Crush
Levanto em um pulo. Já estava na hora do colégio e eu estava absurdamente atrasada. Ótimo, isso sempre acontecia, nas segundas-feiras principalmente.
Vou resumir o que realmente aconteceu:
Depois que Matthew sofreu o ataque cardíaco ficou dois dias internado no hospital, viemos embora e eu tive coragem de abrir a carta do meu suposto avô. Fiquei maluca, pesquisei sobre o "sobrenome Linderman", vi que ele era o dono de uma importante marca de roupa, multimilionário, mas, prefiro acreditar que estou me iludindo imaginando que meu avô possa ser tão importante. O i********: @cordeliafornow está bombando, mil seguidores por dia. Sai do grupo de líderes de torcida, não por vontade própria, se não posso dançar não posso permanecer lá. Margot pegou um resfriado que demorou dias para passar, o Sr. Flynn contratou uma nova garota, achou que estava na hora de eu e Margot sermos ajudadas
- estão enroladas demais - foi o que ele disse.
Por azar, ele contratou Josie Pye e quebrou o ritual das funcionárias ruivas. Cidade pequena, possibilidades também.
Diana e Jerry estão se pegando, isso já estava acontecendo desde a festa em que eu descobri que Gilbert Blythe era um cara legal, e coincidentemente Billy Andrews também.
E agora, faz uma semana que não vejo Gilbert Blythe. Ele estava evitando o colégio depois que seu pai faleceu.
Eu não pude ir ao enterro, na verdade, ninguém do colégio foi. Ele não queria que ninguém soubesse, somente eu.
- Anne, está atrasada - Marilla grita da ponta da escada.
- Estou indo.
Billy Andrews e Margot estão saindo, mas não deram o primeiro beijo, ainda. Eu e Prissy estamos em uma disputa acirrada para ver quem vai conseguir representar o colégio no concurso de química, e hoje: o teste para saber quem vai ser a principal no teatro na peça de final de ano; Ruby ou eu. Difícil escolha, porém será uma batalha épica. É o que diz a professora.
Desço as escadas correndo. Sinto os cabelos ao vento. Adorava essa sensação.
- Faz dez minutos que Cole está buzinando, Anne.
- Me desculpe, tenha um bom dia - lanço um beijo no ar, e saio correndo.
- Pelo amor Anne, que demora - Cole me recebe com um sorriso caloroso.
- Eu me atrasei.
Encaro minha aparência no espelho, nada m*l, apesar de eu ter levantado em um susto. Nem sinal de olheiras. Graças a Deus.
- Quantos quilos de maquiagem passou nesse rosto? - ele me encara - está sem olheiras.
- Querido, não tive tempo nem de pentear a juba de leão, acha que eu teria tempo de passar uma maquiagem?
- Eu comprei um iluminador pra você, pega na minha mochila - ele aponta para o banco de trás.
Puxo a bolsa e encaro um papel escrito "conheça sua faculdade já".
- Está pensando em se inscrever para alguma faculdade? - o encaro - que legal.
- É um evento achei interessante pegar e começar a "projetar" um futuro. Já você né, tem um futuro garantido.
- Não, eu não tenho nada garantido. Imagina só! Se eu não conseguir representar o colégio, ou não conseguir passar no teatro. Meu currículo para admissão será tão sem graça quanto um suco de morango sem sementes.
- A melhor parte são as sementes - ele da risada - só aquela fresca pra querer algo sem sementes.
Pego o iluminador e passo.
- Obrigada Cole, eu precisava de algo para me deixar iluminada.
- Seu brilho é natural Anne - ele me olha de canto - você é maravilhosa, por você eu seria hétero.
- Não exagera Cole.
Ele para com o carro no estacionamento. Consigo ver a moto de Gilbert encostado no lugar reservado para motos, sinto uma pontada de felicidade percorrer meu corpo. Uma semana sem vê-lo, tinha sido doloroso para mim, imagino para ele.
- Um garoto novo - Diana e Margot chegam correndo com as mochilas balançando - o nome dele é Rick Galle.
- Galle? - Cole arqueia a sobrancelha sugestivamente.
- É Galle, não Gay, Cole - Diana dá um soquinho em seu antebraço.
- Perdi as esperanças de encontrar um cara legal aqui nesse colégio - ele confessa - e meu Crush por Billy não pode ser real por causa da princesa Ariel aqui.
Continuo encarando a moto. Os flashbacks, as lembranças do dia em que me deu uma carona obrigando Roy Gardner a descer da garupa pois eu estava atrasada. Naquele dia eu percebi que os nossos corpos se encaixavam. E que Blythe era o meu Crush.
- Ei Anne - Margot pousa a mão em meu braço - Gilbert voltou.
- Eu sei, eu vi a moto dele.
