Situações complicadas que não devem ser reveladas.
— Que desgraça! — Diana diz assim que termino de contar tudo que havia acontecido.
— Diana, você acha que eu estou fadada a sofrer? É predestinação? O que eu posso fazer?!
— Pensei que fosse mais inteligente — ela ergue os ombros — desculpe, eu não queria te ofender, eu juro. — ela se senta ao meu lado — Mas escute... Se desde o começo você tivesse dito para ele que era a mulher gato, ele revelaria que ele era o fantasiado. Você não podia prometer a Prissy tal segredo, se você e Gilbert viram, outra pessoa poderia ter visto — ela respira — uma sala de aula... Não é lugar para certas coisas! Roy Gardner é uma pessoa odiosa, certamente você não o beijou na festa, sabe? Não combinam nenhum pouco. Você não sentiria tanta conexão.
Concordo movimentando a cabeça.
— E Winifred, você deveria tê-la matado. Uma vez minha mãe brigou com uma mulher e ela disse que deveria tê-la matado.
— Que horror Diana, mas por que?!
— Porque mortos não falam. — ela da uma risada maldosa e depois franze o cenho encarando-me.
Plano B poderia se resumir em um assassinato premeditado de Winnie? Eu vou pensar nisso com carinho.
— Eu vou fingir que você não falou isso. — a encaro.
No mesmo instante sinto uma lágrima que a pouco estava presa, cair. Permito que elas fluam, eu não podia aguentar tudo aquilo em silêncio, as lágrimas além de aliviar a alma, expressava o que estava dentro de meu coração. Cada gotícula minha, estava afundando em um poço sem fim, a sensação de estar caindo e nunca chegar a um final é h******l. Meu corpo só caia, caia e caia, e eu não desejava nem um pouco sentir o impacto do tombo.
— Não precisa ficar assim — Diana me abraça — sei que você vai superar isso, como superou todas as outras coisas. Você é uma garota forte Anne.
— Anne vim correndo assim que sai da aula — Margot entra no banheiro — sinto muito por Gilbert.
— O que houve com ele?
Ele encara Diana enquanto morde o lábio inferior, pensativa.
— Duas semanas de suspensão.
— E Roy?
— Também! — ela senta no chão, as duas me abraçam — oh Anne, sinto muito por tudo.
— Obrigada meninas, vocês não sabem o quanto é importante para mim ter vocês comigo.
Nos levantamos e depois de eu ter certeza que estava cem por cento bem, saímos em direção as aulas. A vida já estava um fiasco, não podia ficar para trás nesse quesito também.
. . .
— Não tenho nem mais um minuto de paz aqui! — Margot disse saindo da cozinha abruptamente.
Me viro para ver o que está acontecendo, mas tenho os pensamentos interrompidos por uma senhora que entra na lanchonete com passos lentos e modulados. Imediatamente, caminho até ela e a conduzo até a uma mesa.
— Você é a garota que estava em um impasse aquele dia, não é?
Me concentro nela assim que ouço a pergunta.
— Sim, sou eu.
— E como estão as questões do coração?
— Mais complicadas do que a senhora imagina.
— Conte-me, eu adoro ouvir histórias de amor, sejam correspondidas, ou não.
— Resumindo, eu estraguei algo que nem havia começado, estou sendo persuadida a guardar um segredo para não prejudicar uma garota e eu nem gostava dela! Me sinto uma i****a, e como eu sou! Além de tudo estou perdendo de vez o garoto que eu amo.
— Sua vida é uma montanha russa infernal — ela diz — mas se te alegra, posso garantir que você não é i****a por se submeter a isso.
— Se eu não sou i****a, eu não sei o que sou.
— Leal — ela diz — você tem caráter, menina. Um coração forte e valente.
Sinto meus olhos marejarem.
— Obrigada, a senhora é muito gentil.
— Você pode me chamar de Tia Jô.
— Tia Jô — sorrio e seco rapidamente uma lágrima que escapa — obrigada.
— Eu só vim aqui para saber se você tinha resolvido suas questões, mas vejo que precisarei vir mais vezes.
— Seria ótimo ter alguém com experiência de vida para conversar — confesso — meus tutores são muito reservados e sempre que falo de amor eles se sentem inibidos em responder, apesar de sempre darem o melhor.
— Ter experiência significa ser uma velha ranzinza? — ela diz encarando-me.
— Não! — respondo de imediato.
— Estou brincando querida — ela sorri — se te conforta, nós velhos sempre temos algo para falar, seja um conselho ou uma bronca.
— Obrigada, foi ótimo vê-la novamente.
