Uma Visão Diferente. (Jeff)

1429 Palavras
Três semanas atrás. Retiro a faca do corpo da garota com violência, soltando um grunhido de dor ao movimentar o braço baleado. Já faz quatro dias que levei um tiro e o processo de cicatrização ainda não terminou, outra coisa que me tira do sério. Pensei que quando fizesse um pacto para me tornar um servo de Zalgo — famigerado Profeta, a versão Proxie do demônio — eu teria mais privilégios do que isso. Quando lembro do motivo do meu estresse, minha irritação sobe tanto que só consigo pensar em uma frase: Como eu odeio essa vagabunda. Em anos lidando com matança, nunca havia estado tão perto de ser morto, ou pior, capturado pelas autoridades. Ainda não consigo entender como a p***a de uma garota tão comum conseguiu sobreviver a um ataque meu. Assim como ele sobreviveu. Tiro o rosto de meu irmão da cabeça e deixo o rosto dela se fixar ainda mais. Já comecei o processo de descobrir absolutamente tudo sobre essa garota, com uma ajudinha — muito bem paga, por sinal — de alguns conhecidos do meu ramo. — Esther, Esther... — Sussurro para o cadáver da garota que acabei de matar. — Você não perde por esperar pelo que eu preparei para que a gente se divirta. Os olhos da garota no chão do pequeno quarto onde estamos parecem me encarar de maneira acusadora. Assim como o de toda sua família, seu sangue mancha tudo num raio de dois metros. Rio baixo. Agacho-me e tiro o cabelo de seu rosto, já estampando um belo sorriso como o meu. — Não me olhe assim, meu bem. — Acaricio os cortes com a ponta do dedo indicador. — A culpa é sua por se parecer tanto com ela. Se tivesse tingido o cabelo ou engordado, nada disso teria acontecido. E de fato, essa garota poderia até se passar por irmã de Esther tamanha é sua semelhança com ela. O mesmo cabelo castanho com leves cachos, a pele alva, os olhos escuros e expressivos, a mesma fisionomia quase infantil e o hábito de tomar banhos horrivelmente quentes antes de dormir. Foi justamente por todas as coisas em comum com meu alvo especial que escolhi essa garota quando a vi sair de uma loja de conveniências hoje mais cedo, rindo enquanto falava ao celular. Essa é, inclusive, sua maior diferença com a verdadeira Esther: a aparente felicidade. No exato momento em que pisei na casa daquela maldita, já deu para perceber o quão hostil e deprimente era o lugar. A coisa só ficou mais óbvia depois que o pai chegou em casa, tão bêbado que m*l conseguia ficar em pé sozinho, reclamando para si mesmo que a filha não estava acordada para lhe fazer um sanduíche. O i****a m*l teve tempo de notar o que o atingiu assim que subiu as escadas, pronto para invadir o quarto da garota e gritar com ela por nada. Ele estava tão embriagado que senti quase um alívio ao perceber que sua respiração cessara completamente depois de algumas facadas em locais específicos, algo que poderia considerar um presente meu. Mas, eu não fiz isso para poupá-lo da dor, e sim para poupar tempo; eu já sabia que a diversão da noite não seria ele, mas sim a pobre garotinha assustada se escondendo nas sombras e acreditando que eu ainda não a notara parada ali. Agora, me arrependo até o último fio de cabelo de ter sido e******o o suficiente para tirar conclusões tão precipitadas sobre ela. Mas, também penso que não haveria como eu saber que a desgraçada lutaria tanto por uma vida tão merda quanto a que ela tinha naquele lugar. Ponto para ela. Encaro o corpo da Esther Falsa no chão e me levanto rapidamente, chutando seu rosto com tanta força que ouço ossos se partindo com o impacto. Outra coisa que essa v***a morta não se parece em nada com a original é o fato de ser uma desistente de merda que, assim que me viu na beira de sua cama, só começou a chorar e a implorar pela vida, mesmo eu deixando que tivesse a oportunidade de começar a correr só para ver quão longe ela iria antes de eu dar um fim em sua existência. Patética e insignificante. Saio do quarto pisando firme, tão irritado