Pré-visualização gratuita Capítulo 01
Naomi Suede
Assim que a porta do carro foi aberta, fui recebida por uma onda de flashes em minha direção. Tudo o que consegui enxergar foi a mão de Luis, meu motorista, estendida para me ajudar a sair. Segurei-a com firmeza e coloquei os pés para fora do carro. Os flashes se intensificaram, mas me mantive firme.
Ao sair por completo, pude observar melhor o ambiente ao meu redor. À minha frente, um longo tapete vermelho levava até o interior do salão de festas da família Suede. Em ambos os lados, grades e seguranças impediam que os paparazzi atrapalhassem a passagem dos convidados.
— Você está extremamente sedutora esta noite, irmã! — minha irmã caçula sussurrou em meu ouvido ao vir me receber no tapete.
Posamos para algumas fotos antes de continuar caminhando para dentro do salão.
Ao olhar para Nicole, percebi o quanto ela estava linda naquela noite e o quanto havia crescido também. Minha irmã tinha completado vinte anos há menos de um mês, mas só agora enxerguei que ela não era mais uma garotinha.
Ela usava um vestido longo azul-marinho, com um grande decote nas costas, que revelava um colar delicado e elegante. Os cabelos estavam presos em um coque baixo perfeitamente alinhado, com algumas mechas soltas emoldurando o rosto. A maquiagem era leve, exceto pelos olhos contornados em preto, destacando nossa herança materna: os marcantes olhos azuis.
— Eu diria que você me superou esta noite, fratella — brinquei, arrancando um sorriso dela.
Entrelacei nossos braços, sentindo o calor familiar do seu corpo.
— Você se superou este ano — Nicole comentou, observando o salão ao nosso redor.
— Tudo do melhor para os longos e fortes oitenta anos do vovô — afirmei, orgulhosa. — E, claro, para os cinquenta anos da empresa.
Ela sorriu.
— Eu admiro você, Naomi. Espero que um dia consiga chegar perto de tudo o que vem conquistando. Você sempre será uma inspiração para mim.
Senti meus olhos arderem levemente com as lágrimas que ameaçaram surgir.
— E eu torço para que você seja ainda melhor do que eu — respondi com um sorriso.
— Aí estão as minhas meninas! — ouvi nossa mãe dizer atrás de nós.
Nos viramos ao mesmo tempo e encontrei nossa mãe ao lado do meu pai e do meu tio, Sérgio.
Um sorriso surgiu em meus lábios no instante em que fui envolvida por um abraço familiar. O perfume de jasmim da minha mãe invadiu minhas narinas, trazendo uma onda imediata de nostalgia.
— Que saudade eu estava de você, querida. Nunca mais passe tanto tempo fora, está bem? — dramatizou, arrancando uma risada baixa minha.
— Foram apenas dois meses, mamá.
— E ainda assim pareceram dois anos! — respondeu antes de soltar o abraço para envolver Nicole nos braços. — Já não basta sua irmã ter ido estudar do outro lado do oceano só para me maltratar?
Nicole me lançou um olhar suplicante por cima do ombro da nossa mãe, e eu apenas dei de ombros, segurando o riso.
Em seguida, abracei meu pai, que ainda carregava o mesmo jeito protetor de que eu sempre me lembrava.
— Você parece cansada, piccola. Tem certeza de que não precisa de ajuda nos negócios? — perguntou.
Neguei com a cabeça.
— Estou bem, papá. Só estou me readaptando ao fuso horário.
Eu havia passado os últimos dias na Coreia do Sul em busca de novas tecnologias para implementar na empresa. Nosso ramo sempre foi voltado para produtos capilares, mas a expansão para a área de skincare exigia mais do que pesquisas superficiais. E ninguém entendia mais sobre inovação estética do que os coreanos.
— Entendo. Mas saiba que sempre estarei aqui para qualquer coisa, mesmo que essa área não seja exatamente a minha especialidade — disse, mantendo o olhar preocupado.
Meu pai era cirurgião. Diferente do restante da família, nunca demonstrou interesse pelos negócios dos Suede. Quando decidiu cursar Medicina na juventude, meu avô quase teve um infarto. Felizmente, meu tio Sérgio assumiu parte da responsabilidade da empresa até que, anos depois, eu finalmente apareci.