A ajudo a se levantar e depois nos despedimos com um abraço.
— Abraço de caridade, Shirley? — Josie provoca.
Margot do caixa revira os olhos. Eu estava sentindo que em breve ela não aguentaria as provocações da loira. Ruivas são geniosas e impulsivas, principalmente quando ofendidas. Estou limpando uma das mesas quando escuto o barulho do sino. Olho para fora na expectativa de que Gilbert fosse o próximo a cruzar a porta, mas tudo que vejo é Galle, dessa vez sozinho, sem John.
— Anne — ele toca meu ombro.
— Olá, Rick. — evito encará-lo.
— Podemos conversar rapidamente?
— O que você quer? Não vê que estou ocupada?
— John queria saber de você quer vir conhecer nossa nova casa.
— O que? Nova casa?
Viro-me e nossos olhares se cruzam.
— Decidimos ficar aqui por um tempo, até que ele a conheça direito, depois voltaremos para a nova Escócia.
— E todo aquele assunto de ontem? Que ele disse "você irá embora comigo porque eu sou o seu avô?"
— Ele estava emocionado, procure entender, é um homem que ficou dezesseis anos longe de você e quando soube de sua existência a procurou até encontrá-la.
— Ele quer me tirar da minha família.
— Não Anne, ele quer recuperar o tempo perdido. — ele acaricia sutilmente o meu braço — podemos dar uma volta?
Uma volta seria ótimo para que eu colocasse a mente em ordem.
— Vá Anne, está na hora do seu café. Eu dou conta. — Margot diz.
— Mas e Josie?
— Se ela me irritar eu a tranco no armário de produtos de limpeza e a tiro daqui cem anos.
— Não faça nada do que vai se arrepender depois — digo a encarando afim de pressioná-la pois estava nítido que estava prestes a perder as estribeiras.
— Confie em mim Anne.
Depois do laxante, é muito difícil.
Caminhamos nas ruas de Carmody, com passos sincronizados, o que era engraçado. Meu cérebro começa a receber o oxigênio necessário para pensar... Tudo que eu precisava era pensar, colocar em ordem cada pensamento que estava me corroendo.
— Sinto muito por minhas atitudes no jantar, eu não sou esse tipo de cara.
Meu cérebro para de pensar novamente.
— Tudo bem... — respondo — mas não posso deixar de dizer que você foi um i****a.
— Eu aceito suas ofensas Anne, com prazer.
— Posso dizer que isso é uma novidade? Não são todas as pessoas que aceitam insultos e ainda se sentem bem com isso.
— Você fica linda quando me ofende. — ele da um sorriso charmoso e respondo revirando os olhos. — Não gostei do Blythe — ele confessa — algo nele me faz ficar com o pé atrás, contudo, não sei quando entendi que isso me dava o direito de me intrometer em sua vida e suas escolhas. A conheço a um dia, exatamente.
— Você não pode tirar conclusões precipitadas de alguém, por mais que para você seja o óbvio. Gilbert é incrível, tem um coração enorme e é como nós agora.
— Como assim?
— Ele é órfão. Faz algumas semanas que o pai dele faleceu, ele está se adaptando a isso ainda...
— Você não é órfã, tem o John.
— Meus pais morreram, eu sempre serei órfã. E eu não tenho só o John, eu tenho Marilla e Matthew. São minha família.
— Você tem razão, você achou uma família — ele diz com um sorriso de contentamento — mas me diga, por que está com esse rostinho entristecido?
— Digamos que as coisa estão um pouco confusas para mim.
— Foi aquele vídeo daquele beijo? Você e o amigo do Gilbert?
Assinto.
— Não foi real, sabe? Ele me beijou sem que eu pudesse reagir.
— E como nos filmes de romance adolescente, o Gilbert viu tudo?
— Infelizmente.
— E você não contou a verdade pra ele por que?
— Porque... Existem situações muito mais complicadas que não devem ser ditas.
— Você esconde o segredo de alguém? Está sendo chantageada a não falar com ele?
— Basicamente.
Ele era bastante instintivo.
— Isso tudo é uma situação complicada. — ele entorta os lábios enquanto pensa — vou pensar em uma forma de resolver, como pedido de desculpas.
— Você não parece ser uma pessoa que se redime.
— Qualquer um faria isso Anne, se valesse a pena por quem fazer. E então, podemos recomeçar? — ele me oferece a mão em um cumprimento.
— É uma chance, apenas. Não faça com que eu me arrependa — seguro em sua mão.
— Eu prometo Anne, você não vai se arrepender!