Paola.
Meu celular desperta e a primeira coisa que faço é verificar o aplicativo para saber como as ondas estão. Corro para tomar banho e liberar meu corpo da sonolência. Ao entrar na cozinha vejo minha vovozinha linda. Ela está passando um cafezinho, com aquele aroma delicioso pronta para ir à missa das sete da manhã, como todos os dias. Dona Tereza Zabat é católica fervorosa.
— Vó, quer carona até a igreja? — eu pergunto.
— Claro! — ela responde já me servindo o seu delicioso café.
Gosto de ser bem prestativa, pois, tudo que tenho e sou, devo a eles. Eles sempre ajudaram a minha mãe a bancar meus estudos e, quando fiz 18 anos, deram-me um carro.
Hoje, como só dou aula à tarde, vou surfar um pouco.
— Paola, você vem almoçar em casa? — minha avó pergunta.
— Não, dona Tereza, estou levando minha bolsa com meus pertences para poder tomar banho na escola, pois minhas aulas de hoje são no bairro do Recreio e vou surfar na Prainha, que fica próximo. Então, economizarei tempo, gasolina e poluirei menos o ambiente.
Chegando à sala, deparo-me com o meu avô Francisco Zabat, lendo seu jornal. Faça chuva ou sol, meu avô tem que ler suas notícias. Dou um beijo na careca do meu avô e saio com minha avó. Deixo-a na igreja e sigo rumo à onda perfeita.
Estaciono na Prainha, retiro do carro minha Principessa(princesa), apelido que dei para a minha prancha. Dei esse nome porque era a forma carinhosa que meu pai me chamava. As poucas lembranças que tenho, são das suas brincadeiras me ensinando italiano. Por isso, fiz questão de aprender um pouco do idioma italiano, pelo meu pai, e grego pelos meus avós. Retiro a camisinha da prancha e guardo no carro. Passo protetor labial e protetor solar no rosto e corpo.
No quiosque, guardo minha chave com o Amadeu, meu amigo, dono do quiosque Soul. Na areia, cumprimento alguns brothers (irmãos) com aloha (saudação usada pelos surfistas), passo parafina na prancha, alongo-me, visto meu John (roupa de neoprene), então, hora de saudar o mar para cair na água. Tenho o ritual de colocar a mão na água e me benzer pedindo proteção. Prendo o leash (corda que te prende a prancha) na perna, avisto o inside, (lugar onde as ondas quebram), remo até a arrebentação, furando as ondas, e chego até o outside (depois da arrebentação).
É aqui que faço minha higiene mental, encontrando meu equilíbrio e esqueço meus problemas.
Saio do mar depois de aproveitar várias séries perfeitas, pois o deus supremo Poseidon (deus dos Mares), não deixou a desejar, mantendo grandes as ondas.
Caminho até o chuveirinho do quiosque Soul, lavo e limpo a Principessa, peço ao Amadeu uma água de coco bem gelada e um sanduíche natural.
— Fala, aê, Amadeu! Tem visto o Dom, o shaper(profissional que fabrica pranchas)?
— Última vez que ele esteve aqui foi sábado. Quando está cheio de prancha para entregar, ele some. — Amadeu responde.
— Essa semana dou uma passada lá na oficina dele e vejo se já terminou minha encomenda.
— Vai, sim, Zabat. — Assim nos despedimos.
Dou aula na escola até às dezessete horas. Trabalho em três escolas, duas delas no Recreio dos Bandeirantes, perto da praia, e uma no subúrbio, perto da minha casa.
Saio correndo da escola para encontrar minha bestforever (melhor para sempre), Amanda. Somos amigas inseparáveis, fizemos faculdade juntas e sempre que podemos marcamos de malharmos para colocar nosso assunto em dia.
Amanda é bailarina. Trabalha em um programa de televisão aos domingos. Não é para me gabar, mas minha amiga dança muito.
— Miga, sua louca! — chego gritando para assustar. Ela dá um grito, assusta-se e me xinga.
— Vaca!
— Preparada pro luau de sábado? — eu pergunto.
— Claro! — ela responde toda empolgada.
Continuamos fofocando, malhando e olhando os boys (meninos) da academia, pois nenhuma das duas está cega. Somos solteiras, novas, espírito livre e não estamos mortas.
— Só está faltando o Wandi aqui para gente rir mais. — ela fala.
Wandirley, nunca o chame assim, é nosso amigo cabeleireiro gay, andamos nós três juntos. Não existe pessoa mais divertida e autêntica.
Luigi.
Assim que chego à casa da nona Antonella, percebo que o clima está pesado. Pedro não tinha muitos parentes e muito menos amigos. Ele sempre foi um homem que gostava da individualidade e do poder. Eu acho que fui uma das poucas pessoas com quem ele foi carinhoso, e até posso dizer que amou.
