Capítulo 3: Jeito Tradicional

1170 Palavras
Lucca ​— Pelo jeito você levou essa coisa de casamento muito a sério... — Letícia me observava com os seus olhos azuis brilhantes. ​— Let, vá descansar. Eu ainda estou grogue por causa dos remédios, vou esperar ficar bem pra fazer uma visita a minha esposa. Você melhor do que ninguém deveria entender que eu preciso ter um herdeiro. ​— Não gosto que se sacrifique tanto por mim — ela fez um beicinho e se sentou no braço do sofá. ​— Foi por isso que você não foi mais na clínica? — sussurrei a pergunta, temendo que alguém nos escutasse. ​— Não conseguia aceitar que passasse por tudo aquilo no meu lugar! — as bochechas rosadas ficaram ainda mais vermelhas. ​— Shhh. Prometemos não falar sobre isso e não falaremos... Vamos para o meu escritório! ​Entrei na sala fria, o lugar possuía alguma beleza, mas era uma estética mórbida, pesada. Talvez igual às lembranças que aquele lugar carregava. Sentei atrás da escrivaninha antiga, testando cada uma das gavetas. ​— Por que veio pra cá? — perguntei, sem rodeios. ​— Eu gosto — ela respondeu, simplesmente. ​— Por-ra! Isso não é normal — coloquei os cotovelos sobre a mesa, e busquei as mãos pequenas dela — Me desculpe, eu não quis dizer que você é... enfim, diferente. ​— Eu sei. Vim pra cá, porque ninguém mais tem coragem de vir aqui, como se fosse um castelo m*l-assombrado — ela deu um sorriso, mas os seus olhos já não brilhavam como antes. ​— E estão errados? — me levantei, dei a volta na mesa até onde ela estava e depositei um beijo no topo da sua cabeça. — Vai dormir, você tem uma audiência amanhã! ​— Achei que estivesse com mais saudade — ela me abraçou, deitando a cabeça no meu peito. ​— Sim. Mas agora preciso dar atenção a outra mulher — dei um sorriso ladino. ​— Ai, você é perverso, Lucca. Devia pensar em outras possibilidades para fazer um bebê, sem precisar dormir com ela. ​— Gosto do jeito tradicional! E essa não é uma conversa que quero ter com você. Saia! ​Ela fez uma careta, mas obedeceu. Eu precisava de um tempo sozinho, precisava pensar no que fazer com a minha vida. ​Não, eu não podia colocar outra pessoa em minha vida. Não podia fazer isso com a Letícia. Estava decidido, o tempo de Coryne na minha vida seria apenas o necessário. Ela me daria o herdeiro e se fosse ambiciosa e astuta como a mãe, ganharia uma boa fortuna para ir embora da minha vida e me deixar com a guarda total do nosso filho. ​Era uma excelente oferta. A família enfrentava dificuldade para manter o alto padrão de vida, a fortuna que eu lhe ofereceria seria irrecusável. Tinha que ser... Ainda fiquei um bom tempo no escritório, checando e-mails, e me informando sobre o que aconteceu no período que estive ausente. ​A carreira de Letícia estava indo bem. Ela estava trabalhando em um escritório de advocacia renomado, ela tinha uma mente brilhante, apesar de parecer uma garota manhosa quando estava comigo. A sobriedade já estava cobrando o seu preço, às vezes, as medicações dadas na clínica vinham a calhar com a minha vontade de me desconectar do mundo. Vi uma garrafa antiga de uísque na estante, me servi de uma pequena dose e bebi de uma vez. Sabia que estava sendo imprudente, mas não me importei. Estava cansado, tomei banho, aparei a barba e senti um frio na barriga ao pensar em Coryne. Aqueles olhos hipnotizantes eram reais, ou eu só estava dopado demais? Peguei um conjunto de chaves, me enrolei em uma toalha e segui para o nosso quarto. Ela estava imóvel na cama, mas pela respiração acelerada, eu sabia que ela estava desperta. Deixei a toalha deslizar para o chão e me deitei ao lado dela. Passei a mão pela sua cintura e a puxei pra mim. Bastou o contato do meu corpo com o calor dela, pra que eu ficasse pronto. Ela tentou se afastar, mas eu mantive a mão firme em torno dela. ​— Vamos ter um bebê, meu anjo — sussurrei junto ao seu ouvido, aspirando o cheiro adocicado da sua pele quente. ​— Você não é impotente? Uma risada rouca escapou da minha garganta, e ela escapou de mim, levantando-se da cama, puxando o cobertor para cobrir o próprio corpo. Quando ela acendeu a luz, seus olhos pousaram por alguns longos segundos sobre o meu corpo totalmente exposto. Meu desejo evidente. ​— De onde tirou essa ideia de que eu era impotente? — cruzei os braços atrás da cabeça, enquanto ela não conseguia desviar o olhar do meu mem-bro. O rosto vermelho de vergonha. Coryne possuía um olhar inocente e ao mesmo tempo intenso, o cabelo castanho caía como uma moldura perfeita em volta do seu rosto delicado. O volume da sua boca era o único contraste com seus traços finos. Ela tinha uma boca cheia, perfeita para beijar. Céus, eu estava ficando dolorido de tanto desejo. ​— Por que achou que eu fosse impotente? — repeti a pergunta, diante do seu emudecimento e olhar perplexo. ​— O tratamento psiquiátrico... os remédios — ela gaguejou em resposta. Então, ela aceitou se casar com um louco, porque o louco seria incapaz de cumprir com o seu papel de homem? Achou que seria fácil. E eu cheguei a acreditar que ela não fosse uma víbora como a mãe. ​— Isso é pouco pra você? — apontei para baixo e a peguei espiando com os olhos arregalados outra vez. ​Eu ri descaradamente do seu constrangimento ao ser flagrada, e ela atirou a coberta sobre o meu corpo. Ela estava com uma pequena camisola curta de cetim preta. ​— As noivas costumam usar branco na noite de núpcias, pelo jeito dormir comigo nunca foi uma opção pra você. ​— Eu nunca vou... eu nunca farei... amor, com o senhor. — o jeito acanhado e servil quase me convenceu. ​Apesar da peça que ela estava usando, o tecido deixava evidente cada curva do seu corpo. Ela era um espetáculo de mulher, o volume dos sei-os, das coxas, a curva do quadril. ​— Tão perfeita e tão ordinária — me levantei da cama e fui até ela. ​— Por favor, vista-se — ela implorou. ​— Você é a minha esposa. Achou mesmo que seria tão fácil arrancar uma pequena fortuna da minha família? ​— Por favor, não me obrigue, senhor — ela se encolheu, quando segurei os seus braços. ​Seu corpo tremia, o olhar possuía um medo cru, mas ao mesmo tempo, ela não correu. Não tentou escapar. A resposta do seu corpo foi automática, como alguém acostumada à violência, mas que sabe que não deve fugir. ​— Senhor? Por que uma jovem da alta sociedade tem um comportamento tão servil?
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