Capítulo 8 Zarina

1398 Palavras
Eu nunca pensei que o tio Nic pudesse tratar a Malia daquele jeito. Sei que ele faz de tudo para proteger a família, mas dessa vez ele passou dos limites. Na verdade, se formos observar bem, ele tem pegado pesado há algum tempo. Antigamente, quando éramos crianças, não era assim. Eles pareciam uma daquelas famílias felizes e amorosas de comercial de TV. Mas tudo mudou quando Zyan começou o treinamento na máfia. Malia foi colocada em uma redoma. Não podia ter amigos, sair ou mesmo ir a pequenas festas, por mais inofensivas que fossem. Ela tinha tudo de material que podia desejar, mas por mais que se esforçasse, nunca conseguiu se sentir orgulhosa ou ganhar algum reconhecimento do tio Nic. Tudo para ele girava em torno do filho, que se tornaria o futuro Don. Ele deixou Malia de lado. Após toda a gritaria e palavras jogadas ao vento como se não significassem nada, o avô da Malia interveio. O silêncio reinou por um longo momento. O olhar perdido de Malia causava pena, mas apenas eu sabia que, naqueles mesmos olhos, havia uma determinação que ninguém mais conhecia. Ela estava disposta a abrir mão até mesmo da família para sair da redoma que a cercava. — Como Dmitri reagiu a tudo? — Minha tia Zoya perguntou, tirando-me de meus pensamentos tumultuados. — Ele agiu melhor do que o esperado. Teve um leve surto, mas entendeu meu lado. Por isso fiquei assustada com a reação do tio Nic. — Respondi. Malia sempre foi uma alma livre, e ver como ela era controlada me partia o coração. Desde pequenas, éramos inseparáveis. Ela, com seus sonhos de explorar o mundo, e eu, com minha sede de conhecimento. Mas, com o passar dos anos, enquanto eu podia seguir meu caminho, Malia foi aprisionada por expectativas e obrigações que nunca escolheu. Tio Nic era um homem complexo. Sua obsessão por manter o legado da família o cegava para as necessidades e desejos dos outros. Ele queria moldar Zyan para ser seu sucessor, mas, nesse processo, ele negligenciava o impacto de suas ações sobre Malia. E ela, tão resiliente, começava a perder seu brilho. — Lembro de quando éramos crianças e Malia sonhava em ser fashionista. — Continuei, minha voz carregada de nostalgia. — Ela pintava, fazia modelos e escrevia poesia. Mas agora, tudo isso parece um sonho distante. — É, ela sempre foi especial. — Zoya assentiu, pensativa. — E merece ser feliz, fora dessa gaiola dourada. Sabíamos que algo precisava mudar, mas enfrentar tio Nic era uma tarefa assustadora. No entanto, a determinação de Malia poderia ser o catalisador necessário. Ela tinha uma força interior que ninguém suspeitava, e talvez, finalmente, fosse hora de ela reivindicar sua liberdade. Claro, vou corrigir e aprimorar essa parte do diálogo e narrativa: --- — Vocês falam como se eu não estivesse aqui. — Tio Nic solta em um sussurro. Eu me levanto, determinada. — Claro, você só tem olhos para o Zyan e sempre foi assim. O que você sabe sobre sua própria filha, tio? Você já viu algum desenho dela? Já viu as roupas que ela criou? É triste ver no que o senhor se tornou. — Digo com a voz embargada. — Quando éramos crianças, eu achava lindo o jeito que o senhor cuidava e amava ambos, mas hoje... — Ah! — Hoje eu sinto vergonha do homem que o senhor se tornou. Zyan, assim como o resto da família, permaneceu em silêncio durante todo o tempo. As palavras pairavam no ar, carregadas de uma verdade incômoda. Tio Nic, por um momento, pareceu abalado. Seu olhar, que sempre fora de aço, suavizou-se ligeiramente, mas logo ele retomou sua expressão severa. Malia, ao meu lado, segurava minha mão com força, e eu podia sentir a tensão em seus dedos. — Você não entende, Zarina. — Tio Nic começou, sua voz baixa, quase um murmúrio. — Tudo o que faço é para proteger esta família. Para garantir que Zyan esteja preparado para o futuro. — E Malia? — Minha voz tremia, mas mantive o olhar firme. — Ela também é sua família. Ela também precisa de você, não como um carcereiro, mas como um pai. Se proteger significa destruí-la, que