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Um dia a notícia chegou como uma sentença.
A princesa Isadora estava sentada diante da penteadeira quando a porta do quarto se abriu com força.
Sua mãe entrou acompanhada do rei conselheiro.
Os dois tinham expressões sérias.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela, sentindo um aperto estranho no peito.
O pai se aproximou.
— Filha... recebemos uma proposta de casamento.
Isadora sorriu de leve.
Era comum. Desde os dezesseis anos recebia propostas de príncipes, duques e nobres.
— E quem é o pretendente?
O silêncio que se seguiu fez seu sorriso desaparecer.
A rainha segurou as mãos da filha.
— É o rei Magnus.
O mundo pareceu parar.
— Não...
Sua voz saiu num sussurro.
— Não... não pode ser ele.
Magnus.
O rei do reino vizinho.
O homem cuja fama atravessava fronteiras.
O carrasco.
O c***l.
O viúvo de cinco esposas.
Cinco.
Todas mortas.
Isadora levantou tão rápido que a cadeira caiu atrás dela.
— Não!
Seu peito subia e descia em desespero.
— Não! Eu não vou!
— Filha...
— Todas morreram!
As lágrimas surgiram imediatamente.
— Todas elas morreram! Como podem me pedir isso?
O rei fechou os olhos.
— Nosso reino está falido.
— Então me vendam como escrava! Vai dar no mesmo!
— Isadora!
— É verdade!
Ela começou a recuar.
As mãos tremiam.
— Ele matou as esposas dele!
— Não existe prova disso.
— Mas todas morreram!
A princesa sentiu o ar faltar.
As histórias eram conhecidas.
A primeira rainha teria morrido após uma queda misteriosa.
A segunda desapareceu durante uma caçada.
A terceira morreu de febre.
A quarta afogada.
A quinta durante o parto.
Acidentes.
Sempre acidentes.
Mas ninguém acreditava.
Ninguém.
— Eu vou morrer...
As lágrimas escorriam sem controle.
— Vocês estão me mandando para morrer.
A rainha começou a chorar também.
— Filha, nós não temos escolha.
— Sempre existe escolha!
— Não para um reino à beira da guerra.
O pai abaixou a cabeça.
Aquilo foi pior.
Porque Isadora percebeu que a decisão já estava tomada.
Não era um pedido.
Não era uma proposta.
Era um acordo.
Ela caiu de joelhos.
— Por favor...
Sua voz falhou.
— Por favor, não façam isso.
A rainha correu para abraçá-la.
Mas Isadora estava em pânico.
O corpo inteiro tremia.
O coração disparado.
— Eu não quero morrer...
— Nada vai acontecer.
— Cinco mulheres morreram!
Ela se afastou.
Os olhos vermelhos.
Assustados.
— Cinco!
O rei não conseguiu encará-la.
Porque no fundo ele também tinha medo.
Mas a aliança com Magnus salvaria o reino.
Salvaria milhares de pessoas.
Mesmo que custasse a felicidade da própria filha.
Quando seus pais saíram do quarto, Isadora ficou sozinha.
Imóvel.
Em choque.
Horas depois, a criada encontrou a princesa sentada no chão.
Abraçada aos joelhos.
O vestido amassado.
Os olhos inchados.
— Alteza...
— Quantos dias?
— O quê?
— Quantos dias até eu me casar com ele?
A criada engoliu seco.
— Trinta.
Isadora fechou os olhos.
Trinta dias.
Trinta dias até ser entregue ao homem mais temido dos reinos.
Trinta dias até descobrir se as histórias eram mentiras.
Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, o Reino de Valdoria se movimentava como nunca.
Servos corriam pelos corredores.
Criados limpavam salões.
Jardineiros trabalhavam dia e noite nos jardins do castelo.
Tapeçarias novas eram penduradas.
Móveis eram substituídos.
Tudo precisava estar perfeito.
