Suspiro, fechando o livro em meu colo, e me recosto na poltrona próxima à janela. Faz quase um mês que estou no hospital — impossibilitada de sair daqui até ganhar alta — e não aguento mais esse lugar e a rotina tediosa que tenho aqui:
6:00: Acordar;
7:15: Coleta de sangue para exames, tomar o café da manhã;
10:00: Mais exames, tomar o café das dez, tédio até o almoço;
11:45: Almoçar;
13:30: Fisioterapia (que, apesar de os exercícios serem moderados, me faz suar e ofegar como se tivesse corrido duas maratonas);
15:00: Café da tarde;
16:00: Falar com uma psicóloga especializada em casos de trauma por abuso físico;
18:00: Ouvir as orações que o capelão do hospital insiste em fazer;
Depois de todas essas tarefas desgastantes (comida de hospital é mesmo r**m), tenho algumas horas livres até o momento de jantar, tomar banho e por fim, dormir.
Isso todo santo dia.
O único luxo que posso me dar atualmente — além de tomar um banho normal ao invés de ser lavada por uma enfermeira com uma esponja úmida — é o de usar minhas próprias roupas que, surpreendentemente, é meu tio Richard quem me traz. Acredito que depois de toda a discussão que ele e tio Theo tiveram no velório, a culpa fez efeito, porque ele até tenta se esforçar para conversar comigo como se eu fosse sua sobrinha e não mais um item na longa lista de fardos dele.
Depois de todo o fingimento, o enterro do meu pai fora simples e monótono, com o caixão levado para o cemitério sem muita cerimônia. Um padre dissera algumas palavras, meus parentes fingiram tristeza, jogaram uma pá de terra na cova e todo mundo fora embora o mais rápido possível.
Emocionante.
Essa semana, os dias estão particularmente mais entediantes. As visitas de Rita já se tornaram menos frequentes e não a culpo por isso; sei que sua vida é muito agitada e eu não sirvo para ser uma de suas prioridades. Porém, não consigo evitar esse sentimento de vazio sempre que penso que, se minha família fosse diferente, eu conseguiria lidar melhor com a atual situação.
Mamãe com certeza passaria o dia todo no hospital preocupada comigo. Consigo lembrar com certa nitidez da sua face de preocupação toda vez que eu caía e ralava o joelho quando era pequena.
Já meu pai não faria o mesmo por mim, sei que não. Ao menos, não depois da morte de mamãe, quando ele virou um alcoólatra miserável que não ligava para mais nada além de uma cerveja gelada.
Mordo a parte interna da bochecha com força para me distrair da dor emocional causada por essas memórias há muito guardadas no fundo da minha mente e encaro a janela na parede à minha esquerda. Deixo o livro de lado e me levanto, ainda com um pouco de dificuldade pelos músculos fragilizados, e observo o mundo lá fora, tão chamativo quanto opressor.
O sol m*l nasceu e já brilha com toda a sua magnificência, iluminando os poucos prédios existentes em uma cidade tão pequena quanto a minha. Meu olhar passeia pela rua lá em baixo, já começando a ficar pontilhada de pessoas com um destino certo para ir.
Diferente de mim, que ainda não sei o que fazer diante de tudo que aconteceu.
Meu olho acaba focando em meu reflexo no vidro da janela e engulo o nó que se forma em minha garganta quando, até mesmo em uma imagem meio desfocada como essa, ainda consigo ver tão nitidamente as cicatrizes que permeiam meu rosto, deixando totalmente exposto ao menos uma parte do que foi feito comigo naquela noite.
Ainda estou perdida em meus pensamentos quando ouço passos vindos do corredor e começo a ficar nervosa. Sei que deve ser apenas um médico ou um visitante, mas não consigo relaxar meus músculos, ainda em recuperação, porém já dispostos a correr em uma situação de perigo.
Solto a respiração que não percebi estar prendendo quando tio Richard abre a porta do quarto.
— Ei, olha só quem eu encontrei, a Esther! — Ele sorri, mas seu sorriso é cansado e forçado demais.
— Tio! — Minha felicidade é igualmente forçada.
Afasto-me da janela, indo cumprimentá-lo. Seu abraço me deixa ainda mais desconfortável do que sua presença, mas continuo representando o papel de boa sobrinha.
Afinal, sempre fui ótima em reprimir memórias ruins e ignorar situações de merda.
— Meninos, venham falar com sua prima.
Meu tio m*l termina de falar e seus filhos entram no cômodo. Baixo a cabeça e deixo o cabelo cobrir minhas cicatrizes assim que vejo Luke, meu primo de dezenove anos. Por algum motivo, a presença de pessoas da minha faixa etária me deixa mais constrangida do que a de pessoas mais velhas ou mais novas.
