Processamentos complicados.
— Anne? — sinto alguém me chacoalhar — Anne, acorda..
— Margot? Onde eu estou?
— Na área de descanso.
— O que aconteceu? — levanto-me com a cabeça dolorida — Mag, John... Rick, são. Que, ah, meu avô? Cadê o Blythe? Ele não me ama.
— Ela está delirando — ela encara Gilbert — ficou em choque.
— Calma Anne — o moreno vem até mim e segura minha mão — olhe para mim.
Encaro seus olhos, perfeitos, inevitavelmente irresistíveis. Disso eu me lembrava com perfeição.
Eu disse que estava apaixonada e ele não respondeu. i****a.
— O seu avô, John Linderman está aqui, por coincidência é o padrinho de Rick, o garoto novo do colégio — ele revira os olhos, e eu dou uma risada espontânea de sua reação — e eu também Anne, estou apaixonado por você, antes que você surte por eu não ter conseguido responder.
— Como sabe que eu estava surtando?
— Você acabou de dizer "cadê o Blythe? Ele não me ama." — Margot me imita.
— É tão ansiosa — ele acaricia meus cabelos e choca os lábios nos meus em um selinho.
Então percebo que Rick Galle está parado na soleira da porta com o olhar fixo em nós.
— Só me beije quando não for pra provocar outra pessoa — cochicho no ouvido de Blythe que fica vermelho instantaneamente.
— Você sabe que eu quero te beijar a muito tempo — ele ergue os ombros — não tenho culpa, você estava vulnerável precisava me aproveitar.
— Está tudo bem aqui? — Rick interrompe.
Margot no mesmo instante desvia o olhar para ele. Que ousado, como acha que tem o direito de interferir em assuntos como esse?
— Você não disse isso, Galle — ela o encara — pelo visto não sabe de nada mesmo, não vê que os dois pombinhos estão conversando?
Ele sorri torto.
— Desculpe, é que Anne... John está lá fora e aguarda você.
— Ela não vai sair daqui com ele — Gilbert diz com ironia — nem se conhecem.
— Antes com ele que com você — Rick retruca.
— Eu não vou sair daqui com ninguém, porque ele quem vai entrar. Por favor Rick, você poderia chamar o... John para vir até aqui? — suspiro — eu estou indisposta e não acho viável sair daqui ainda.
Ele vira e em segundos some de minha vista.
— Eu não gostei dele, desde a hora em que se esbarraram no colégio — Gilbert confessa — algo nele me deixa com o pé atrás.
— Não só você Blythe — Margot interrompe — senti que ele estava desafiando você, e eu fiquei muito sem graça.
— Gente, eu não me importo nem um pouco com esse garoto, claramente ele faz parte de algum plano desse meu suposto avô, não se preocupem, eu vou ficar de olho. — seguro a mão de Gilbert — e você, garotinho ciumento, já disse que não precisa se preocupar... Está bem?
Ele assente.
— Eu a levo para casa, está bem?
— Sim, está bem. — ele choca os lábios no meu de novo, agora com um pouco mais de ímpeto, mesmo assim, ainda não chega a ser um beijo...
E eu ainda, não tinha sentido que ele era o garoto da festa, apesar de saber que algo nele, me chamava como um ímã. Provavelmente, as confusões e descobertas de hoje me deixaram um pouco insensíveis para isso. Eu saberia a resposta em breve, assim que eu estivesse sozinha com ele.
— John — falo assim que o homem atravessa a porta.
O pessoal sai aos poucos, e eu sinto que as coisas do lado de fora não seriam boas. Gilbert Blythe dividindo um espaço com Rick Galle? Algo deixava bastante explícito que isso seria muito difícil. A disputa de "poder" já era visível.
— Seus olhos são como o de minha esposa — ele se senta ao meu lado — como eu pude deixar Bertha ir embora? Como pude?
— Ela foi embora... — falo baixinho — eu sinto muito.
— Você é exatamente como ela, cada parte.
O observo. Ele já estava grisalho, sua pele estava manchada por causa da velhice, seus olhos eram azuis bem escuros e estavam profundos, como se há dias não dormisse, seus lábios, tinham um contorno mais carnudo e seus poucos fios ainda com melanina deixava claro que seus cabelos um dia carregaram um tom acaju. Apesar de ele dizer que eu me parecia com a minha mãe e com a minha avó, eu senti a genética dele quando comparei os nossos narizes.
— Desculpe o desmaio — falo a fim de quebrar a tensão — eu não estava preparada para esse encontro, sinto muito o Sr. ter me visto assim com as roupas do trabalho...
— Seu rosto estava radiante quando veio até a mesa.
Gilbert Blythe era o único motivo, apesar de não ter respondido a minha confissão ele sabia que eu estava apaixonada e isso já era um ótimo passo.
— Aquele garoto... — ele da um sorriso torto enquanto aparentemente pensa — você reagiu da mesma forma que Bertha quando conheceu Walter Shirley, aquele garoto!
Sua voz soou receosa.
— Eu não conheci meu pai mas... Posso dizer que Gilbert é uma excelente pessoa.
— Como me arrependo de tê-la proibido a viver! — ele confessa — como eu me atormento por isso! Se ela estivesse em casa não ficaria doente e não seria levada por isso.
— Não entendemos as coisas que acontecem em nossa vida, e não temos controle de nada infelizmente. — digo.
Procuro em seus olhos algo que não seja parecido com remorso. Mas tudo que encontro infelizmente é isso, imagino como foi difícil para eles e para minha mãe se separarem. Por seu tom de voz, ele deixava claro que sempre a amou e sempre a amaria, e que o arrependimento o deixava atordoado. Quem sabe agora, ele se sentiria melhor? Eu estava aqui...
— Enfim, preciso voltar a trabalhar — falo com um pouco sem graça — mas o sr. tem meu endereço e se quiser pode ir jantar lá.
— Você tem certeza? E seus pais?
— São pessoas incríveis, Sr. Linderman, você vai adora-los.
— Pode me chamar de avô, ou se preferir, de John.
Avô... Por tanto tempo sonhei em encontrar minha linhagem e agora tendo ele bem a minha frente, não consigo me imaginar pronunciando a palavra.
— Obrigada, John.
Seus olhos inundados de expectativas refletem sua frustração. Mas tudo bem, eu também estava um pouco receosa, e acho que ele compreendia isso.
— Então hoje eu irei até sua casa, minha querida netinha — seu toque quente me faz tremer.
— Até mais tarde, John.
Ele sai da sala. Depois de alguns minutos de processamento, eu saio também. Estavam todos lá, inclusive Roy Gardner.
Seus olhos estavam iluminados, diferente e ele falava com tanto entusiasmo com Gilbert que senti uma leve curiosidade.
Os dois saem, e deixam os celulares em cima do balcão. Eles foram lá fora, pareciam que estavam conversando algo sério. Encaro Margot, aquele era o momento certo para descobrir se Gilbert era o @naoseievc.
Mando uma mensagem e para minha surpresa, o celular que acende é o de Roy.
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