Malia Mikhailov
O dia se desenrolou no silêncio tenso do meu quarto, evitando confrontos inevitáveis com meu pai. O medo de palavras ditas no calor do momento torna-se um peso adicional que me faz preferir a solidão. A noite avança, e minha mente continua a girar entre pensamentos tumultuados.
A dor de cabeça me força a sair do quarto em busca de alívio. Na cozinha, um remédio e um sorvete parecem ser a resposta momentânea para os tormentos que me assombram. Imersa em meus próprios pensamentos, encaro o pote de sorvete como um refúgio temporário.
Sem perceber, Zyan entra silenciosamente pela porta, e só noto sua presença quando sinto seus olhos sobre mim. O encontro de nossos olhares é um instante de compreensão silenciosa, como se nossas lutas individuais se conectassem em um momento de vulnerabilidade compartilhada.
A visão do meu irmão machucado contrasta fortemente com as lembranças mais antigas de nossa relação. A vontade de perguntar sobre seu estado de saúde e expressar minha preocupação é evidente, mas as palavras frias e distantes de muitos anos atrás ressoam como um eco persistente em minha mente.
As memórias me levam de volta ao dia em que ele retornou após os treinamentos, ansiosa e cheia de saudades. No entanto, a realidade daquele momento foi uma dolorosa revelação. Corri para seus braços, buscando o irmão que conhecia, mas ele permaneceu imóvel, distante. Tentativas de tocar seu rosto foram rejeitadas, e pela primeira vez, me deparei com um homem que não reconhecia diante de mim.
Essa ferida emocional perdura, moldando a dinâmica complicada entre nós. O dilema entre a preocupação genuína e o receio de rejeição cria um nó apertado dentro de mim enquanto observo meu irmão ferido, enfrentando a barreira que o tempo e as sombras da máfia ergueram entre nós.
A troca de olhares entre nós é carregada de significados não ditos, uma batalha silenciosa entre o desejo de reconexão e as cicatrizes profundas do passado. Meu irmão parece querer dizer algo, e sua expressão revela um misto de emoções, mas não consigo sustentar o olhar, desviando para o pote em minhas mãos como se encontrasse refúgio ali.
O som de meu nome pronunciado por ele ecoa como um eco de tempos mais simples, antes das sombras da máfia nos envolverem. Contudo, a tentativa de reparo esbarra na dura realidade das feridas emocionais que ele infligiu. A parte de mim que anseia pela reconexão se choca com a dura verdade de que as marcas deixadas por ele são profundas, moldando quem sou e obscurecendo qualquer possibilidade de restauração plena. O vínculo quebrado entre nós é um testemunho de como a máfia não apenas distorce relações, mas deixa cicatrizes que resistem ao teste do tempo.
O confronto familiar atinge um novo patamar, e as palavras cortantes que escapam de minha boca ecoam pelo ambiente tenso. A intervenção de meu pai, longe de acalmar as águas, parece amplificar a tempestade emocional.
— Como já te disse hoje cedo, não tem como você me impedir de ir. Podemos fazer isso sem destruir o resto que sobrou de nossa família, ao você se esquecer como se lida com uma, ou podemos chamar o conselho, e me desligo da vida de vocês para sempre. Uma bastarda, uma rejeitada, como sempre fui, eu prefiro renegar o seu nome ao ter que viver sobre suas regras e escolhas. — As palavras saem, e, mesmo sentindo um peso de culpa, a determinação em seguir meu próprio caminho permanece inabalável. Não desistirei da minha faculdade por ninguém, mesmo que isso signifique cortar laços familiares já fragilizados.
O peso das minhas palavras ecoa pela cozinha. Sei que pode parecer egoísmo de minha parte, mas sempre fui a pessoa que teve que ceder o tempo todo, e isso causou marcas profundas dentro de mim.
— Eu sei que para você, minhas vontades não significam nada. Já parou para pensar quantas vezes eu entendi o seu lado ao me deixar de lado, ou compreendi o lado de Zyan ao me afastar? Entendo o quanto a máfia é importante para vocês, mas você compreende o quão crucial é o ballet para mim. Entendo seu medo de que as pessoas descubram quem eu sou e que eu sofra por ser uma Mikhailov, mas sabe, assim como eu, que temos escolhas boas. Em que momento você parou para me ouvir?
