoar na noite silenciosa, e eu lutava para manter os olhos abertos, a visão turva e as palavras de Ivy distantes como um eco distante. A dor latejante em minha perna ferida era quase insuportável, mas eu sabia que não podia desmaiar agora. A luz da entrada da casa permanecia apagada, e não havia resposta imediata. Ivy continuou batendo e chamando por Alaric, suas lágrimas se misturando com a neve que começava a cair ao nosso redor. Era como se o tempo estivesse congelado naquele momento tenso. — Alaric, é a Violet. Ela está ferida, gravemente ferida. Precisamos de ajuda imediatamente! Senti minhas forças se esgotarem. Antes de cair completamente na escuridão do desmaio, ouvi a voz de Ivy mais uma vez, agora abafada e desesperada. — Por favor, Alaric, ela está morrendo! Minha visão ficou cada vez mais turva, e eu lutei para ficar consciente, mas a dor e a perda de sangue estavam me vencendo. A última coisa que vi antes de desmaiar foi Ivy, ainda batendo na porta com lágrimas nos olhos. (...) Minha visão estava turva e confusa, mas lentamente comecei a perceber o que estava ao meu redor. Estava deitada em uma cama macia, coberta por lençóis quentes. Tentei me mexer, mas uma dor aguda em minha perna me fez gemer de dor. Minha perna estava firmemente enfaixada, e uma sensação de calor irradiava dela, indicando que alguém havia cuidado dos meus ferimentos. Foi quando Ivy surgiu em meu campo de visão. Seus olhos estavam cansados, mas havia alívio neles quando percebeu que eu estava acordando. — Violet! – Ela exclamou, sua voz carregada de emoção. – Você está acordada. Eu tentei falar, mas minha garganta estava seca e áspera. Ivy rapidamente trouxe um copo d'água e me ajudou a beber, aliviando a secura em minha boca. — Onde estamos? – Finalmente consegui sussurrar. Ivy suspirou e se sentou ao meu lado na cama. — Estamos na casa de Alaric. Ele nos acolheu e cuidou de você. Você estava gravemente ferida, Violet. – Seus olhos se encheram de lágrimas novamente. Memórias fragmentadas começaram a retornar. O ataque, a fuga pelo telhado, a casa imponente e as batidas desesperadas de Ivy na porta. Eu estava viva, mas ainda não sabia como ou por quê. — Como você conseguiu que ele nos deixasse entrar? – Minha voz ainda estava fraca, mas eu precisava entender. Ivy olhou para baixo por um momento antes de responder. — Alaric é... bem, ele é um cientista. Ele tem mais conhecimento sobre os humanos do que o resto da alcatéia. Ele explicou a situação, disse que você poderia morrer se não fosse tratada. – ela suspira. – Ele nos deixou entrar sob a condição de que eu não representasse uma ameaça. Aquelas palavras eram reveladoras. Ivy estava gradualmente revelando que havia mais na alcatéia do que eu poderia ter imaginado. Alaric, o cientista que sabia sobre humanos, então era por isso seu fascínio por mim, sua interação comigo quando me viu pela primeira vez era estranha porém muito calma em comparação com aos outros desse lugar. — Ivy, o que está acontecendo aqui? – Minha voz estava mais firme agora. – O que é essa maldição? Ivy olhou para mim, seus olhos verdes cheios de tristeza e relutância. — É uma longa história, nem sei por onde começar. – ela senta ao meu lado na cama e encara suas mãos. Escuto Alaric gritar e apesar de não conseguir ouvir suas palavras, sei que era algo que o deixou furioso. — Pelo jeito as coisas estão agitadas aqui. – comento em um tom mais humorado, algo que a faz rir baixo. — Alaric e esta pesquisando alguns antídotos para os efeitos da maldição. – ela me olha brevemente. – Mas apenas conseguiu encontrar algumas formas de atrasar seus efeitos... Novamente escutamos a voz de Alaric, só que dessa vez um pouco mais humorada. — Ele muda bastante de humor. – ela diz entre uma risada. – Ele pode ser um pouco exagerado quando se trata de seus assuntos científicos. Escuto os gritos e rosnados do lado de fora da casa, agora estavam mais abafados, como se estivessem mais longe. — Não se preocupe, estamos seguras aqui. – ela sorri me tranquilizando. – Esse quarto fica longe de qualquer entrada da casa, então ficaremos bem. — É sempre agitado assim por aqui? – pergunto após ouvir mais gritos e rosnados. — Normalmente não... Mas tudo ficou fora de controle após Ayla adoecer. – ela suspira. – seu adoecimento deixou todos ainda mais tensos. Além de deixar todos mais agressivos, a maldição tem afetado ela de maneira diferente, forçando transformações frequentes e deixando-a enfraquecida. Eu estava começando a entender a complexidade da situação. O ambiente tenso, os confrontos e a preocupação de Ivy eram indicativos de um problema maior que estava afetando a alcatéia. Enquanto estávamos perdidas em nossos próprios pensamentos, ouvimos um grito alto seguido de sons de coisas quebrando. Ivy suspirou com uma expressão preocupada. — Eles não vão parar tão cedo. – Ela murmurou para si mesma antes de se levantar. – Vou ficar aqui com você. Talvez seja mais seguro até que as coisas se acalmem lá fora. Ela se sentou em uma cadeira próxima à cama e olhou para mim com um sorriso reconfortante. Eu não tinha certeza de como reagir a essa situação, mas sua presença ali me trazia algum conforto em meio ao caos. As horas pareciam se arrastar, e o tumulto lá fora continuava. Ivy e eu trocávamos poucas palavras, mas sua companhia era suficiente para me manter calma. Eventualmente, os sons começaram a diminuir gradualmente até que finalmente cessaram por completo. Ivy suspirou aliviada e se levantou da cadeira. — Parece que as coisas finalmente se acalmaram. – Ela olhou para mim com um sorriso cansado. – Desculpe por tudo isso, Violet. Não era para você ter vivenciado essa confusão. Eu balancei a cabeça, tentando mostrar que estava tudo bem. — Você não precisa se desculpar, Ivy. Eu entendo que as coisas não estão sob seu controle. – Minha voz saiu mais tranquila do que eu esperava. Ela se aproximou da cama e sorriu gentilmente. — Obrigada por compreender. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar. Eu assenti e a observei sair do quarto. Enquanto a porta se fechava, eu me vi pensando nas palavras de Ivy. A história deles não serem humanos estava começando a parecer mais plausível, especialmente após ter testemunhado a intensidade daquele tumulto. Eu me recostei na cama, fechando os olhos por um momento. Minha mente estava cheia de perguntas e incertezas, mas uma coisa era certa: eu estava no meio de algo muito maior do que eu podia compreender completamente.
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