Zarina Ivanov
Corro para meu quarto, preciso contar tudo para Malia. Pego o telefone e disco seu número, chamo várias vezes, mas ela não atende. Tento diversas vezes, mas sempre cai na caixa postal. Começo a ficar preocupada, hoje também chegaria a carta dela da universidade, e começo a pensar que a resposta pode ter sido negativa, ou que até mesmo a reação do tio Nikolai não tenha sido boa.
Meu pai sempre entendeu meu lado muito mais do que o pai de Malia. Tá, eu até entendo que ele seja o Don da bratva e meu seja o sub e conselheiro dele, mas mesmo assim, os limites impostos na vida de Malia sempre foram bem maiores.
Respiro fundo, tentando acalmar os nervos, e decido enviar uma mensagem para Malia, expressando minha preocupação e pedindo para que ela retorne assim que possível. Enquanto espero, tento manter a esperança de que a situação pode não ser tão grave quanto imagino.
Pois se ela não for comigo, não terá a mesma graça. Sonhamos com isso juntas, foi um juramento que fizemos há muito tempo, de que conseguiríamos passar por isso, não importa o que acontecesse. Então, a mínima hipótese de que ela não vá comigo me atormenta.
Recordo-me das noites em que traçamos planos e promessas, confiantes de que estaríamos lá uma para a outra, independentemente do que acontecesse. Agora, enquanto o telefone permanece silencioso, a ansiedade aumenta. A carta da universidade, que deveria trazer notícias empolgantes, torna-se um símbolo incerto do futuro que desejamos compartilhar.
Apenas imaginar a possibilidade de que Malia não esteja ao meu lado nessa jornada me provoca uma mistura de tristeza e apreensão. No entanto, mantenho a fé de que nossa amizade resistirá a qualquer desafio. Juntas, enfrentamos tempestades e celebramos triunfos, e acredito que este momento não será diferente. Independentemente do desfecho, continuarei esperando, confiante de que a força do nosso vínculo prevalecerá.
A atmosfera pesada da incerteza paira sobre mim enquanto deito na cama, repetindo ligações para Malia sem obter resposta, apenas o vazio silêncio que corta como uma lâmina. A noite passa, mas ao despertar, sinto-me estranhamente vazia, como se algo vital tivesse sido arrancado de mim. O telefone permanece nas minhas mãos, ainda aguardando um retorno que não chega.
Consciente de que preciso desviar minha mente, pego o computador e começo a pesquisar apartamentos próximos à universidade. No entanto, sei que a escolha passará por uma análise meticulosa da máfia para garantir a segurança. A questão dos sobrenomes torna-se um dilema, pois usar nossas identidades reais seria arriscado, expondo-nos como presas fáceis.
Enquanto navego por opções, a preocupação com a segurança domina meus pensamentos. Recordo-me do meu treinamento básico, que me proporciona alguma habilidade em autodefesa, incluindo o manuseio de armas. No entanto, a consciência de que Malia carece desse conhecimento adiciona uma camada extra de inquietação ao desafio que temos pela frente.
Sinto um misto de alívio e preocupação ao atender finalmente a ligação de Malia. Enquanto ela desabafa, meu coração aperta ao ouvir sobre a reação do pai dela.
— Meu Deus, como você faz isso comigo e quer me matar do coração? Estava preocupada.
— Me desculpa... — é tudo o que ela diz antes de cair em um choro sofrido, os soluços escapam de sua boca, e ela tenta sufocá-los com a mão.
— Ei, ei, está tudo bem. Se acalme e me fale o que aconteceu.
— Eu fui aceita na universidade e, antes mesmo que eu pudesse ler a carta, meu pai tomou ela de minhas mãos e começou a dar o seu show. Foi horrível.
— Malia, primeiramente, parabéns por ser aceita. Isso é incrível! Quanto ao seu pai, estamos juntas nisso. Vamos encontrar uma maneira de contornar essa situação e garantir que você possa seguir seus sonhos. Estou aqui para o que precisar.
Sinto um aperto no peito ao ouvir sobre a difícil situação de Malia, as palavras afiadas e a intervenção de seu irmão tornando a experiência ainda mais angustiante.
— As palavras faladas eram como facas afiadas, e por cima de tudo o meu irmão, que durante anos ignorou minha presença, quis se meter. Para que meu pai entendesse o meu lado, tive que dizer que chamaria o conselho e que renegaria o seu nome, o que me tornaria uma bastarda. Se não fosse pela minha mãe, tudo o que sempre amei na minha família teria sido jogado fora.
Compartilho um suspiro de solidariedade antes de responder à sua pergunta:
— Quanto a mim, sim, fui aceita na universidade. Primeiro contei para minha mãe, e a vovó Halina estava aqui; no meio de nossa conversa, meu pai acabou ouvindo. Tivemos um pequeno desentendimento, mas no final ele me entendeu.
Alegro-me por sua conquista e, ao ouvir sua pergunta, respondo com um sorriso na voz:
— A coisa mais importante? Claro que sim, Zarina. Vamos encarar essa jornada juntas, como sempre sonhamos. Nada vai nos separar, estaremos lado a lado na universidade, enfrentando o que vier. Estou ansiosa por compartilhar cada momento desse novo capítulo com você.
Finalmente seremos livres.
A conversa se transforma em planejamento e entusiasmo. Discutimos opções de moradia, estratégias para lidar com as tradições da máfia e a importância de preservar nossas identidades.
— Sobre nossas identidades, eu acho que sei o que pode ser feito, mas para isso preciso confirmar com o seu pai. — Diz Malia empolgada, é bom vê-la tão feliz; fazia tempos que eu não a via assim. Ela continua. — Na verdade, acho que temos que fazer um jantar com toda a família. Vamos precisar deles.