Miguel estava no meio de uma reunião quando recebeu a ligação de um número desconhecido. Atendeu por impulso.
— Sr. Miguel Castro? — era a voz do gerente da cafeteria. — Desculpe incomodar, mas achei que o senhor deveria saber… a Ana não trabalha mais conosco.
Miguel endireitou-se na cadeira, o tom da voz se tornando frio. — Como assim?
— Foi… complicado. Recebi uma ligação de uma pessoa influente. Ficou claro que, se eu não dispensasse a Ana, meu negócio sofreria consequências.
Ele não precisou perguntar quem era.
Sabia.
Miguel desligou sem dizer mais nada. O sangue martelava nas têmporas. Ele se levantou bruscamente, derrubando a cadeira no chão.
— A reunião acabou — disse, e ninguém ousou perguntar o motivo.
Helena estava no salão de eventos do hotel da família, supervisionando a montagem para uma recepção de gala, quando Miguel entrou. Não havia sorrisos, cumprimentos ou formalidades. Apenas passos decididos e olhos que anunciavam tempestade.
— Você a fez perder o emprego — disse, indo direto ao ponto.
Helena nem fingiu não entender. — Ah… então já sabe.
— Como você pôde? — ele avançou um passo, a voz carregada de incredulidade e raiva. — Você cruzou todos os limites.
— Eu protegi você — ela respondeu, calma, como se a frase fosse lógica e suficiente. — Aquela garota é um problema. Eu apenas removi a distração.
— Distração? — Miguel riu, sem humor. — Você está falando da mulher que eu amo.
Helena ergueu as sobrancelhas, como se a palavra tivesse sido usada fora de lugar. — Você não ama, Miguel. Você está… fascinado. Isso passa.
— Não vai passar — ele disse, firme. — E cada vez que você tenta separá-la de mim, só me afasta mais de você.
— Se ficar com ela, vai destruir tudo o que construímos — Helena retrucou, a voz agora mais dura. — Vai perder aliados, acordos, respeito. E ela vai ser a causa.
— Prefiro perder tudo do que viver a vida que você quer — Miguel disparou. — Não vou ser um fantoche.
Os dois se encararam, o silêncio carregado como pólvora prestes a explodir.
Por um momento, Helena pareceu buscar algo no olhar dele, talvez hesitação. Não encontrou.
— Então estamos em lados opostos — ela disse, finalmente.
— Parece que sim — ele respondeu, virando as costas.
E, enquanto saía, Miguel sabia que aquela não era mais apenas uma disputa familiar.
Era guerra.