Saí do banheiro com o coração acelerado, como se tivesse feito algo errado. Mas não tinha, certo? Eu era noiva. Médica. Certa. Correta. Discreta. Sempre fui.
Mas tinha um homem naquele morro que conseguia bagunçar tudo isso só com um texto no w******p.
E eu não podia negar que gostava.
Voltei pra mesa respirando fundo, ajeitei o cabelo como se isso fosse arrumar o que estava fora do lugar em mim — mas era por dentro que tudo tava revirado.
— Tá tudo bem? — Frederico perguntou, tocando minha mão.
— Claro. Só uma mensagem da clínica, nada urgente — menti com a cara mais tranquila que consegui.
Ele me olhou um pouco mais atento.
Não falou nada, mas percebi a tensão sútil em seu maxilar. Conhecia cada microexpressão dele, e aquela era típica de quando algo não saía do seu controle.
— Se precisar, a gente pode ir embora — ele sugeriu, solícito.
— Não, Fred. Tá tudo ótimo — forcei um sorriso e levei a taça aos lábios, como se o vinho pudesse apagar o calor nas minhas bochechas.
Mas aí... eu senti.
Aquela presença.
Olhei discretamente pro lado e ele tava lá.
Falcão.
Encostado num canto discreto do restaurante, usando um moletom preto básico, o capuz abaixado, mas a arrogância dele era inconfundível. Um sorriso torto surgiu nos lábios quando percebeu que eu o vi.
E pior: ele sabia. Sabia que eu tava sem ar, sem chão, sem defesa.
Meu corpo reagiu primeiro que a razão. Coração disparou. As pernas tremeram. A lembrança do toque dele voltou tão real que quase estremeci ali, na frente de todos.
Voltei os olhos pra Frederico.
Ele agora me olhava diferente.
— Tem certeza que tá tudo bem? — perguntou, desconfiado.
— Claro. Por quê?
— Porque você ficou branca... e depois vermelha. E... tá me apertando a mão como se eu fosse te segurar.
Soltei. Sorri. Um sorriso quase culpado.
Mas era tarde.
Eu não sabia mais fingir tão bem quanto antes.
E lá estava ele, Falcão, assistindo tudo. Como quem joga um jogo em que já venceu.
— Vou ao banheiro de novo, já volto — disse ao Fred, sorrindo como se tudo estivesse sob controle.
Ele apenas assentiu, mas eu vi no olhar dele que aquela minha saída repentina não passou despercebida.
Atravessei o salão elegante do restaurante com o coração na garganta, ignorei o garçom que tentou me oferecer mais vinho e fui direto pra saída lateral. O ar da noite bateu no meu rosto como um tapa: gelado, mas necessário. E lá estava ele.
Falcão.
Encostado num carro, camisa justa, moletom aberto e o mesmo sorriso safado de sempre. Como se estivesse exatamente onde queria estar.
— Que merda você tá fazendo aqui? — perguntei, indo até ele num sussurro agressivo. — Sabe quem é o meu noivo? Sabe com quem ele tá jantando?
— Descobri agora, gata — respondeu calmo, com um brilho debochado nos olhos. — Deputado federal. Responsável por aumentar a segurança do Rio. E tá ali dentro, com o governador linha dura… cena linda.
Revirei os olhos, me aproximando mais, indignada e assustada.
— Você é dono de morro — sussurrei, nervosa. — Você pode ser preso.
O sorriso dele sumiu. O olhar ficou sério. Por um segundo, achei que ele fosse embora. Mas não. Ele olhou pra porta do restaurante e depois me agarrou pela cintura.
— O quê você tá...
Não terminei. Fui empurrada com força controlada pra dentro do carro. Ele deu a volta, entrou do outro lado e trancou as portas. Eu já ia abrir, mas o "click" me avisou que não ia dar.
— Você tá maluco?! — sibilei, tentando me soltar.
Ele segurou minha mão com firmeza e apontou com o queixo pra entrada do restaurante.
Lá estava Fred.
Saía do restaurante, olhando ao redor, celular na mão. E aí meu telefone começou a tocar. A tela acendeu: Frederico Marques.
Minhas mãos tremiam.
— Oi, Fred… — atendi tentando soar natural, engolindo o nervosismo.
— Onde está, querida? Já foi? — perguntou ainda vasculhando a rua com os olhos.
— Sim, peguei um carro de aplicativo — menti, enquanto o Falcão soltava um riso baixo do meu lado, divertido com a minha performance.
— Nos vemos amanhã, querida?
— Sim… depois da clínica — respondi, sentindo o olhar de Falcão grudado em mim.
— Ok. Beijo, querida.
— Beijo, Fred.
Desliguei. O silêncio tomou o carro. O ar ali dentro era pesado. Tenso. Elétrico.
Falcão se recostou no banco, rindo pelo nariz.
— Você é fria — soltou, mais pra ele do que pra mim.
Virei o rosto irritada.
— Fria por quê?
— Ele te chama de "querida" e você chama o cara de Fred? — levantou a sobrancelha, como quem já sacou o jogo. — É o noivo, não teu colega de estágio.
Cruzei os braços, defensiva.
— É o nome dele — dei de ombros, mesmo sabendo que era uma desculpa fraca.
— Você tá noiva. No mínimo um apelido carinhoso, uma coisinha de casal... mas nada, né? — disse, me olhando com aquela intensidade que fazia minha pele arrepiar.
— Você não sabe nada sobre mim. Nem sobre mim e ele — retruquei, mais dura.
— Não preciso saber muito pra ver que teu coração não tá ali — disse ele, baixando a voz, quase num sussurro rouco. — E que teu corpo, doutora… tá querendo outras coisas.
Engoli em seco. Meu corpo inteiro reagia à presença dele. Um calor descontrolado subia pelas minhas pernas. Era como se ele tivesse o poder de me despir só com os olhos.
— Você não é o primeiro a notar — confessei baixinho, desviando o olhar. — Nem meu pai entende o que eu tô fazendo noiva do Frederico.
Falcão se aproximou, agora com o rosto quase colado no meu. Seu perfume era forte, envolvente.
— E você entende?
Fechei os olhos, respirei fundo… mas não respondi.
Porque a verdade?
Eu também não sabia mais.