Depois de conversar com Zarina, desço as escadas correndo atrás de minha mãe e paro no último degrau quando vejo meu pai e meu irmão conversando sobre uma missão. Minha vontade era passar por eles sem nem dar bom dia, mas sei o quanto minha mãe ficaria chateada com isso.
— Bom dia. — Falo seca, andando em direção à cozinha.
— Bom dia. — Os dois respondem.
— Parece que alguém acordou animada para abandonar a família. — Meu pai diz com deboche.
— Nunca soube que quando alguém vai para a faculdade abandona a família. Aliás, se o Zyan está na sua frente, significa que isso não existe, ou existe só para o caso de quando a filha é mulher? — Perguntei no mesmo tom.
— Olha o jeito que você fala comigo. — Indagou irritado.
— Já ouviu falar sobre reciprocidade? Se quer respeito, deve me tratar da mesma forma, não é?
Antes mesmo que ele responda, saio dando as costas para ele em direção à cozinha.
— Mamãeeeee, mamãeeeeee! — Grito indo até ela.
— Alguém acordou animada, bom dia meu amor.
— Bom dia. — Respondo com um sorriso em meu rosto.
— Mas posso saber o motivo? — Ela pergunta curiosa.
— Estava falando com Zarina, e já sei como podemos resolver a questão da faculdade. Seu marido disse que o maior problema era as pessoas saberem que somos uma Mikhailov, certo? Então já sei como resolver esse “problema”, mas para isso, além de confirmar se é possível com o tio Dmitri, preciso que reúna a família toda para que isso dê certo.
Minha mãe olha para mim com curiosidade enquanto coloca a chaleira no fogo.
— Reunir a família? O que está acontecendo, querida?
— Zarina e eu descobrimos uma maneira de lidar com as questões de identidade, mas é crucial que todos estejam envolvidos para que funcione. Ou melhor a vovó e o vovô têm que estar presentes.
— Qual deles, meu amor? O vovô Leonid e a vovó Yulia.
— Sim, precisamos que ambos estejam presentes. — Confirmo, percebendo a importância de ter a sabedoria e a autoridade de ambos os avós para respaldar nossa proposta.
Minha mãe olha para mim com uma mistura de surpresa e interesse.
— Malia, o que vocês duas estão planejando? — Ela pergunta, sua expressão agora séria, mas ainda cheia de curiosidade materna.
— Não posso explicar agora, mamãe. É algo que precisa ser discutido em família. Mas eu prometo que será para o melhor de todos nós, especialmente para proteger nossa identidade e segurança. — Respondo, tentando transmitir minha confiança na ideia sem revelar detalhes prematuramente.
Minha mãe assente lentamente, aparentemente compreendendo a seriedade da situação.
— Muito bem, Malia. Vou falar com seu pai e organizar uma reunião familiar para esta noite. Mas, por favor, me prometa que você não está se envolvendo em nada perigoso. — Ela diz, preocupada.
— Eu prometo, mamãe. Confie em mim, nós só queremos proteger nossa família. — Respondo sinceramente, sentindo o peso da responsabilidade sobre meus ombros.
Com um aceno de cabeça, minha mãe volta sua atenção para a chaleira, deixando-me com meus pensamentos enquanto aguardamos a reunião que determinará o futuro de nossa família.
A semana passou bem rápido, graças a Deus. Enquanto o tão esperado sábado não chegava, quando toda nossa família estaria reunida, eu preferi ficar mais quieta no meu quarto para evitar mais drama com meu pai e meu irmão. Aproveitei esse tempo para separar todas as roupas, sapatos, acessórios, perfumes e maquiagens que provavelmente levarei para Paris.
Minha mãe entrou no meu quarto e avisou que todos viriam para o almoço. Entrei no chuveiro, lavei meus cabelos, saí do banho, passei creme pelo corpo, fiz uma maquiagem leve e vesti um vestido fresquinho com uma sandália.
Quando desci as escadas, todos já estavam lá. Meu pai me olhou com uma carranca severa.
— Finalmente a Margarida resolveu sair do quarto. — Ele disse, com um tom sarcástico.
— O que foi, pai? Já quer arrumar confusão logo cedo? Não cansa de me humilhar só porque não aceito viver sob suas regras? Só porque não aceito viver na redoma de vidro que você quer me colocar? Sabe de uma coisa? Este almoço foi um erro. Eu não preciso de você. Prefiro ser deserdada do que continuar sendo sua filha. — As palavras saíram amargas da minha boca e uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Minha mãe interveio, tentando amenizar a situação.
— Eu te pedi tanto, Nikolai, tanto para você não fazer isso. Olha aqui, a nossa filha vai sim para Paris, vai sim para a universidade que ela escolheu e você não vai impedi-la.
— Zoya!! — Ele gritou para minha mãe. — Você acha mesmo que ela sabe se cuidar? Uma menina que foi mimada a vida toda? Ela não sabe nem fritar um ovo.
Senti a raiva fervendo dentro de mim. Era como se todas as injustiças que tinha suportado ao longo dos anos estivessem se acumulando naquele momento.
— Se você tivesse separado uma hora do seu dia para mim, em vez de pensar só na máfia e no seu filho de ouro, você saberia que eu sei fazer muito mais do que fritar um ovo. Você teria visto a mulher que me tornei.
O silêncio se instalou na sala. Todos olhavam para mim, alguns com surpresa, outros com reprovação. Mas, pela primeira vez, eu não me importava. Eu estava decidida a lutar pelo meu futuro, mesmo que isso significasse romper com a minha família.
Aqui está o trecho revisado e com mais contexto:
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— Já chega vocês dois! Não é assim que vão resolver essa situação. O que está acontecendo? Por que está agindo desse jeito, Nikolai? — perguntou meu avô, dirigindo-se ao meu pai.
— Ela quer fazer faculdade em Paris. Dá para acreditar numa coisa dessas? — respondeu meu pai, indignado.
— Todas têm o mesmo direito, não acha? Suas irmãs fizeram faculdade no exterior, minhas filhas também foram. Então pare de fazer uma tempestade por nada — replicou meu avô, tentando trazer a razão à conversa.
— Somos um Mikhailov, p***a! Vocês não entendem isso? — disse meu pai, furioso.
Eu já estava cansada da mesma conversa e da mesma resistência. Respirei fundo e, com voz firme, falei:
— Sim, somos Mikhailov. Mas desde quando alguém conhece meu rosto, hein? Desde quando alguém que não seja dessa maldita máfia sabe que eu sou sua filha? Parabéns, Senhor Mikhailov, você conseguiu me esconder do mundo. Mas se pensa que vou continuar escondida, está muito enganado. Eu não ficarei escondida. Está me ouvindo?
O silêncio caiu sobre a sala novamente. Meu avô, olhando para mim com uma mistura de orgulho e preocupação, deu um passo à frente e colocou uma mão no ombro do meu pai.
— Nikolai, deixe sua filha viver. Ela merece a chance de encontrar seu próprio caminho. Ela é uma Mikhailov, sim, mas isso não significa que ela não possa ter seus próprios sonhos e ambições.
Meu pai parecia dividido entre o orgulho e a raiva, mas, por um breve momento, vi uma faísca de compreensão em seus olhos. A batalha não estava ganha, mas ao menos havia uma pequena chance de que ele começasse a entender.