Minhas mãos suam apesar do quão geladas estão. Sinto o ar escapando de meus pulmões em uma expiração fraca enquanto a sensação de dedos ao redor da minha garganta me pega de surpresa, me forçando a engolir em seco para tentar respirar.
Estou parada no meio do corredor, completamente estática e com os olhos arregalados, a menos de três metros da figura encapuzada. Ela parece me notar após mais alguns segundos, transcorridos comigo tentando fazer minhas pernas agirem para dar meia volta e procurar outra saída.
“Tenho que terminar meu trabalho, não é?”
A voz do assassino ecoa tão nitidamente em minha cabeça que é como se ele tivesse dito isso nesse exato momento. De novo, estou paralisada pelo meu medo.
Então, devagar, a pessoa se desencosta da parede e vem em minha direção. Esse movimento é como um gatilho para mim, que só assim consigo sair do torpor. Porém, meus músculos ainda estão muito fragilizados pelas perfurações e ainda não desenvolvi totalmente o equilíbrio que perdi quando Jeff arrancou meu olho, então acabo dando um passo em falso para trás, me desequilibrando.
Rápido como um gato, sinto as mãos do estranho agarrarem meus cotovelos, me impedindo de me estatelar no chão. Solto um grito que faz eco pelo estacionamento. Tento me desvencilhar de seu toque com urgência, ouvindo meu tio chamar pelo meu nome ao longe.
— Está tudo bem, moça?
A voz do desconhecido me faz parar subitamente de gritar. Agitado, ele me coloca em pé direito e baixa o capuz, tirando os fones de ouvido que não percebi estar usando. Seus olhos cor de mel me encaram como se eu fosse explodir a qualquer momento.
— Esther! — Meu tio entra pela porta atrás do garoto, assustado. — Está tudo bem? Aconteceu algo?
— E-Está tudo bem... — Minha voz é um murmúrio constrangido. — Eu só tropecei e ele me ajudou.
— Você ficou pálida de repente, pensei que estivesse desmaiando ou algo assim. Não quis te assustar, nem nada. Desculpe.
Olhando de perto, a aparência do garoto é bem diferente da de Jeff. Para começar, ele é vários centímetros mais baixo, além de parecer ter no máximo uns quinze anos. Isso sem falar na falta de um sorriso bizarro esculpido com uma faca.
Sinto meu rosto queimar de vergonha ao observar os olhares curiosos que atraí com meu pequeno ataque de pânico e desejo que um buraco se abra debaixo dos meus pés e me engula por inteiro. Peço desculpas para o garoto várias vezes e digo que realmente acreditei que fosse desmaiar antes de meu tio me dirigir pelos ombros até o carro, parecendo tão envergonhado quanto eu.
— Pensei que estivesse tomando seus remédios. — Ele diz, evitando olhar para o meu rosto enquanto acena para que Luke e George entrem no veículo.
— Eu estou. — Ando de cabeça baixa, tímida. — Eu só tive uma queda de pressão e me assustei quando ele me segurou, só isso.
— Você precisa aprender a se controlar. Como vai viver normalmente se não consegue sair do hospital sem criar caso com alguém?
Tio Richard me olha como se encarasse uma criança com alguma deficiência mental que fez algo que não sabe ser errado. Apenas balanço a cabeça de maneira afirmativa, querendo evitar uma discussão que, no final, não mudaria nada.
Nada vai mudar enquanto Jeff e eu estivermos vivos.
…
Encolho-me no banco, espremida contra a janela. George insistiu em ir sentado no banco da frente e, sem paciência para confrontos ou repreensões, tio Richard simplesmente deixou. Além disso, praticamente implorou para que o mais novo colocasse o cinto de segurança, enquanto Luke e eu íamos apertados como sardinhas em lata pelas caixas jogadas no banco de trás conosco.
Pergunto-me se meu tio deixaria George cuspir no Papa se ele fizesse birra o suficiente.
Encaro a paisagem ensolarada e feliz com olhos frios. Estamos no fim da manhã agora e as sombras praticamente desaparecem na luz que se fortalece cada vez mais a medida em que o sol atinge seu ápice no céu.
Fecho os olhos e massageio minhas têmporas, rezando para chegarmos logo em casa. Meu estômago se contorce diante da ideia de voltar para lá, ao mesmo tempo em que anseio por isso, como se precisasse enfrentar o local da tragédia para superar de vez mais uma parte desse acontecimento na minha vida.
Ainda de olhos fechados e com a cabeça encostada no vidro da janela, demoro um pouco para perceber que chegamos. Quando meu olhar vai de encontro à construção decrépita que chamo de casa, sinto um arrepio percorrer minha espinha.
