O almoço com minha nova “família” é uma ocasião silenciosa e constrangedora. Meu tio fez a refeição do dia, mas avisou que, a partir de agora, essa tarefa está por minha conta como sempre foi. Apesar de achar um abuso, — já que tecnicamente ele é só o tio que veio morar comigo por interesse — apenas confirmo com a cabeça, já acostumada com um homem mais velho sendo mandão e m*l-humorado.
Estou deitada em minha cama após lavar a louça, cansada demais por ter que fingir que estou confortável com os três novos moradores da minha casa. Respiro fundo, contando mentalmente quantas semanas faltam para eu enfim atingir a maioridade e poder sair daqui para viver a minha própria vida sem depender de agradar alguém.
Ouço George gritando com Luke lá em baixo — algo sobre alguém ter mudado de canal — e fecho os olhos, colocando o travesseiro sobre meu rosto para abafar os sons. Sinto tanta dor de cabeça perto desse menino que me surpreende nenhuma veia ter estourado devido à pressão.
Alguns minutos mais tarde eu enfim consigo cochilar após mais uma noite insone que tive no hospital. Desde que parei de tomar a medicação, não consigo dormir, o que é irônico já que a última coisa que eu deveria ter feito na vida era “ir dormir”.
Meu sono é inquieto e nada relaxante, cheio de pesadelos aleatórios onde sou perfurada por coisas pontiagudas e ouço o riso de escárnio de Jeff, que assiste meu sofrimento com prazer. Seus olhos anelados em preto analisam cada parte de mim com atenção, escolhendo o próximo lugar aonde vai me apunhalar.
Acordo com os músculos retesados e doloridos pela tensão apenas alguns minutos depois que dormi.
...
O dia se passa de maneira rápida e estressante depois do meu cochilo. Tio Richard acredita piamente que qualquer serviço doméstico é minha obrigação porque sou a única mulher na casa, então assim que boto os pés no térreo, ele me enche de tarefas que os filhos dele poderiam muito bem realizar sozinhos.
Nem consigo imaginar porque ele é divorciado há 6 anos, quando chegou em casa e pegou a esposa, tia Lucy, com outra mulher. Deve ter sido um choque e tanto. Agora, ela vive na Inglaterra com Nora, sua esposa, e visita os filhos duas vezes por ano, geralmente no Dia de Ação de Graças e no Natal.
Mesmo com a casa já devidamente limpa e arrumada quando cheguei do hospital, ainda havia muita coisa para organizar, então fiz tudo durante essa tarde. Decidir o que fazer com os poucos objetos pessoais do meu pai foi uma missão exaustiva já que eu não queria ter que lidar com as lembranças conturbadas que tenho com ele.
Eu sempre soube que era uma garota com problemas psicológicos devido à minha relação com meu pai, mas nunca imaginei que minha saúde mental pudesse decair até o nível atual. Tenho pesadelos horríveis e acordo sufocando no meio da noite, chorando contra meu travesseiro, e nunca desgrudo meus olhos de lugares com sombras onde alguém poderia se esconder.
Deitada em minha cama — após checar todas as portas e janelas pelo menos três vezes — e com minha luz noturna acesa, tento relaxar o suficiente para afundar na escuridão do sono sem a medicação, mas desisto depois de algumas horas e me entrego ao que está começando a se tornar meu novo vício: remédios controlados.
Aceitei o fato de que Jeff virá atrás de mim mais cedo ou mais tarde e acreditei que pudesse viver com isso e controlar meu medo, mas agora percebo que estava redondamente enganada. Estou começando a ficar cada vez mais paranoica, vendo Jeff em tudo quanto é lugar e me comportando como um animal maltratado.
Estou ficando louca.
...
Quando abro meus olhos de manhã, a casa ainda está em total silêncio. Presumo que meu tio não desmaiou no sofá da sala porque não ouço a televisão ligada no canal de notícias que ele insiste em ver mesmo sabendo que metade delas ainda é sobre mim e o paradeiro desconhecido de Jeff.
Fico deitada durante mais alguns minutos, os olhos fixos nas sombras se alongando pelo teto a medida em que o sol desponta em algum lugar no horizonte. Não sinto vontade de sair da cama e encarar o mundo, quero apenas me enroscar nas cobertas como uma bola e dormir até toda essa dor, ao menos, diminuir. Viro a cabeça para o lado e tenho uma visão parcial de meu reflexo pelo espelho na parede.
Pareço uma mulher moribunda.
Talvez Jeff tenha me matado, afinal. O que permanece aqui é apenas uma casca vazia sem propósito ou perspectiva de vida, questionando-se porque deveria insistir em continuar quando sua existência inteira vai ser permeada por essa dor ora silenciosa, ora gritante.
A imagem que me encara de volta no espelho me deixa enjoada quando me sento, o short do pijama deixando expostas as várias cicatrizes presentes em minhas coxas. Sigo suas linhas irregulares com a ponta dos dedos de maneira distraída quando uma ânsia me surpreende.
Meu reflexo me deixou mesmo enjoada.
Levanto forçando a mão contra a boca para conter o vômito, quase caindo no processo de correr até o banheiro e largar meu corpo com tudo no chão em frente à privada. As ânsias arqueiam minhas costas e a bile queima minha garganta, escorrendo pelo meu nariz quando começo a ficar trêmula e a fazer careta com o gosto amargo.
Meu tio bate na porta do quarto — que mantenho trancada — e fala meu nome, sua voz demonstrando um leve incômodo por ser acordado tão cedo. Respondo após uns dois minutos quando meu estômago finalmente se acalma, dizendo que ele pode voltar a dormir porque estou bem.
Mentira, claro.
Apoio o antebraço na porcelana branca e descanso a cabeça sobre ele, ainda sentindo os resquícios do súbito m*l-estar. Respiro devagar e penso em uma melodia aleatória até ter certeza que não irei mais vomitar, então levanto, dou descarga e lavo as mãos e o rosto, sentindo a água fria me despertar totalmente agora.
Quando ergo a cabeça para pegar a toalha, deixo um grito escapar.
Alguém desenhou um imenso sorriso no espelho, sua posição o fazendo ficar exatamente em cima do reflexo da minha boca. Começo a ofegar e a caminhar para trás ao perceber que o desenharam com sangue, já seco na superfície de vidro, o que indica que alguém entrou no meu quarto enquanto eu dormia.
Desesperada para chamar a polícia, saio do pequeno cômodo e destranco a porta do quarto tão rápido que quase não noto a figura de branco sentada na cadeira em frente à escrivaninha.