No centro de toda aquela agitação estava o homem que causava medo em metade do continente.
O rei Magnus.
Alto.
Imponente.
De expressão severa.
Seu nome era suficiente para fazer soldados experientes ficarem em silêncio.
Ele observava os preparativos da varanda do castelo.
— O quarto da rainha está pronto? — perguntou.
— Ainda não, Majestade.
— Então terminem hoje.
— Sim, Majestade.
O servo saiu praticamente correndo.
Magnus voltou a observar os jardins.
Ao seu lado estava seu conselheiro mais antigo.
— Ela está assustada.
Magnus soltou um suspiro cansado.
— Eu imaginei.
— O reino inteiro comenta sobre isso.
— Eu também imaginei.
O conselheiro hesitou.
— As pessoas acreditam que o senhor matou suas esposas.
O silêncio caiu.
Magnus continuou olhando o horizonte.
Seu rosto não demonstrava nada.
Mas seus olhos escureceram.
— Eu sei.
A voz saiu baixa.
Pesada.
Cinco mulheres.
Cinco funerais.
Cinco tragédias.
E nenhuma delas causada por ele.
Mas ninguém acreditava.
A primeira esposa morreu após cair de um cavalo durante uma caçada.
A segunda sofreu uma doença rara.
A terceira foi vítima de uma epidemia.
A quarta morreu afogada quando uma embarcação virou.
A quinta...
A quinta ainda era a lembrança mais dolorosa.
Morreu ao dar à luz uma menina que também não sobreviveu.
Desde então, Magnus nunca mais sorriu da mesma forma.
Nunca mais permitiu que alguém se aproximasse verdadeiramente.
E a fama de c***l só cresceu.
Porque a dor o transformou.
Ele se tornou mais frio.
Mais rígido.
Mais severo.
Mais distante.
— Ela provavelmente me odeia sem sequer me conhecer — disse ele.
— Talvez.
Magnus soltou uma risada sem humor.
— Talvez eu também me odiasse se estivesse no lugar dela.
O conselheiro o observou por alguns segundos.
— Então por que insistiu nesse casamento?
Magnus ficou em silêncio.
Demorou para responder.
— Porque estou cansado de viver em um castelo vazio.
A resposta surpreendeu até o velho conselheiro.
Magnus apoiou as mãos na pedra da varanda.
— Não espero amor.
Não espero carinho.
Nem confiança.
Mas gostaria que ao menos uma pessoa me enxergasse como um homem... e não como um monstro.
O conselheiro não respondeu.
Porque pela primeira vez em muitos anos, o rei parecia cansado.
Muito cansado.
Naquela mesma noite, Magnus entrou pessoalmente no quarto preparado para a futura rainha.
Tudo estava impecável.
Cortinas novas.
Flores frescas.
Uma lareira elegante.
Uma enorme varanda com vista para os jardins.
Ele caminhou pelo cômodo em silêncio.
Observando cada detalhe.
— Troquem essas rosas.
Uma criada arregalou os olhos.
— Majestade?
— Descobri que a princesa prefere lírios.
— Sim, Majestade.
Ele assentiu.
Depois passou os dedos sobre a moldura dourada de uma janela.
Pensativo.
Em algum lugar, naquele exato momento, estava a jovem que se tornaria sua esposa.
Provavelmente chorando.
Provavelmente aterrorizada.
Provavelmente imaginando que ele era um assassino.
Magnus fechou os olhos por um instante.
— Espero que um dia você descubra a verdade.
Murmurou para si mesmo.
Do lado de fora, a lua iluminava o castelo.
E pela primeira vez em muitos anos, o rei c***l e temido sentiu algo que não permitia sentir havia muito tempo.
Nervosismo.
Porque em trinta dias a princesa chegaria.
E ele não fazia ideia se encontraria uma esposa...
Ou alguém que passaria todos os dias desejando escapar dele.
Ou se ela seria a sexta esposa a morrer.