A tensão na cozinha aumenta com a chegada da minha mãe, e seus olhos refletem uma mistura de surpresa e consternação diante das palavras que proferi. O ambiente está impregnado com a complexidade das relações familiares, e as emoções pairam no ar.
— Achei que havia ficado claro as minhas palavras a você mais cedo, Nikolai. — Sua voz é impregnada de irritação, uma resposta ao conflito que se desenrola na família.
Meu pai, por sua vez, expressa a frustração que as minhas palavras provocaram:
— Você ouviu o que sua filha me disse? Ouviu que ela prefere abandonar nossa família ao aceitar minhas
— Sim, eu ouvi e faria o mesmo que ela, como exatamente fiz quando eu matei um conselho inteiro para que eu pudesse viver minha vida sem que Pasquale interfirisse em minha vida. Sabe, Nikolai, ao meu ver, ao longo dos anos você se tornou exatamente o que Pasquale era para mim, e só você não vê. Sabe quantas vezes ela chorou por você? Por mais uma vez você não ter tempo para uma apresentação dela? Quantas vezes passamos noites em claro com medo de vocês não voltarem? Você sabe como sua filha sofreu quando só imaginou que não poderia mais dançar após uma lesão? — Ela desabafa, lançando as verdades que ecoam no silêncio da cozinha. — Não, você não sabe porque, de uns anos pra cá, você nunca esteve presente. Chego a me perguntar se você não tem mais alguém em sua vida? O seu problema Nikolai é querer ouvir apenas o que te convém.
— Não é o que você está pensando. Eu nunca te trairia. Você sempre foi e sempre será o amor da minha vida. Talvez eu tenha me perdido tentando acertar. Me desculpe por ter sido ausente em sua vida ou na vida de nossa filha, mas ela querer deixar de ser uma Mikhailov, isso já é demais.
— VOCÊ OUVIU ALGUMA COISA QUE EU TE DISSE ATÉ AGORA? Por que só ouve o que você quer? Será que estou falando grego? Este deveria ser um momento bom e feliz para mim, mas até nisso você consegue estragar. Talvez seja bom mesmo vocês voltarem para a sede da máfia ou irem para alguma missão, assim eu tenho paz. — Falo, permitindo que as lágrimas finalmente caiam pelos meus olhos. Estou cansada, NIKOLAI, cansada. Mas saiba que você não tirará o meu sonho de mim, isso eu não vou permitir, não desta vez.
Minha mãe o olha com fúria. — O que adianta pedir desculpas se continua fazendo, hein? Faça um bem por sua família pelo menos uma vez na vida e fique calado. E está decidido aqui e agora. Minha filha vai sim para a universidade na França e dançará o seu ballet nos maiores palcos de Paris ou do mundo, e você não vai falar mais nada. Se não, eu vou pegar minhas coisas e as dela e vou embora dessa casa, te deixando como você merece: sozinho com sua máfia. Estamos entendidos, Nikolai?
— Mãe, obrigada. — Expresso minha gratidão com lágrimas nos olhos, sentindo um peso se dissipar.
Nikolai, olhando para nós dois, parece refletir por um momento. — Eu... — ele começa a dizer, mas minha mãe o corta.
— As palavras já não têm o mesmo peso que tinham antes, Nikolai. Ações falam mais alto. Se realmente quer fazer a diferença, prove isso com seus atos. Agora, deixe-nos seguir nosso caminho.
O silêncio pesa na sala enquanto as decisões ecoam.
Nikolai abaixa a cabeça, parecendo absorver as palavras de minha mãe. A tensão na sala é palpável, até que finalmente ele murmura um sincero "Eu entendo".
Minha mãe e eu trocamos olhares, uma mistura de alívio e cautela. Ela se vira para mim com um sorriso, colocando a mão em meu ombro. — Vamos, minha filha, temos um futuro a construir. Nikolai, espero que encontre seu caminho e que, um dia, possamos reconstruir o que foi perdido.
Saímos da sala, deixando Nikolai sozinho. O futuro incerto, mas a determinação de seguir meus sonhos mais forte do que nunca.