Não posso confiar nele

2105 Palavras
Olhei surpresa. Não esperava que Tâmara viesse até mim. Será que ainda vai fazer um escândalo? Logo agora que eu precisava ligar para minha irmã e revisar esse plano maluco que planejamos. — Sim, senhora. Estou indo. Boa noite. Se precisarem de mim, podem chamar. — Penélope me olhou preocupada, mas não podia fazer nada, afinal, era sua chefe que estava dando as ordens. Tamara esperou apenas Penélope sair e fechou a porta na mesma hora. O semblante dela não era de quem buscava briga, mas se ela viesse para cima, eu não pensaria duas vezes antes de dar um soco na cara dela. E vamos admitir, ainda seria pouco, depois da dor que me fez passar ao me empurrar da escada. — Eduarda, eu conversei com a minha mãe. Não sabia que você era minha prima e nem fazia ideia do que estava acontecendo. Vim até aqui te pedir desculpas pelo ocorrido. Há algum tempo venho tendo problemas para lidar com as minhas emoções e, muitas vezes, elas se tornam explosivas. Espero que possa me perdoar e possamos recomeçar. O que acha? — Tâmara estava falando da boca para fora. Embora tentasse ocultar seus verdadeiros sentimentos, não conseguia esconder o desgosto em seu rosto ao me pedir desculpas. — Tudo bem. — Vamos entrar no jogo dela e descobrir até onde vai. — Fico feliz. Eu me chamo Tâmara, mas deve ter ouvido no meio da confusão. Eu nem imaginava que você tinha perdido alguém, parece tão bem. Quando a minha mãe contou que sua mãe havia morrido em um incêndio há pouco tempo, pensei até que era mentira. — Tâmara queria me desmascarar, mas ela não sabia com quem estava mexendo. — Depois que a gente perde tudo, ou engole o choro ou morre afogado. Não tinha mais família, amigos, casa ou emprego. Havia perdido o meu maior pilar. Se eu não levantasse a cabeça e seguisse em frente, acabaria morta como uma indigente, sem ninguém sequer para ter o trabalho de me enterrar. Então, peço desculpas se eu não fiquei explosiva e violenta por estar de luto. Afinal, ninguém tem culpa dos meus problemas, não é? E a última coisa que quero é acabar na cadeia por ser uma enorme babaca. — Peguei pesado? Não acho. Se ela não se sente culpada e está dando desculpas apenas para não ser denunciada, eu que não irei aceitar os sentimentos dela. — Faz sentido. Que sorte a sua ter encontrado minha mãe. Não sabia da existência de uma tia. Jurava que minha mãe era órfã e sem família. Fui pega de surpresa. Me pergunto por que a minha mãe decidiu esconder a existência de vocês. Será que você sabe? Estão envolvidas com ilegalidade? Fizeram algo vergonhoso? — Tâmara continuava atacando. — Ainda não, mas não respondo por mim se continuar a falar besteiras sobre a minha mãe. Posso até ficar calada e fingir que você não é uma v***a, mas se falar da minha mãe, prometo te deixar completamente careca e sem dente. Se ninguém te ensinou a ser educada, eu vou ensinar a manter a boca fechada. — Respondi me levantando. Fui até a porta. — Estou cansada. Já pode ir. Já ouvi as suas desculpas. — Você não faz ideia de como eu posso fazer da sua vida um inferno. Deveria baixar a cabeça e agradecer porque eu ainda deixarei você ficar nessa casa. — Tâmara jogou as roupas que estavam nas suas mãos no chão e saiu batendo os pés como uma menina de cinco anos contrariada. — Você m*l sabe o que te espera. Vai aprender o seu lugar, sua empregadazinha. Não respondi. Não valia a pena entrar naquele jogo de Tâmara. Fechei a porta e me joguei no chão, olhando para o teto. — Que destino estranho. Um dos irmãos acabou com a minha vida. O outro me deve sua vida. — Pensei alto, me questionando o que eu deveria fazer. — E se, em vez de seguir com o plano, eu não peço ajuda para Gustavo? Será que, se eu contar tudo que eu sei, ele vai agir contra o seu irmão? Pensei primeiro em falar com a minha irmã sobre a minha ideia, mas eu sabia que ela jamais confiaria em Gustavo ou em ninguém da família Lima. Mas o homem que conheci era absurdamente justo. Acabei caindo no sono