que não seria surpresa se houvesse fumaça saindo dos meus ouvidos. Olho para os corpos do resto da família que morava aqui e não sinto nada além de desgosto. Eles não são nada para mim além de uma distração medíocre para que eu não cometa outra burrice. Eu já havia perscrutado sobre a segurança da i****a no hospital e, tenho que admitir, minhas chances de pegá-la lá são mínimas, senão nulas. O caso de uma sobrevivente de um ataque de Jeff the Killer gerou uma comoção tão grande que há viaturas da polícia cercando o prédio dia e noite, repórteres do país inteiro tentando conseguir uma entrevista que seja, pessoas aleatórias fazendo vigília com velas e orações a noite toda pela recuperação da “coitadinha que lutou com toda sua garra e saiu vencedora de uma situação tão fatal quanto encontrar um tigre deitado na sua cama.” E, além de toda essa fama que eu gerei para ela me deixar puto, ainda tem a convivência insuportável com os outros assassinos na Mansão, que fazem questão de me lembrar todo santo dia que o coração da minha vítima ainda bate. Se não fosse explicitamente proibido matar outra creepypasta sem uma permissão especial dos ditos chefões, eu já teria acabado com a vida de todos os malditos Proxies do Slenderman só por serem extremamente irritantes, isso sem falar que já estaria caçando um meio de matar aqueles que já estavam mortos também. — Não acha que está sendo meio bobo por ficar pensando na garota o dia todo? Logo eles esquecem isso, Jeff. — A voz de Ben surge na sala de estar, onde sua imagem entediada brilha na televisão em cima de uma mesa simples. — Eu quero que todos eles se fodam, Zelda. O problema é ela. — Praticamente rosno na direção da tela, onde ele revira os olhos diante do apelido. — Aquela garota já está morta desde o momento em que pus meus olhos nela, é só questão de tempo até a poeira baixar e eu rasgar cada centímetro de pele dela que eu conseguir. — Você sabe que deixar as coisas irem pro lado pessoal só faz você cometer erros como um amador. É por não ter nenhum envolvimento com a vítima que serial killers famosos demoram para serem apanhados. — O elfo dá de ombros e me dá nos nervos também. — Você só fica filosofando de dentro de uma televisão porque é a merda de um garoto morto que não entende nada do que é quase se f***r por causa de uma menininha assustada qualquer. Ela não estava nem armada, p***a! — Aí o problema é seu. Ben apenas balança a cabeça em negação e some da tela antes que eu a quebre com um chute. — Você tem sorte que eu não posso ir atrás de você aí. — Cuspo na televisão quebrada e ouço o eco do riso debochado do projeto de elfo. — i****a. Uso para sair a mesma janela que usei para entrar e coloco o capuz do moletom preto que estou usando para me esconder — a pior parte de ser um assassino cujo rosto é conhecido. Caminho pelas sombras das árvores dos quintais desse subúrbio infernal, notando o padrão típico da classe média alta que insiste em pintar suas cercas de branco e deixar suas portas abertas porque, supostamente, confiam em seus vizinhos. Não poderia ser mais diferente da periferia suja onde levei um tiro. Após andar por alguns quarteirões, viro em um beco entre dois prédios vazios em uma área industrial da cidade e entro no carro que roubei há algumas semanas, já planejando qual seria o modelo do próximo a ser transformado no meu meio de transporte particular. As marcas de sangue no banco traseiro são o charme. Dirijo dentro do limite de velocidade para não chamar a atenção, já pegando o caminho que me levará para fora da cidade que, coincidentemente ou não, fica próximo da casa dela. Passo na frente da construção caindo aos pedaços e sinto um quê de satisfação quando vejo as fitas amarelas tradicionais da polícia enfeitando o lugar, sinalizando que ali mais uma vida inútil teve um fim pelas minhas mãos. Contudo, não ficarei satisfeito enquanto o serviço não estiver completo.
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