Capítulo dez.

1656 Palavras
Sinceridade é um prodígio. — Ficar sem comer não é uma opção Anne — Marilla diz atormentada enquanto me entrega alimento — preste atenção nas suas escolhas, isso pode prejudicar você. — Prometo que não farei mais isso — encaro-a na tentativa de convencê-la. — Se você continuar com isso serei obrigada a interferir nessa sua ideia maluca de líderes de torcida. — Não, por favor — imploro — não faça isso, é importante para minha admissão. — Então, alimente-se adequadamente Anne. Não poderá ir a faculdade se cair morta em uma vala. Mordo o lábio inferior, sim ela tinha razão. Onde eu chegaria se nem ao menos era capaz de organizar meu próprio estômago? — Certo, prioridades. — Espero que isso seja o suficiente, alimente-se e deixe o prato para lavar amanhã. É importante que descanse. — Farei isso Marilla, acredite. Ela sorri e sai do quarto. Desvio os olhos para o pequeno prato com ensopado a minha frente, feito de última hora provavelmente. Observo a peruca preta, espero que Gilbert não tenha entendido o motivo de uma peruca estar ali. Puxo o celular, olho o grupo e faço a ligação. — Eai mona — Cole fala com aquele sorrisinho bobo. — Anne você está bem? — Diana fala aproximando o celular de seu nariz. Posso ver perfeitamente seus pequenos poros. — Eu nem sei por onde começar. — Do início querida, temos a noite toda. Amanhã é sábado. — Eu sei, mas eu trabalho amanhã. — Vai, vai, vai. — As coisas foram bastantes esquisitas hoje, eu... Eu trabalhei muito, e no final do expediente Gilbert Blythe estava na porta, que já estava fechada. Margot disse para mim que provavelmente eu sinto algo por ele - antes de ir embora e ele aparecer no final do expediente - depois que eu não permiti que ele entrasse, ele me viu só de sutiã porque estava pendurado na janela do vestiário. — What? — Sim Cole — reviro os olhos — ele estava lá pendurado fazendo não sei o que. Depois disso, assim que sai ele veio atrás de mim como um foguete, parecia que sabia que algo estava errado comigo. Conversamos por uns minutos, eu e toda minha delicadeza. — Delicada como o coice de um cavalo — Diana murmura. Ergo os olhos para ela, e ela sorri sem graça. — E então, eu desmaiei e ele me colocou no carro dele e me trouxe para casa, ainda me carregando no colo ele me colocou na minha cama e tenho a impressão de que ele viu a suposta peruca preta da mulher gato que deixei em cima da escrivaninha porque amanhã é sábado e eu estava deixando tudo pronto para a primeira aparição da mulher gato. — Espera — consigo ver o suspiro ofegante de Cole através da tela — ele te carregou no colo? Diana solta burburinhos como se fosse uma risada silenciosa. — Sim, ele me carregou no colo. E eu não sei o que aconteceria comigo se ele não estivesse lá naquele momento. — Isso é um enigma — declarou a morena — provavelmente roubariam suas coisas e você seria encontrada no hospital como indigente. — Bobagem, as coisas não são tão perigosas assim. — Há pessoas perigosas em todos os lugares Anne, dê uma oportunidade para ela se revelar, e ela se revelará. Concordo e Diana desmancha aquele sorriso torto que de apossava de seu belo rosto com covinhas. — Era isso que eu queria falar, talvez não seja uma boa ideia a mulher gato aparecer amanhã — confesso. — Ah não ser que... — Diana morde o lábio inferior — a cada aparição a mulher gato apareça com uma peruca diferente. Era disso que eu precisava, ideias. — Amanhã você pode aparecer com a peruca rosa que eu tenho aqui em casa, eu vou levar e faremos o teste. Está na hora de mostrar pra esse pessoal do que somos capazes de fazer com um computador e uma fantasia. Olha Anne, acredito que você encontrará o suposto garoto que beijou naquela noite, a não ser que você queira usar isso para provocar Gilbert Blythe e usar como estratégia de aproximação. — Você tem umas ideias Diana, por que eu usaria isso como uma estratégia de aproximação? — Não tem necessidade, ele está se aproximando sem nenhuma descrição. — Cole solta — se ninguém percebeu isso eu posso dizer que é muito desatenta. Primeiro ele vai na lanchonete todos os dias, mesmo se está com a Queen Bee oxigenada, segundo, aparece sempre que Anne precisa de ajuda, terceiro ele a parabenizou no dia que passou no teste de líderes e quarto é inegável dizer que ele não a olha com olhar bobo, cheio de brilho, como se fosse a vista mais perfeita desenhada pelos dedos de Deus, que como brinde suspirou em seus cabelos e os deixou vermelhos e quentes como uma chama. — Obrigada pelas comparações fico lisonjeada — admito — mas acho que está exagerando, ele só está lá no dia certo e na hora certa. — Coincidentemente — Diana completa com ironia — acho que existe uma conexão entre os dois, mas isso é algo que ainda vamos descobrir. Agora vamos deixá-la descansar. — Boa noite girls. — Boa noite gente — mando um beijo — beijo na b***a. — Até mais, devolvo o