enquanto pensava numa forma de contar tudo para Gustavo e desistir completamente daquele plano absurdo de seduzi-lo e destruí-lo. Quando acordei, o sol já estava tomando conta do quarto. Do lado de fora, podia ouvir muito barulho. Todos estavam bastante agitados. — O que será que está acontecendo agora? — Perguntei enquanto me levantava para olhar. Desço as escadas bastante desnorteada; havia pessoas correndo de um lado para o outro, todos pareciam funcionários da mansão. No pé da escada, Joana estava reunida com a cozinheira, decidindo o que parecia ser o cardápio do almoço. — Bom dia. Aconteceu alguma coisa? — Perguntei, tentando compreender toda aquela agitação. — Gustavo e Tâmara brigaram, mas fizeram as pazes. São sempre assim. Então, a minha filha o convidou para almoçar e me delegou a organização de tudo. Ela não estava disposta. Deve ter passado a noite sem dormir. Desde pequena, sempre que discutia com alguém, passava a noite sem dormir. — Joana explicou enquanto apontava para o cardápio. — Descobri ontem que Gustavo é irmão de Heitor. Isso é verdade? — Parecia confuso para mim. Por que a minha tia permitiria que um dos netos frequentasse a sua casa se ela claramente não gostava da família Lima? Talvez ele seja realmente diferente dos outros. — Sim, ele é. Eu sei exatamente o que está pensando. Não o recebi de bom grado, mas não posso fazer nada. De alguma forma, ele se tornou melhor amigo do meu filho mais velho e, depois, das minhas filhas. Quando dei por mim, ele já estava frequentando a minha casa diariamente. E eu não consegui expulsá-lo antes, agora menos ainda. Ele era apenas uma criança que não tinha culpa da família que tinha. E agora é tarde demais para impedi-lo de entrar. — Joana deixou claro o seu desgosto com a presença de Gustavo. Ao falar na frente das funcionárias, percebi que todos estavam cientes disso. — Eu entendo. Na verdade, não entendia nada. E muito menos conseguia decidir se podia ou não confiar nele. Minha tia deixou claro que para ela, Gustavo não era diferente dos outros da família dele. Apenas foi obrigada a aceitar sua presença por conta dos filhos. — Você deveria perguntar sobre o que estava falando ontem em relação ao Heitor. Talvez Gustavo saiba de algo, afinal, deve haver uma razão para a relação dos dois irmãos ser tão r**m. Eles não se suportam. Gustavo passou boa parte da vida fora da fazenda, estudando em internatos ou escolas da capital, justamente por não se dar bem com o seu irmão e porque a sua mãe sempre favoreceu Heitor. Eles não conseguem nem ficar no mesmo ambiente sem acabar em uma guerra. Ele é a melhor pessoa para conseguir informações sobre aquela família. Sugiro que aproveite a oportunidade, Gustavo viaja bastante e raramente fica no Brasil desde o acidente. Talvez você consiga algumas das suas respostas. — Joana sugeriu. Isso queria dizer que ela confiava nele? Ou acreditava que as desavenças entre irmãos eram suficientes para colocar um contra o outro? — Vou subir e pensar um pouco no que devo fazer. Obrigada pela dica. — Pensei em perguntar sobre o menino de ontem, mas não quis colocar ninguém em apuros; mais tarde, perguntarei para Penélope sobre ele. — Ah! Não sei se você já contou, mas peço que não conte para ninguém que é minha sobrinha. Assim será melhor e você chamará menos atenção. Quanto menos souberem sobre a sua vida, melhor será para ela. — Joana me olhou agitada. Isso me fez suspeitar um pouco das ações dela. Primeiro, n**a a minha mãe. Depois, quer que mantenha segredo sobre a nossa ligação. A minha mãe também nunca havia falado nada sobre ela. Quanto mais penso, mais acho que tem algo estranho acontecendo. — Se acha que assim será melhor, não contarei nada. — Acreditava nisso? Nem um pouco. Ela esconde algum segredo. Preciso descobrir. Apenas voltei para meu quarto. Voltei para meu quarto profundamente pensativa. Havia um risco enorme em contar tudo para Gustavo. Ele poderia usar isso contra mim e a favor do seu irmão. Mas sinto que ele