tipo de proteção é essa? O silêncio voltou a reinar, mas desta vez era pesado, quase sufocante. Cada um dos presentes parecia perdido em seus próprios pensamentos. O avô da Malia olhava para o chão, sua expressão dura mas resignada. Tia Zoya, normalmente tão falante, parecia estar em conflito. — Eu... — Tio Nic começou novamente, mas suas palavras ficaram presas na garganta. — Não adianta. — Zyan finalmente falou, sua voz baixa mas clara. — Você nunca vai entender o que está fazendo com ela, pai. A sala estava carregada de emoções conflitantes. Malia, com os olhos brilhando de lágrimas, respirou fundo e deu um passo à frente. — Eu não sou um objeto que você pode controlar, pai. — Sua voz era suave, mas firme. — Eu sou sua filha, e mereço viver minha vida. As palavras de Malia foram como um golpe. Tio Nic, pela primeira vez, parecia verdadeiramente afetado. Eu não sabia o que viria a seguir, mas sentia que algo havia mudado. Uma semente de compreensão, talvez, havia sido plantada. E, com sorte, ela poderia crescer e florescer, trazendo consigo a mudança tão necessária. Tio Nic permaneceu em silêncio, processando as palavras de Malia. A tensão na sala era palpável, e todos nós esperávamos sua reação. Ele olhava para Malia, seus olhos duros e implacáveis, mas havia um brilho de conflito interno. — Eu... — começou, a voz rouca, mas firme. — Talvez eu tenha me perdido no caminho. — Ele olhou diretamente para Malia, sua expressão séria. — Fiz o que achei que era certo para proteger a família, mas talvez tenha cometido alguns erros. Malia deu um passo à frente, seus olhos ainda brilhando com lágrimas, mas sua postura demonstrando determinação. — Pai, não se trata apenas de me proteger. Trata-se de me permitir viver, fazer minhas próprias escolhas, cometer meus próprios erros. Você precisa confiar que eu posso cuidar de mim mesma. Tio Nic estreitou os olhos, sua expressão endurecendo novamente. — Confiança se ganha, Malia. — Ele disse friamente. — E, até agora, você não mostrou que pode lidar com as responsabilidades da nossa família. Malia não recuou. Ela manteve-se firme, desafiando o olhar severo do pai. — Como posso mostrar se nunca tenho a chance? — Ela retrucou. — Estou pedindo uma oportunidade, pai. Só isso. Tudo começou a sair dos trilhos novamente. Tio Nic não abria mão de seus pensamentos tão retrógrados. Ele se recusava a ver além de suas rígidas convicções, e cada tentativa de diálogo parecia bater em uma parede de aço. Quando abri a boca para tentar novamente, minha mãe segurou meu braço com firmeza. — Já chega, querida. Meu irmão é um cabeça dura, e nada do que vocês falarem mudará isso. O avô de Malia se levantou abruptamente, sua voz firme cortando o ar. — Já chega, Nicolai. Já chega. Tio Nic virou-se para ele, a expressão endurecida. — Eu faço o que é necessário para proteger esta família. Sempre fiz e sempre farei. Não vou mudar porque alguns de vocês acham que sabem melhor. — Proteger? — O avô de Malia retrucou, sua voz carregada de frustração. — Você está destruindo-a! Malia é sua filha, não sua prisioneira. Você está cegando-se pela sua própria arrogância. O olhar de Tio Nic era frio como gelo. — A família precisa de disciplina. Sem ela, somos vulneráveis. Não vou arriscar nossa segurança por idealismos tolos. Malia deu um passo à frente, a voz trêmula mas resoluta. — Pai, isso não é vida. Eu não quero viver assim. Estou implorando por uma chance de ser eu mesma. — Chega, Malia! — Tio Nic cortou, sua voz firme e implacável. — Você não entende o que está em jogo aqui. Eu podia sentir a frustração fervendo dentro de mim. — E você não entende o que está fazendo a ela! — Retruquei. — Está sufocando sua própria filha, afastando-a de você e da família. Minha mãe apertou meu braço mais uma vez, tentando me conter, mas não consegui me calar. — Você está tão obcecado em proteger a família que nem percebe que está destruindo-a por dentro. — Continuei, minha voz ecoando na sala.
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