Passo pela sala e encontro a minha mãe sentada na poltrona, olhando para o jardim. Eu sei que ela, mesmo sendo uma mulher fria e ambiciosa, deve estar sofrendo com a morte do Pedro. Eles não se consideravam muito, apesar dos seus interesses em comum. Não sei dizer se houve amor entre eles, pois havia certa distância, mas o Pedro tinha minha mãe como seu alicerce social. Eu nunca soube na íntegra o que dividiu a sua família. Ele nunca tocou no assunto, no entanto, eu sei que tem algum segredo de família. A mãe do Pedro, a quem carinhosamente eu chamo de nona, sempre teve uma tristeza guardada em seu coração. Seu olhar sempre esteve marcado com uma mágoa.
Aproximo-me da Julieta e ela me olha com um sorriso triste em seus lábios, eu me ajoelho e beijo seu rosto. Por mais incrível que possa parecer, a minha mãe nunca foi carinhosa comigo, sempre fria e prática. Quando criança, eu me culpava por meu pai, aquele carcamano que ela teve em sua vida, tê-la deixado. Eu, na minha inocência, achava que, se eu não existisse, ela não teria passado por tantas dificuldades. Julieta nunca me disse nada, mas eu sei que sou a cara do fraco do Vitorio, esse é o seu nome. Ela não colocou o nome dele em minha certidão e também não permitiu que o Pedro o fizesse. Eu continuo Luigi Bianchi.
Subo para o quarto para ver a minha nona. Antonella Di Salvi é uma mulher forte, mas os anos estão cobrando por toda a sua bravura. Bato à porta e a enfermeira que cuida dela me atende com um enorme sorriso.
Eu sei que a Aline quer visitar a minha cama a qualquer momento. Vou pensar em seu caso. Na festa de final de ano, ela praticamente se jogou para cima de mim. Claro que não rejeitei uma linda n***a e uma b***a que nem tem como não olhar, mesmo com este uniforme branco. Foi à noite toda de sexo suado. Ela segue na frente e me olha por cima do ombro, minha nona está dormindo. Eu aproveito e a puxo para o canto do quarto onde tem uma espécie de saleta, onde Antonella faz suas leituras e bordados. Tomo seus lábios, colocando a mão por toda parte de seu gostoso corpo. Abro os botões da sua camisa justa demais, e toco com meus lábios em seus s***s, sugo e chupo. Ela geme no momento em que ouço um barulho, indicando que minha nona despertou.
— Aline, onde você se meteu?—
Aline se ajeita e vai ao seu encontro. Eu preciso de um tempo, meu amigo está marcando a minha calça e nona pode me chamar à atenção. Eu não quero dar motivos a ela para se aborrecer em um momento de tristeza para a família.
— Eu estou aqui, dona Antonella. Que bom que a senhora acordou. Seu neto chegou. — A enfermeira fala.
— Mande que venha até aqui. — ela fala. Ocorre-me que ela me verá saindo da saleta e ela não é boba.
— Nona, que saudade. — falo, passando pela sala. Ela olha de mim para Aline. Finjo não ver e continuo em sua direção. Sento-me ao seu lado na cama e beijo sua bochecha.
— O que estava aprontando, Luigi? Não me venha com desculpas esfarrapadas. — Ela me fala séria.
— Nada, nona. Eu estava me atualizando com Aline sobre a sua saúde.
— E para se atualizar precisa ter beijos no pescoço, com o mesmo batom que Aline, esta desavergonhada, usa? Menino, eu te proíbo de tocar em minha enfermeira de novo. E você, mocinha, saia que quero falar com meu neto. — Ela fala brava e a enfermeira envergonhada sai do quarto a passos largos.
— Nona, não precisava falar com ela dessa maneira. Diga! O que tem de tão importante para me falar? — falo tentando mudar o foco. Caso contrário, ela pega o chinelo e me bate aqui e agora.
— Não me venha com essa esperteza, Luigi. Enquanto você vai, eu estou voltando. Pensa que eu não sei das visitas dessa ordinária em sua cama no final do ano? Não o quero se deitando com as empregadas. Você que faça isso fora da minha casa e com outras mulheres. Está me entendo? Já pensou responder um processo por assédio? — Sei que ela tem o seu ponto, porém também está exagerando.
— Entendo, nona, me desculpe. Não foi a minha intenção desrespeitar a sua casa. — falo porque é verdade, mas a Aline é boa demais para ser desperdiçada.
— Eu sei, caro mio. Mas seu padrasto lhe deixou esta carta e me fez prometer que chegaria a você. E me prometa que, qualquer que seja o pedido, você cumprirá? — Com ela me encarando nos olhos, nem tenho como negar. Mais uma vez, o Pedro prova sua generosidade e carinho destinado a mim, confiando que eu cumpra seu pedido.
— Eu prometo, respeitarei e farei o meu melhor. — eu prometo e ela me entrega o envelope na cor creme. Um frio percorre a minha espinha. Sinto como se meu futuro dependesse do conteúdo desse envelope. Pego e guardo no bolso do meu paletó. — Eu vou ler no meu quarto, depois de tomar um banho. — falo me levantando e caminhando para a porta. Ela me chama.