Percebo de longe que a fechadura da porta da frente foi trocada por outra mais reforçada, e há câmeras de segurança espalhadas em pontos estratégicos. Porém, mesmo com essas mudanças, ninguém se deu ao trabalho de consertar a tábua quebrada na varanda ou de trocar a porta de tela que pende frouxa no beiral.
— Lar, doce lar. — Luke diz, saindo do carro. — Você vem?
— Claro... — Ele me estende a mão para me ajudar a sair do carro.
Encaro mais uma vez a morada decadente e, respirando fundo uma última vez antes de entrar, subo os três degraus que levam até a porta da frente.
Olho em volta, absorvendo as pequenas mudanças que a presença de meu tio e seus filhos causam no ambiente, como os móveis novos em condições um pouco melhores na sala e o pequeno quadro para pendurar chaves. Nada disso foge do meu olho atento enquanto caminho devagar, ouvindo os rapazes lá fora discutindo sobre as caixas que ainda faltam serem levadas para dentro e quem vai carregar o quê.
Ando sem rumo pelos cômodos do térreo, fazendo pequenas anotações mentais das coisas que mudaram para me adaptar a elas — assim como minha terapeuta havia sugerido que eu fizesse — e em pouco tempo já cataloguei as diferenças perceptíveis, como aparelhos melhores na cozinha, a disposição dos móveis na sala, algumas fotografias aqui e ali e as novas travas nas janelas, que me passaram um fraco sentimento de ter ao menos um pouco mais de proteção.
Quando meu exame detalhado termina, paro em frente às escadas. Sinto a ansiedade começando a se manifestar e fecho os olhos, controlando a respiração e acertando pequenas batidas na lateral do pulso esquerdo, um pequeno exercício de controle que a psicóloga havia me ensinado.
Assim, decidida a vencer esse empecilho, subo as escadas sem cerimônias. Minhas pernas parecem chumbo, como se estivessem se recusando a subir os degraus, mas ignoro a sensação e me forço a subir até o final.
Paro de caminhar ao chegar no topo da escada, empacando no começo do corredor. O carpete marrom-claro que o cobria fora removido, sendo trocado por um piso laminado quase da mesma cor. As portas dos quartos estão escancaradas para deixar a luz do sol banhar os cômodos, dando uma aura calma ao lugar. Parece uma cena tão comum que por um momento não acredito que estou no mesmo local onde toda aquela dor me foi infligida.
Caminho lentamente, mantendo meu olhar no exato ponto onde Jeff me encurralara contra a parede. A marca da faca que ele fincara ao lado de minha cabeça ainda está lá, um lembrete físico da visita do assassino. Passo meu dedo indicador sobre ela e fecho os olhos, sentindo o hálito quente e com cheiro de álcool acariciando meu rosto de novo.
Consigo imaginar a poça de sangue no chão na frente do quarto de meu pai — agora ocupado por tio Richard — e abro os olhos para ter certeza de que ela não permanece lá, ao contrário do que toda a lógica do mundo me diz.
Um riso baixo escapa de minha boca, precedendo a histeria em que vou afundar logo. O piso agora sem carpete faz com que meus passos soem mais altos, ecoando pelo corredor até eu chegar ao final dele, onde fica o meu quarto.
Encaro a porta, a mão na maçaneta pronta para abri-la e entrar, mas não tenho certeza se quero fazer isso.
Se consigo fazer isso.
Meus dedos vacilam quando tocam a superfície de metal frio da maçaneta. Fico estática por um segundo, avaliando se preciso mesmo me torturar tanto assim para superar o que aconteceu naquela noite.
Por um momento, a sensação irracional de que abrirei a porta e tudo vai estar exatamente como estava quando fui para o hospital me arrebata. Vejo cada marca de sangue respingado no chão e ensopando meus lençóis com clareza porque, no fim, aquela cena nunca foi embora, pois está sempre me pesando os ombros como um papagaio de pirata que repete a mesma frase a cada minuto:
“Ele vai pegar você”
Porém, de forma estranha, há um ‘papagaio’ no outro ombro e esse, ao invés de gritar, sussurra coisas incompreensíveis que me impulsionam a ter um comportamento bizarro em relação ao que aconteceu, quase fazendo parecer que eu quero estar perto de Jeff.
Em meu tempo tedioso no hospital eu fiz centenas de pesquisas sobre ele e seus assassinatos, seu modus operandi e os locais que, aparentemente, foram palco de sua matança desenfreada. Não soube como reagir quando descobri que, de todas as pessoas que ele matou, a única a sofrer uma agressão s****l fui eu.