gosta de mim de alguma forma. Naquele dia que nos conhecemos, criamos uma conexão. Não estou maluca. Quer dizer, talvez eu esteja. — Não! Vou seguir o meu coração. Quero acreditar e confiar nele. Me sentiria péssima se seguisse com o plano e acabasse ferindo ele. Em vez disso, posso trazê-lo para o meu lado e colocar Gustavo contra Heitor. Isso parece muito melhor. — Levantei da cama olhando para algumas roupas. — Não faz m*l se arrumar um pouco, não é? Tomei um banho demorado, pensando em como contar a história para ele. Escolhi um vestido de algodão com flores. Era bastante confortável. Passei um bom tempo tentando domar o meu cabelo, que havia acordado mais rebelde do que nunca. — Pronto! Agora vamos atrás das nossas respostas. E quem sabe, até um pouco mais do que isso. — Não posso mentir que não consigo ver Gustavo como um m****o da família Lima. Talvez por tê-lo conhecido antes disso. E de alguma forma, não posso negar a atração que sinto, mas uma coisa de cada vez. Desço as escadas animada, cheia de expectativas de que meu novo plano dará certo. No entanto, para minha surpresa, deparo-me com Tâmara e Gustavo sentados no sofá, bem próximos um do outro. Por reflexo, acabo me escondendo atrás de um pilar. — Desculpa, Gustavo. Eu falei com a minha terapeuta. Vou aumentar o número de sessões e a medicação. Ainda estou tendo muitas explosões de raiva. Entendi o que quis dizer depois que me acalmei. Tive uma atitude exagerada, especialmente com alguém que salvou a sua vida e está passando por dificuldades. Confundi tudo. Ontem mesmo fui até o quarto dela e expliquei tudo. Fizemos as pazes e estou bem. Vou cuidar dela. Eu juro. Afinal, sou sua esposa. — Tâmara aumentou o seu tom de voz. Tenho certeza de que sabia que eu estava ali. — Eduarda precisa de ajuda neste momento difícil. Não sei de onde tirou essa ideia de que eu estaria com ela. Ainda somos casados, não faria algo assim. Espero que compreenda que manterei o meu voto enquanto estiver nesse casamento. Respeito a sua família, nossa história, e nunca faria algo assim enquanto ainda estiver usando essa aliança. — Gustavo respondeu. Cada palavra parecia uma facada. Como não percebi antes que ele era casado? — Sim, está certo. Somos casados, apesar dos pesares. Não cometerei mais esse erro. Em relação à Eduarda, passarei a ser mais generosa, não apenas com ela, mas com os menos afortunados. Fui abençoada com uma família maravilhosa e devo retribuir essa bênção de alguma forma. Sendo sincera, eu realmente sinto pena de Eduarda assim como você, e também gratidão. Quando perdi a minha irmã, também fiquei devastada. Imagino como ela está se sentindo agora. Só de pensar naqueles dias, meu coração dói. — Tâmara se jogou nos braços de Gustavo, indo para seu colo. — Tâmara, sobre Eduarda, você está equivocada... — Gustavo parecia querer continuar o assunto. Eu já não suportava ouvir mais nada. Não podia mais ver aquilo; subi as escadas nervosa, com cuidado para não chamar atenção. Um nó se formou em minha garganta. Como não percebi antes? Ele é casado com Tâmara?! Era óbvio que ele sentia apenas gratidão e pena por mim; não sou mais do que uma caridade para ele. Como fui tão i****a? Cheguei a pensar que ele estava interessado em mim. Quase coloquei o meu plano em risco. Sou muito ingênua; a minha irmã estava certa. Não posso confiar tão facilmente nas pessoas. Gustavo jamais olharia para uma mulher como eu. Retornei ao quarto, limpando as lágrimas que rolavam no meu rosto sem autorização, mas ao entrar, me deparei com Penélope encostada na parede olhando assustada para cama. — O que está... — não terminei sequer a frase. Quando olhei para cama, percebi a razão do medo de Penélope. — Você... Está vivo? — Achou mesmo que poderia fugir de mim? — Timóteo sorriu apontando a arma para cabeça dele Penélope — Você jamais poderá escapar de mim, Eduarda. Eu iria até o inferno para te levar de volta. Você é minha. Aceite isso.
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