Talvez seja porque agora qualquer um que se assemelhe comigo na idade sinta-se abençoado por não se parecer comigo na aparência também.
Meu primo George, de doze anos, entra logo atrás do irmão mais velho. Eu não havia visto nenhum dos dois no velório, então faz um bom tempo que eu não os encontro.
— Oi. — Luke diz, parecendo meio nervoso.
Olha para tudo, menos para o meu rosto.
George apenas me encara por um momento, seu olhar queimando as cicatrizes expostas desde meus braços até minha face, e volta a digitar em seu celular, murmurando uma saudação qualquer.
— Olá. — Respondo, igualmente encabulada.
Pelo que me lembro da época de infância, Luke é um garoto legal apesar de não falar muito. Tem cabelo castanho-claro e a pele levemente bronzeada por gostar de praticar esportes, atributos físicos adquiridos depois que abandonou a fase emo e tornou-se um atleta. As únicas coisas que ainda parecem iguais são os olhos azuis e o sorriso tímido.
É até engraçado como, mesmo sendo meu primo, ele consegue ser o meu completo oposto, visto que meu cabelo é quase preto, emoldurando um rosto pálido — agora deformado — com olhos escuros anelados por olheiras de quem não dorme há dias.
George é quase a perfeita cópia em miniatura de Luke, fazendo apenas algumas mudanças no cabelo, loiro como o de sua mãe. Porém, diferente do mais velho, o caçula tem uma personalidade detestável, sendo mimado, destruidor e bagunceiro, o típico garoto que humilha quem consegue só por diversão.
Quando mais nova, eu mantinha distância desse garoto sempre que podia e, aparentemente, vou continuar fazendo isso.
Após alguns segundos de um silêncio pesado e constrangedor, meu tio limpa a garganta para chamar a atenção.
— Então, Esther, estamos aqui para levá-la para casa.
— Casa? — Repito, tão incrédula que ergo a cabeça rápido a ponto de estalar meu pescoço. — Minha casa?
— Nossa casa. — Ele corrige, suspirando. — Levamos nossas coisas para lá ontem, então…
— Bem-vinda à família, nova irmã. — Luke dá aquele sorriso tímido e coloca as mãos nos bolsos da calça jeans escura.
— É, bem-vinda... filha. — Tio Richard abre outro sorriso forçado e passa a mão nervosamente pelo cabelo loiro ralo. — Só preciso assinar uma papelada, pegar seus antibióticos e vamos direto para casa.
Tento imitar sua falsa alegria em me ter como o mais novo m****o temporário da família, mas não consigo. Meu rosto congelou em uma expressão neutra enquanto obrigo a mim mesma a engolir o grito de frustração que ameaça subir pela minha garganta, uma sensação tão intensa que preciso cruzar os braços para que não percebam minhas mãos tremendo.
Digo que preciso de um tempo para arrumar minhas coisas e peço para me esperarem perto da saída lateral que dá para o estacionamento. Agradeço mentalmente o fato de nenhum deles questionar meu pedido e me tranco no banheiro, escorregando até o chão enquanto um soluço me escapa.
Puxo meu cabelo com as duas mãos enquanto mordo meu joelho para abafar um urro de agonia, sentindo meu peito queimar. Imagens de toda uma vida de humilhações e a sensação do medo irracional de que Jeff esteja no minúsculo cômodo comigo me preenchem e sinto que estou prestes a me rasgar ao meio.
Toda essa cena dura no máximo cinco minutos. Prendendo a respiração, levanto trêmula e me apoio na pequena pia, encarando meu rosto desfigurado pela lâmina do homem que encontro em meus sonhos toda noite.
— Você consegue fazer isso, Esther. — Sussurro para mim mesma, encarando meu reflexo com ferocidade. — Você aguentou uma vida de merda por quase dezoito anos, você consegue lidar com aquela casa por mais alguns meses até poder se mandar e tentar a sorte em outro lugar.
Jogo água fria no rosto e respiro fundo três vezes antes de sair, carregando comigo a mochila com todos os meus pertences pessoais. Ando de cabeça baixa pelo corredor do hospital, seguindo com passos curtos e rápidos até o local combinado.
Estou quase na saída quando meu olhar encontra uma figura encapuzada recostada na parede, de braços cruzados. Assim como eu, está de cabeça baixa, o que me impossibilita de ver seu rosto. Seu moletom branco não possui uma única mancha.
“É irracional, Esther.”
Interrompo meus passos e aperto a alça da mochila com força, tentando me tranquilizar com a voz suave da minha terapeuta ressoando em minha cabeça.
Todo o esforço para isso vai embora quando a figura ergue a cabeça o suficiente para eu ver que ela usa uma máscara cirúrgica que cobre toda a metade inferior do seu rosto.