Capítulo 9 Malia

1215 Palavras
— Eu não vou abrir mão da minha vida por suas convicções, pai. Como te disse várias vezes, se essa é a última coisa que você tem a dizer, então prefiro ser deserdada desta família. Todos na sala me olham chocados. Meu pai se levanta furioso, vindo em minha direção, e levanta a mão para me dar um tapa, mas Zyan é mais rápido e o segura. — Pai, acalme-se. Pense no que está fazendo. A Malia não merece ser tratada assim. — Meu irmão intervém, segurando firmemente o braço do nosso pai. — Você está passando de todos os limites, Nikolai. — Meu avô acrescenta, com voz firme. A tensão na sala se torna insuportável. Meu pai, ainda ofegante de raiva, olha para Zyan e depois para mim. A luta interna dele é visível, uma batalha entre seu desejo de controle e o amor, ainda que distorcido, que sente por nós. — Vocês acham que é fácil? — Grita ele, a voz ecoando pelo salão. — Vocês acham que eu quero ser esse monstro? Eu só quero proteger vocês, manter vocês seguros! — Mas não é assim que você faz isso, pai. — Respondi, minha voz tremendo mas determinada. — Manter-nos presos, com medo, não é proteção. É controle. E eu não vou mais viver assim. Meu avô se aproxima e coloca uma mão no ombro do meu pai. Meu pai respirou fundo, o rosto ainda contorcido pela raiva, mas algo na postura dele parecia menos rígido. — Eu só quero protegê-la, Leonid. — Disse ele, quase sussurrando. — Nicolai, às vezes proteger é deixar ir. — Respondeu meu avô, com uma sabedoria que só os anos poderiam conferir. — Você não pode manter a Malia trancada para sempre. Deixe-a viver, deixe-a aprender, seja o porto dela, deixe que ela saiba que se algo sair do controle ela tem para onde voltar ela tem quem a protegia. — Eu não vou me perder. — Acrescentei, tentando manter a voz firme apesar do tremor que sentia por dentro. — Eu vou para Paris para estudar, para construir meu futuro. Isso não significa que eu estou abandonando a família. Significa que estou tentando ser mais do que apenas um nome. Meu pai passou a mão pelos cabelos, um gesto que sempre fazia quando estava pensando intensamente. Finalmente, ele olhou diretamente nos meus olhos. — Eu não posso prometer que vou gostar disso, Malia. Mas vou tentar entender. Essas palavras, embora longe de uma aceitação completa, eram o mais próximo de um acordo que eu já tinha ouvido dele. Meu avô deu um passo para trás, um sorriso sutil de satisfação em seu rosto. — É um começo. — Disse ele. A tensão no ar parecia diminuir, ainda que apenas um pouco. Minha mãe, que até então tinha ficado em silêncio, se aproximou e colocou um braço em volta de mim. — Vamos almoçar. — Disse ela suavemente. — Este é um dia para a família, afinal. Todos nós nos movemos em direção à sala de jantar. O aroma de comida caseira preenchia o ar, lembrando-me dos almoços em família que tínhamos quando eu era mais nova, antes de todas as tensões e conflitos. Sentamos à mesa, e por um breve momento, havia uma trégua. Conforme o almoço prosseguia, a conversa se tornou mais leve, com risadas e histórias do passado. Senti um alívio crescente ao perceber que, mesmo com todas as nossas diferenças, ainda havia um vínculo que nos unia. Depois do almoço, enquanto todos estavam distraídos com sobremesas e conversas paralelas, meu avô me chamou para um canto da sala. — Eu sabia que você tinha coragem, Malia. — Disse ele, sorrindo. — Paris será uma aventura, mas também uma grande oportunidade. Aproveite cada momento. — Obrigada, vovô. — Respondi, emocionada. — Eu vou fazer o meu melhor para honrar o nome dos Mikhailov, mas também para encontrar o meu próprio caminho. Ele assentiu, com um brilho de orgulho nos olhos. — Lembre-se sempre, você é mais do que apenas um nome. Você é quem decide o que fazer com a sua vida. Enquanto ele se afastava para se juntar aos outros, olhei ao redor da sala, vendo minha família com novos olhos. Havia ainda muito a ser resolvido, muitas batalhas a serem enfrentadas, mas naquele momento, eu me sentia um pouco mais livre, um pouco mais capaz de seguir meu próprio caminho. E Paris, com todas as suas promessas e desafios, me aguardava. Zarina veio até mim e me abraçou com entusiasmo. — Conseguimos, finalmente teremos nossa liberdade! Paris, nos aguarde, estamos chegando! — Ela gritou rindo, enquanto meu pai apenas nos observava. — Sim, conseguimos! — Respondi, rindo de volta para ela. Minha mãe, interrompendo a comemoração, disse: — Desculpem quebrar o clima de vocês, mas antes de toda essa confusão, vocês disseram que tinham um plano para garantir que suas identidades estariam seguras, não é? Zarina e eu trocamos um olhar cúmplice antes de responder. — Na verdade, não resolvemos isso sozinhas. Pegamos a ideia da tia Isenna. Quando ela foi estudar fora, ela usou outro sobrenome, certo? — Sim, na época, meu pai arranjou um outro sobrenome para mim. Mas por que a pergunta? — Minha tia Isenna perguntou, intrigada. — Entre todos aqui, apenas uma pessoa não era da máfia quando se casou, não é? — Disse Zarina, enquanto nossos pais nos olhavam como se tivéssemos 30 cabeças. — Como vocês sabem disso? — Perguntou o tio Dmitri, surpreso. — Vamos dizer que vocês da Bratva ou de São Petersburgo não têm os melhores bloqueios. Tivemos que gastar apenas um tempinho hackeando o sistema de vocês e descobrimos que a vovó Yuliya não pertencia a máfia alguma. Então, pensamos que talvez pudéssemos usar os sobrenomes do país dela. — Expliquei. Zarina continuou: — Por exemplo, eu usaria o sobrenome do pai da vovó e me chamaria Zarina Minisk, e a Malia usaria o sobrenome da mãe da vovó e se chamaria Malia Monroe. O que acham? Todos na sala ficaram em silêncio, processando a informação. Meu pai foi o primeiro a quebrar o silêncio, ainda com uma expressão de ceticismo misturada com resignação. — Vocês realmente pensaram em tudo, não é? — Ele disse, suspirando. — Eu ainda não gosto dessa ideia, mas reconheço que vocês foram inteligentes em encontrar uma solução. Minha mãe sorriu, orgulhosa e aliviada ao mesmo tempo. — Eu acho que é uma excelente ideia. Vocês estarão seguras e poderão viver suas vidas sem o peso do nosso nome. Meu avô assentiu, um sorriso surgindo no canto dos lábios. — Vocês têm minha bênção. Que Paris seja uma nova e maravilhosa aventura para vocês. Zarina e eu nos abraçamos novamente, rindo e chorando ao mesmo tempo. Pela primeira vez em muito tempo, sentíamos que a liberdade estava ao nosso alcance. Enquanto a conversa na sala retomava seu curso, agora com um tom mais leve e esperançoso, eu sabia que a decisão de usar os sobrenomes da vovó Yuliya seria uma maneira de honrar nossas raízes sem carregar os fardos da família. Olhei para meu pai uma última vez, e ele deu um aceno quase imperceptível de aprovação. Não era muito, mas era um começo. E, com isso, Paris nos aguardava, cheia de promessas e novas possibilidades.
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