Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Alexander
Nova York nunca dorme, mas existem lugares nesta cidade que preferem viver exatamente nas horas em que todos os outros deveriam estar dormindo. Descobri um deles há cerca de dois anos. Meu nome é Alexander Whitmore, tenho trinta anos e sou o CEO da Whitmore Holdings, um conglomerado que herdou metade da fortuna do meu pai e multiplicou o restante por meio de investimentos agressivos em tecnologia e imóveis.
Meu nome aparece em revistas de negócios, eventos de caridade e naquelas listas irritantes dos jovens bilionários mais influentes do mundo. As pessoas pensam que sabem tudo sobre mim, mas ninguém faz ideia de onde passo minhas noites de quinta-feira.
O lugar não tem nome na fachada e nem sequer parece um bar de verdade. Fica escondido em uma rua suja do Lower East Side, espremido entre uma lavanderia em ruínas e uma oficina mecânica.
Um letreiro de néon azul piscante na porta simplesmente anuncia “Cold Beer”, nada mais. Se alguém passasse pela primeira vez, pensaria que era apenas mais um bar barato onde caminhoneiros param para uma rodada rápida, mas quem conhece a noite de Nova York sabe a verdade. Fui levado lá pela primeira vez por Victor Hargrove, um investidor arrogante que conheci em um evento em Manhattan.
Tínhamos bebido demais e ele mencionou um lugar secreto onde homens de verdade jogavam de verdade, rindo com desdém de que os cassinos tradicionais só existiam para entreter turistas e que ali se jogava com pessoas que realmente tinham algo a perder. Na época eu estava entediado com o mundo perfeitamente polido da alta sociedade, cansado de jantares de caridade, coquetéis corporativos e conversas vazias sobre retornos financeiros. Então aceitei o convite sem pensar duas vezes.
Quando entrei naquele bar pela primeira vez, pensei que Victor estava exagerando. O lugar parecia pequeno, escuro, cheirando a cerveja velha e madeira úmida, com meia dúzia de homens bêbados espalhados pelas mesas e um balcão m*l iluminado no fundo.
Victor apenas riu da minha reação, me guiou até o fundo do estabelecimento, empurrou uma discreta porta de metal e descemos uma escada estreita e íngreme. Foi então que compreendi a escala da operação.
O espaço subterrâneo era enorme e, embora estivesse longe de ser luxuoso, com suas paredes de concreto exposto e lâmpadas industriais penduradas no teto, o lugar fervilhava de dinheiro.
Mesas de pôquer ocupavam quase todo o salão, onde homens de ternos sob medida se misturavam a personagens de aparência bem menos respeitável. Empresários bem conhecidos compartilhavam espaço com tipos perigosos envolvidos em tráfico, contrabando e lavagem de dinheiro. Todos sabiam o que acontecia ali, mas ninguém ousava dizer uma palavra.
A parte mais curiosa era que, apesar de toda a ilegalidade, o lugar tinha mais segurança do que a maioria dos bancos centrais. Homens enormes de terno preto se apoiavam nas paredes enquanto outros circulavam discretamente entre as mesas de jogo.
Não havia polícia por perto, mas também não havia problemas, porque regras não escritas mantinham tudo funcionando perfeitamente: você paga, joga, ganha ou perde, e sai sem fazer perguntas. Comecei a frequentar o lugar algumas vezes por semana, sempre de madrugada, quando Manhattan finalmente se acalmava.
Era estranho o quanto aquilo me relaxava, talvez porque ali ninguém se importava com quem eu era longe daquela mesa. Para aqueles homens eu não era o herdeiro Whitmore, apenas mais um jogador tentando a sorte.
Foi em uma dessas madrugadas que a vi pela primeira vez. Ela estava limpando uma das mesas próximas e eu teria passado direto, como todos os outros homens faziam, se algo não tivesse imediatamente chamado minha atenção.
Não era apenas a beleza, porque à primeira vista ela parecia frágil demais para aquele ambiente hostil. Era muito pálida, magra, com cabelo escuro preso de qualquer jeito e alguns fios caindo sobre o rosto, exibindo maçãs do rosto marcantes e olhos claros que sugeriam origem do Leste Europeu, talvez russa.
Mas o que me fez congelar por um segundo foi a marca vermelha estampada na frente do braço dela, visível logo abaixo da alça do vestido simples que usava. Era uma marca de nascença de tamanho médio, irregular, absurdamente semelhante à que minha mãe carregava no pulso.
Meu olhar ficou fixo naquela marca por vários segundos, trazendo de volta a memória da minha mãe, que morreu quando eu tinha dezesseis anos de um câncer devastador que nenhuma quantia de dinheiro conseguiu impedir.
Desde aquela época eu nunca tinha visto uma marca idêntica na pele de outra pessoa. A garota continuava limpando a mesa em completo silêncio, sem jamais levantar os olhos para ninguém, parecendo invisível para todos ao redor. Mas ela não era invisível, e eu sabia exatamente a quem ela pertencia: o homem sentado diretamente à minha frente naquela noite, Mikhail Volkov.
Ele era um russo de quase cinquenta anos, dono de metade daquele estabelecimento e de vários outros negócios obscuros que nem deveriam existir. Volkov estalou os dedos com brutalidade e chamou por “garota” com seu sotaque pesado. Ela apareceu ao lado dele instantaneamente, ouviu o pedido de vodca, assentiu em silêncio e se afastou sem emitir um único som ou levantar os olhos.
Segui o caminho dela pelo salão com os olhos, e Volkov notou minha atenção, soltando um sorriso malicioso ao perguntar se eu gostava da propriedade dele. Ignorei a provocação e voltei a olhar minhas cartas em silêncio, mas naquela noite, pela primeira vez desde que pisei naquele porão, percebi uma verdade perturbadora que vinha ignorando: as mulheres que trabalhavam ali não eram funcionárias registradas, e ninguém lá dentro fazia perguntas sobre isso nem mesmo eu.
A imagem daquela garota e da marca vermelha no braço dela ficou gravada na minha mente durante todo o jogo. Comecei a observar as dinâmicas do salão com atenção renovada e notei como o medo ditava cada passo das jovens que serviam as mesas. Elas se moviam como sombras, evitando contato visual e obedecendo aos comandos estalados dos homens mais poderosos sem hesitar por um segundo.
A atmosfera do lugar, que antes parecia nada mais do que um refúgio excêntrico da falsidade da elite de Nova York, de repente ganhou um tom muito mais sombrio e desprezível. Volkov continuava bebendo e apostando alto, agindo como o dono absoluto não apenas das mesas e do dinheiro que circulava, mas da vida de cada pessoa que trabalhava sob seu comando naquele porão.
Tentei me concentrar nas minhas cartas e no fluxo das apostas, mas a revelação velada daquela exploração aberta mudou completamente a forma como eu via aquele ambiente ilegal. O anonimato que eu tanto buscara ali perdeu seu apelo assim que compreendi o preço que outros pagavam para manter aquele ecossistema funcionando nas sombras de Nova York.