- Por isso está olhando a mais de um minuto para aquele lado, está procurando ele não é?
- Queria vê-lo antes do teste para o teatro, eu esqueci de pedir que ele não contasse nada sobre o que vimos outro dia na sala do Sr. Philips.
- O que vocês viram na sala do Sr. Philips? - eles dizem em coro.
Me esqueço por um segundo que nenhum dos três sabiam do ocorrido com Prissy; somente ela cumprindo com bastante êxito sua função de fofoqueira, cobaia de Queen Bee, dedurando o cantinho secreto na biblioteca para o diretor.
- Nada interessante. - minto, sabendo que eles iriam adorar saber o aconteceu de fato.
- Se não fosse interessante poderia nos contar.
- Eles tem segredos.
- Quantos segredos a mais vocês tem?
- As coisas devem estar sérias, duas pessoas apaixonadas guardam segredos, não guardam?
- Sim, definitivamente sim. - Margot vibra - estão namorando!
- NÃO! - eu falo.
Estávamos caminhando no corredor do colégio. Avisto Gilbert parado do outro lado do jardim de inverno, estava conversando com Moody, ele estava apoiado em uma das pernas, com a mochila nas costas, braços cruzados e sobrancelha unida como se o assunto fosse algo polêmico. Não vejo absolutamente nada a minha frente, cada passo é envolvido por uma sensação de queda. Um passo em falso Anne, e você já era.
As vozes de Cole, Diana e Margot, se tornaram o barulho irritante da televisão enquanto eu tentava me concentrar em uma bela poesia, uma bela poesia sem letras, somente com imagens, uma única imagem:
Olhos verdes com manchas castanhas.
Altamente tóxico e sedutor.
No mesmo instante, o sinal toca. Minha consciência volta e percebo que estou atrasada para o teste.
- Tenho que ir, me desejam sorte.
- Boa sorte Anne - eles dizem em uníssono.
. . .
A ponte dos segredos. (Teatro)
(Pontas soltas do livro Anne de Green Gables)
Antonieta era uma garota bonita, alta, com bastante significância em sua sociedade, mas apesar de qualquer uma desses coisas que a favorecia, ela não queria ser esposa, até conhecer Fred Poenisc.
Giulia era uma jovem bonita, olhar sonhador, sorriso doce, e amava com devoção sua melhor amiga Antonieta.
Um belo dia, Fred Poenisc, chega a pequena cidade de Verona. Um homem belo, alto, com olhar penetrante.
Um certo dia, Antonieta se perde em uma terrível floresta escura, e o seu salvador Fred Poenisc, aparece para ajudá-la a se livrar de seus medos mais obscuros. Eles se apaixonam.
O que Antonieta não sabia era que sua melhor amiga, Giulia sentia o mesmo.
Fred inicia um cortejo. E acaba por fim pedindo Antonieta em casamento na beira da ponte dos segredos, ao longe Giulia com uma tremenda raiva da melhor amiga, vê tudo e só uma coisa importa, ter Fred para ela.
É quando, em uma bela noite Giulia convida Antonieta para um passeio ao lado da ponte, e sem pensar duas vezes, joga a amiga no rio, sabendo que a garota desejada, não sabia nadar. Fred ao longe vê tudo, e pula para salvar sua donzela, contudo, dias depois, os dois são encontrados na beira do lago com os corpos unidos, e as almas levadas.
. . .
- Parabéns Anne, você conseguiu o papel de Antonieta! - diz a professora - foi uma disputa épica, eu disse, por isso Ruby, você fará o papel de Giulia.
Ruby revira os olhos, mas em seguida caminha até mim com um sorriso sincero.
- Parabéns Anne - ela me dá um abraço - depois do que aconteceu com seu tornozelo no ensaio, eu meio que torcia para que você conseguisse o papel principal.
- Isso significa muito para mim, Ruby. Obrigada.
- Nos vemos por aí.
No mesmo instante sinto algo molhado escorrer por minha perna. d***a!
Respiro fundo, pego minha mochila e corro para o banheiro. Minha menstruação! Ah não! Estava tão concentrada em conseguir o papel... Não me lembrei que estava pra menstruar.
Corro desnorteada nos corredores do colégio em direção ao banheiro. Não olho para ninguém, imagine se estiver aparecendo! Que vergonha. As fotos do anuário seriam horríveis. Bato em alguém. Sinto o impacto tão forte que derrubo todas as minhas coisas no chão.
- Ei ruiva, tudo bem?
Ergo os olhos.
- Você... Você é...?
Ele me ajuda a levantar e pega as minhas coisas do chão.
- Rick Galle - ele da um sorriso cortante. p**a m***a que sorriso. - e você?
Perco as palavras em minha própria mente, quando sou interrompida pela voz de Gilbert atrás de mim.
- O nome dela é Anne, com E no final.
. . .