— Luigi! Eu quero você ao meu lado no enterro do meu filho. — ela fala e sua voz dá uma embargada.
— Nós iremos juntos, nona. — falo e saio do seu quarto. Aline está à espera em outra sala no mesmo andar e me olha cheia de malícia. Mesmo prometendo à nona, eu a terei em minha cama, pelo menos mais uma vez. Sorrio e levanto a sobrancelha, ela sorri com luxúria e segue em direção ao quarto da Antonella.
Entro no meu quarto e confirmo que as minhas malas já foram desfeitas e minhas roupas organizadas. Selma é mesmo muito atenciosa e eficiente.
Tomo meu banho pensando que, daqui a algumas horas, eu vou me despedir do homem que me deu carinho e uma amorosa avó. Coisa que não conheci com a Julieta. Ela me falou que não temos família. Eu tenho as minhas dúvidas. Uma das primeiras coisas que vou providenciar é a contratação de um bom detetive, com a ajuda do Davi, meu melhor amigo e advogado na empresa Di Salvi. Preciso saber se a Julieta tem algum parente ainda em vida.
Sento-me na minha cama, ainda de toalha, e pego o envelope. Vamos ver o que Pedro tem a me dizer.
Luigi, meu filho. Digo filho com orgulho, porque desde que te conheci é assim que eu te considero. Estou partindo, mas preciso que dê continuidade a algumas coisas que deixo pendentes. Só descansarei em paz quando elas estiverem finalizadas.
Embora nunca tivesse falado nada com você a respeito da minha família, preciso revelar que os Di Salvi não somos só a sua nona, tia e eu. Eu tenho um irmão e preciso de seu empenho. Tivemos as nossas divergências nos negócios, e confesso ter me aproveitado da ignorância e confiança dele em mim. Carlos Di Salvi é, ou era, casado com uma mulher ambiciosa e sem escrúpulos, como a sua mãe. Desculpe-me falar assim da Julieta, mas logo terá tempo para conferir que estou certo, sobre ela. Porém a minha maior preocupação e culpa é que eles têm uma filha, que deve ter a sua idade, ou um pouco menos. Paola é o nome dela. Luigi, eu quero que você me prometa que vai encontrá-la e cumprirá com o que eu já deixei pronto em cartório. Davi sabe quem é o detetive que está trabalhando nisso, fale com ele. Como minha mãe detém 83% da empresa e de todos os nossos bens isso não será problemas. Como não tenho filhos, deixo para você 50% da parte que me cabe na empresa. Em vida não consegui cumprir a promessa que fiz à minha mãe de encontrar meu irmão e minha sobrinha. Pretendia devolver a eles a parte que ele vendeu para mim, que mais tarde foi para as mãos da minha mãe, assim como a da minha irmã Milena, que a vendeu quando se casou. Queremos, eu, Milena e minha mãe, que você assuma a presidência da empresa e não desista de encontrar a minha sobrinha. Garanta que a minha vontade seja feita. Eu conto com você para terminar o que eu não consegui em vida. Por muitos anos, eu tive tempo para me arrepender por ter deixado meu irmão e minha sobrinha à própria sorte. Mas a ambição sempre foi o meu maior defeito. E, quando eu decidi que era a hora de desfazer o erro, eu não tive muito tempo, e nenhuma pista deles. Eu sei que posso depositar a minha confiança em você, e que fará cumprir o meu desejo. Filho, eu sei que tínhamos um ótimo relacionamento de pai e filho. Faltou eu lhe dizer o quanto o amo. Saiba que você é a minha maior esperança e melhor escolha. “Dio ti benedica, figlio mio” (que Deus te abençoe).
— Maledizione (maldição). Darei o meu melhor, Pedro. Eu vou encontrar a sua sobrinha. Ou não me chamo Luigi Bianchi. — falo e guardo a carta no cofre do meu quarto.
Troco-me e desço para me juntar aos convidados e seguirmos para o velório e enterro do Pedro. Davi já está aqui, ele vem ao meu encontro.
— Que bom te ver, Luigi. — Ele é um ótimo amigo.
— Também estou feliz, apesar de tudo. É bom estar de volta. Tem pegado muita onda? — pergunto. Não vejo a hora de dar uma relaxada.
— Sempre, faz parte. — ele fala e sorri.
— Cara, esta enfermeira da sua nona é mesmo gostosa. — ele fala olhando para a Aline, que retribui o olhar. Ela é mesmo uma desavergonhada como diz minha nona.
— Muito gostosa. — falo. — Para que horas estão marcados a cerimônia e o enterro?
— A cerimônia começa daqui à uma hora e o enterro logo após. Precisamos ir. — ele me fala.
Concordo com ele e caminho até a minha nona para seguirmos juntos, como ela havia pedido.
Quando chego em casa, só quero jantar, tomar banho e ir pra cama. Amanhã será outro dia.