— Sua perna está consideravelmente melhor. – seu entusiasmo era evidente. – Em todos esses anos, nunca vi uma recuperação tão rápida, nem mesmo em um dos nossos.
A voz de Alaric soou surpresa, e isso me fez sentir minhas bochechas esquentarem.
— É... Sempre me recuperei rápido. – sorri envergonhada. – Nunca fico doente ou me machuco... Deve ser alguma coisa genética.
— Interessante... – ele murmurou. – Você é muito diferente dos humanos que conheci, Violet.
Alaric olhou novamente para sua prancheta e suspirou. Sua mão passou por seu pescoço e uma risada nervosa escapou de seus lábios.
— Tem algo que me faz questionar se você realmente é humana. – seu nervosismo era evidente. – Mas precisarei investigar e aqui não tenho os recursos necessários.
Me sentei na maca, e minha pele se arrepiou ao sentir o estetoscópio gelado de Alaric em meu peito.
— Não entendi... Sou só uma pessoa comum. – disse ao vê-lo anotar algo em sua prancheta.
— Comum não é uma palavra que se aplica a você, mocinha. – ele piscou e sorriu. – Você tem muitas características diferentes, além de sua cicatrização incrivelmente rápida e sua ótima imunidade, sua mente é fascinante.
Mente fascinante? Já tinham falado muitas coisas a respeito de minha mente, mas nunca haviam dito que era fascinante.
— Minha mente é diferente... Mas é que... – minha voz falhou. – Bem, eu fui diagnosticada com esquizofrenia quando criança, às vezes tenho visões, escuto vozes...
— Não é isso que quero dizer. – ele me interrompeu.
Alaric fez um gesto para que eu me levantasse, e assim fiz. Ele mediu minha altura e anotou em sua prancheta.
— Nunca tinha visto um humano que entendesse nossa língua. – ele me olhou com seriedade. – E sobre sua esquizofrenia, bem... Estou aqui tempo suficiente para afirmar que as coisas não são como você pensa.
Suas palavras me deixaram confusa. O silêncio predominou na sala enquanto ele anotava mais algumas informações em sua prancheta.
— Hoje à noite meu irmão volta de sua viagem. – Alaric falou sem me olhar. – Como não precisarei ficar responsável pela sua proteção, poderei fazer minhas pesquisas fora da aldeia.
Às vezes, ainda me surpreendia com a revelação de que Dylan, Ayla e Alaric eram irmãos. Apesar de algumas semelhanças físicas, eles eram muito diferentes em personalidade.
— Eu vou poder ir com você? – minha fala soou receosa. – Queria voltar pra casa... Saber como minha família ficou, se ao menos a deram um enterro digno.
Alaric suspirou, e sua expressão se tornou triste. Seus olhos estudaram meu rosto por alguns segundos enquanto sua expressão ficava deprimida.
— Bem... eu entendo essa sua vontade. Lamento por sua família e por tudo que passou. – seu tom era triste. – Mas não sou eu que dito as regras, você já sabe que é o Dylan que está no comando aqui.
Faziam duas semanas desde que cheguei a essa aldeia; já tinha uma grande noção de como as coisas funcionavam, principalmente o sistema de hierarquia.
Dylan era o líder deles, o chamavam de alfa. Em sua ausência, Alaric cuidava das coisas mais urgentes enquanto Ayla mantinha a segurança e ordem; mas, com o adoecimento de Ayla, toda a responsabilidade ficou para Alaric, que além de ter que cuidar de mim e de seus experimentos atrás do antídoto, tinha que proteger e manter a ordem em meio a uma crise.
— Eu entendo. – Suspirei frustrada.
A última coisa que poderia ter agora era uma briga e um desentendimento com Alaric e os outros. Não podia desafiar a autoridade; precisava fazer amizade o máximo possível para que conseguisse sair desse lugar.
— Alaric, já que estou tão envolvida com as pesquisas, você conhece a origem dessa doença que atingiu os lobos? – Perguntei, olhando para ele com curiosidade.
Alaric suspirou profundamente, seus olhos se desviaram por um momento antes de finalmente responder:
— Violet, essa é uma questão complicada. A origem dessa doença é algo que estamos investigando... Precisamos de mais tempo e recursos para chegar a alguma conclusão. Por enquanto, focaremos em encontrar uma cura. - Ele mudou o tom da conversa. - Aliás, como se sente hoje? Alguma mudança desde a última vez que conversamos? Algo que você esqueceu de me contar em minha avaliação?
Suspiro frustrada e o olho cansada. Alaric não iria me revelar mais informações, eu sabia disso. Ele sempre desconversava quando era um assunto ligado aos lobos; acho que ele não tinha autorização pra falar comigo sobre essas coisas. Mas não iria desistir, iria questionar Dylan quando o encontrasse.
— Não... eu estou bem. – Disse com um sorriso fraco. – Gostaria de poder voltar a descansar.
Alaric parece satisfeito com minha resposta e aliviado com minha falta de interesse em continuar os questionamentos.
— Pode descansar. – Ele pega um frasco na cômoda e me entrega. – Beba isso, você irá relaxar e se sentirá melhor quando acordar.
Pego o frasco de vidro com incerteza. Alaric estava tentando me dopar?
— Isso é pra ajudar com sua ansiedade. – Ele diz ao notar minha desconfiança. – E embora ache que você não tem esquizofrenia, isso irá ajudar com seus sintomas até que eu consiga analisar melhor seu caso.
Sorri aliviada por sua explicação. Embora eu não tivesse o contado, as visões e vozes estavam mais fortes, apenas sumiam quando ele me dava seus preparados.
Abro o frasco e o cheiro de frutas cítricas invade minhas narinas. Desejo o líquido em minha boca e seu sabor doce me deixa enjoada.
— Pedirei para darem a você as próximas doses. – Alaric fala pegando o frasco vazio de minha mão. – Agora terei que sair para organizar algumas coisas na vila antes de minha partida. Pedirei que alguém de minha confiança venha verificar seu estado.
Agradeço antes de ir em direção ao corredor. Entro em meu quarto e me deito na cama sentindo os efeitos do remédio começarem a se mostrar.