Meu debate interno é interrompido pelo som de passos na escada e me viro abruptamente assim que Luke atinge o patamar, trazendo consigo uma caixa de papelão com seu nome escrito. Seus olhos azuis me encaram por apenas um segundo antes de desviá-los de volta para o chão, parecendo desconcertado. Com um sorrisinho simpático ele diz:
— Eu posso dormir nesse quarto, se você quiser. — A candidez de sua voz me desarma e quase aceito que ele troque de lugar comigo, mas aquela comichão masoquista me impede.
— Não, tudo bem. — Limpo a garganta. — Quer dizer, eu consigo fazer isso.
Sorrio, tentando acreditar em minhas próprias palavras.
— Tem certeza? — Ele se aproxima, caminhando lentamente. — Não precisa encarar isso, sabia? Você passou por muita coisa nesse quarto, ninguém deveria ser obrigado a reviver coisas como as que você passou.
Rio pelo nariz, balançando a cabeça em negação. Nem eu mesma entendo qual a causa da minha necessidade de voltar para esse lugar, mas é uma sensação quase física que me aperta o peito quando penso em abandoná-lo assim.
— Está tudo bem. — Repito. — Afinal, passado é passado, não é?
— É. Espero que fique tudo bem com você a partir de agora.
Digo que agradeço sua preocupação e ele se dirige até o próprio quarto — o que seria do meu irmão — que divide com George. Respiro fundo e encaro minha porta por mais um minuto antes de finalmente criar coragem para entrar.
Prendo a respiração ao olhar para meu quarto, praticamente igual ao que era antes do surgimento de Jeff em minha vida. A pequena janela que dá para a rua emoldurada por cortinas roxas e o espelho de corpo inteiro ao lado dela, a cama de solteiro velha, o guarda-roupa combinando com a escrivaninha e a pequena estante de livros ao lado da porta do banheiro. Tudo isso está exatamente igual, mas percebo facilmente as mudanças como a remoção do papel de parede creme estampado com borboletas pretas e o sumiço de um tapete branco e felpudo, ambos provavelmente sujos de sangue. Agora, o ambiente, além de pequeno, parece um pouco mais estéril com paredes brancas simples sem nenhum enfeite.
Solto a respiração e, tentando não imaginar meu sangue empoçado no chão, me sento na cama devagar. Percebo que o colchão foi trocado por um novo, tão macio e confortável que não resisto e deixo minha cabeça pender para trás até estar com o tronco todo deitado na cama.
Imagino que o antigo colchão agora está no lixo, ensanguentado e rasgado, e acredito que seu fim foi a única coisa boa derivada do meu suplício.
Suspiro e encaro minhas mãos, agora livres dos curativos. Observo cada cicatriz, desde as pequenas causadas por quedas na infância até as extensas feitas pela lâmina de Jeff. A maior delas é a que foi feita no momento em que a faca atravessou a carne, fazendo uma cicatriz reta nas costas e na palma da minha mão esquerda. O médico disse que por pouco eu não perdi os movimentos dos dedos quando o túnel do carpo foi quase dilacerado, felizmente sem atingir o nervo mediano.
A mão direita ostenta uma cicatriz em linha reta quase desde o pulso até o meio da palma por eu ter inutilmente tentado segurar a lâmina no momento em que ela desceu para apunhalar meu peito.
Fecho os olhos com força sentindo uma imensa vontade de chorar, mas a sufoco. Não quero mais chorar, não aguento mais fazer isso. Chorar não fez meu pai mudar, não fez Jeff parar, e também não vai diminuir a dor e a humilhação pelas quais eu passei, então de que adianta fazer isso agora?
Quando abro os olhos novamente, encaro as rachaduras no teto durante vários minutos, exatamente como fiz quando minha virgindade foi roubada. Minha ansiedade não me permite focar em uma lembrança só, indo desde momentos aleatórios em casa — como tomar o café antes da escola — até o momento em que meu olhar confuso encontrou o olhar transtornado do assassino, a primeira vez que senti que a eternidade cabe dentro de um único segundo, pois a sensação era a de que eu encarava Jeff fazia horas quando me pus a tentar fugir.
Quase em transe, me levanto e vou até à janela, encarando a rua agora iluminada pelos raios quentes do sol de meio-dia. Minha vista se limita ao ponto em que o vi lá fora, provavelmente antes mesmo dele escolher a minha casa para visitar.
Percorro a cicatriz que marca o sorriso permanente em meu rosto enquanto me encaro no espelho, sempre surpresa com o quão real meu olho falso parece. Meus lábios estão machucados pelas constantes mordidas — sangram sempre que ameaço sorrir, como se me lembrassem de que não há mais motivos para alegria em minha vida, tudo foi tirado de mim na noite em que eu deveria ter morrido.
Olho fixamente para as cicatrizes em meus pulsos pela primeira vez desde que foram desenfaixados e fecho as mãos em punho, sentindo um misto de vergonha com a necessidade de tentar de novo.
Desejo isso.