Meu tio jamais ficou completamente satisfeito com isso. Durante muito tempo, acreditou que Sebastian herdaria tudo. O problema era que, assim como meu pai, meu primo nunca demonstrou interesse verdadeiro pelos negócios da família — apesar de toda a pressão que recebia.
— E então? Como foi Seul? — Sérgio perguntou após me cumprimentar com um abraço rápido.
— Enriquecedora. Em breve conto os detalhes.
Ele apenas assentiu, oferecendo um sorriso breve.
Antes que pudéssemos continuar a conversa, uma voz grave chamou nossa atenção.
— Então minha neta finalmente resolveu dar uma pausa na Ásia?
Sorri ao ver meu avô se aproximar. Seus passos continuavam firmes apesar da idade. Dono de uma saúde invejável, ele mantinha uma independência impressionante — além da aparência de alguém vinte anos mais jovem.
Nós nos abraçamos.
— Feliz aniversário, abuelo! Espero que tenha gostado da festa — falei com um sorriso.
— Eu adorei, minha querida. Você me conhece bem demais — respondeu, satisfeito.
Conversamos por alguns minutos sobre os convidados importantes presentes naquela noite. Depois, o assunto se transformou em fofocas leves sobre parentes que não haviam comparecido, tudo em meio ao clima divertido e acolhedor que sempre existiu entre os Suede.
Aos poucos, outros familiares se aproximaram, até que meu avô segurou meu braço delicadamente, me afastando da multidão.
— Gostaria de conversar com você… a sós. — A voz dele adquiriu um tom mais sério.
A preocupação se instalou imediatamente dentro de mim.
— O que houve, vovô? Aconteceu alguma coisa?
Ele negou com a cabeça, tranquilizando-me.
— Vamos para uma das salas privadas.
Assenti em silêncio antes de segui-lo pelos corredores.
Paramos em frente a uma das salas privadas e entramos. Meu avô se acomodou em uma das poltronas, e eu me sentei ao seu lado. Meu coração batia forte, embora eu nem entendesse exatamente o motivo.
— Bom, querida… hoje é um dia importante. Não apenas pelo meu aniversário, mas também pelo aniversário da empresa. E, ultimamente, tenho pensado muito no futuro desse legado… nas próximas gerações.
Ele me observava com seriedade, mas ainda havia carinho em seu olhar. Sua mão segurou a minha de forma acolhedora, embora eu continuasse sem entender aonde aquela conversa queria chegar.
— Entendo, vovô. Existe algo na empresa que preocupa o senhor? Algo que possa afetar o futuro dela? — perguntei, cautelosa.
Ele negou imediatamente.
— Não. Nem por um segundo. Eu vejo tudo o que você fez pela empresa nesses últimos anos, Naomi. Você levou os Suede para lugares que eu jamais imaginei alcançar. — O orgulho em sua voz era evidente. — Esse não é o problema.
Meu coração acelerou outra vez. Eu odiava aquela sensação de não compreender o que estava acontecendo.
— Você sabe o que é mais importante para mim?
— O legado da família Suede?
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— A família. O legado é apenas consequência disso.
Assenti devagar.
— E hoje eu percebi o quanto estou envelhecendo… Você já tem vinte e nove anos, Naomi. E eu nunca vi você ao lado de alguém.
Soltei uma risada nervosa. De repente, o ar da sala pareceu pesado demais.
— Não precisa se preocupar comigo, vovô. Eu ainda tenho muita coisa para conquistar antes de pensar em um relacionamento.
Mas ele não sorriu.
E aquilo me deixou tensa imediatamente.
— Estou falando sério, querida. Eu não quero que você passe a vida inteira se consumindo pela empresa. Quero que seja feliz. Quero ver você construir uma família.
A tensão no meu corpo devia estar evidente, porque ele respirou fundo antes de acariciar minha mão outra vez.
— E justamente por saber o quanto esse legado significa para você… eu precisei tomar uma decisão.
Meu estômago revirou.
— Enquanto você não encontrar um marido… estará fora do meu testamento. E também da direção da empresa.
Por um instante, o mundo pareceu parar.