beijo na b***a. Desligamos. . . . O celular desperta. Abro os olhos devagar, sinto a luminosidade adentrar as cortinas do quarto com intensidade. Levanto, procuro uma roupa adequada para o dia. O grande dia em que Anne Shirley, irá se pronunciar como mulher gato nas redes sociais, um vídeo ao vivo seria arriscado, por isso vou optar por uma gravação breve e significativa, a questão é: ainda não sei o que vou dizer. Me visto, converso um pouco com Marilla e Matthew, e em minutos já estou a caminho da lanchonete. Sábados são cansativos, mas nada que do que eu não consiga fazer. — Bom dia Margot — lhe dou um beijo na bochecha. Margot era super responsável, sempre a primeira a chegar, era como meu anjo da guarda do trabalho, me ajudava todas as vezes que eu estava enrolada, além de ser exageradamente organizada. Uma das minhas melhores amigas, engraçada, simpática e bastante observadora, conseguia abrir meus olhos com simples palavras de alerta. E eu, apesar de sempre nos meter em encrenca, tinha certeza de que a nossa amizade duraria a vida toda. Era impossível não gostar dela. — Está parada me olhando como se tivesse fazendo uma reflexão da minha significância em sua vida — ela pisca perplexa — está me assustando. — Desculpe — passo por debaixo da tábua que separa o balcão dos clientes — eu estava a elogiando mentalmente. — Está preparada para hoje? — um sorriso contorna seus lábios — eu não vejo a hora de ver a cara de todo mundo do colégio quando a suposta ladra de corações se pronunciar. Ela da um pulinho eufórico. — Você não sabe o que aconteceu ontem Mag — era assim que a chamava todas as vezes que mergulhava em um problema. — Ah Meu Deus Anne — ela para o que está fazendo e me encara — conte-me o que aconteceu. — Gilbert Blythe esteve aqui logo depois de você ir embora — a encaro e ela arregala os olhos — eu quase desmaiei e ele me levou para casa, quando estávamos lá, ele viu a peruca preta que eu ia usar hoje para a minha aparição. Você acha que ele vai assimilar caso eu decida aparecer? — Não faço ideia — ela movimenta a cabeça pensativa — você já conversou com o pessoal sobre isso? Sabe... Talvez alguém tenha alguma ideia. — Diana deu a ideia de em cada vídeo eu aparecer com uma cor de cabelo diferente. — É uma ótima ideia, mas isso certamente vai deixar todos duvidosos, todo mundo acredita que a mulher gato tem o cabelo preto, não é? E se ela decidir aparecer em cada vídeo com um tom diferente, vão desconfiar até encontrar vestígios de seu verdadeiro tom. — ela ergue os ombros — eu acho. — Você realmente tem uma mente brilhante, Mag. Ela sorri. — Seria bom vê-las ajeitando as coisas para abrir a lanchonete, ao invés de estarem tagarelando — o Sr. Flyn entra. Trocamos olhares e ele cruza os braços parado frente a porta. — Vamos meninas, andem. Começamos a trabalhar. . . . O dia estava passando rápido, eram aproximadamente quatro da tarde quando Gilbert entrou na lanchonete, sozinho. Sempre com um sorriso de fora a fora, olhos brilhantes e inevitavelmente expressivos. Ela senta em uma das banquetas do balcão. — Vá atendê-lo — Margot incentiva — é óbvio que ele só quer ser atendido por você. — Bom dia — encaro-o. Ele me olha como se estivesse me julgando. Quatro da tarde Anne. Bom dia? — Digo, boa tarde — puxo os lábios em um sorriso — o que deseja? — Saber se você está bem. Nossos olhares ficam vidrados, desvio. Alerta alerta alerta. — Sim, eu estou bem. Obrigada por ter sido gentil comigo ontem, a propósito, desculpe ser um pouco arrogante em minhas colocações. Ele assente. — Tem certeza que está bem? — É claro, por que duvida? — Acho que não estou acostumado a ouvi-la se desculpando — ele une as sobrancelhas — tudo bem, eu não a deixaria largada na rua nem que eu a odiasse. — Que bom que não me odeia — solto — pois seria uma pena saber que me odeia sendo que eu estou... Seus olhos fixam nos meus novamente, dessa vez carregados de orgulho e ao mesmo tempo esperança. Que caramba você está pensando em dizer Anne? — Gostando significativamente da sua companhia. Que d***a. Agora enalteci ainda mais o ego dele. — Não sei o que responder acerca disso — ele parece confuso — pensei que eu estava sendo uma moeda no seu sapato. — Definitivamente sim — encaro-o — mas isso não significa que eu não goste. Quanta sinceridade Anne, você deveria ser mais discreta. Não acredito que estou flertando sem nenhuma descrição. Que vergonha, meu Deus. Sinto minhas bochechas ferverem. Ele me encara com um sorriso vitorioso. E Margot passa por detrás dele encarando-me com aquele olhar de: que m***a que você está fazendo Anne. — Desculpe o caminhão de sinceridade — pego a caderneta — o que você deseja, Blythe? — Se eu não estivesse preso em um relacionamento sem fundamento nenhum, posso garantir que a única coisa que desejaria nesse momento, seria um beijo, ruivinha.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR