Ana estava sentada no sofá pequeno de seu apartamento, abraçando uma almofada como se fosse um escudo. As cortinas fechadas deixavam o ambiente em meia-luz, protegendo-a do mundo lá fora.
No fundo, o som distante do trânsito era um lembrete incômodo de que a vida continuava… mesmo quando a dela parecia suspensa.
Bateram à porta.
O coração dela disparou. Sabia quem era.
— Ana… — a voz de Miguel soou do outro lado, grave, carregada de preocupação. — Abre. Por favor.
Ela respirou fundo antes de girar a maçaneta. Quando a porta se abriu, Miguel entrou sem pedir licença, os olhos varrendo o rosto dela como se quisesse ter certeza de que estava inteira.
— Eu soube da demissão — ele começou. — E também soube quem foi responsável.
Ana desviou o olhar.
— Não precisava vir.
— Precisava sim — ele insistiu, aproximando-se. — Não quero que você enfrente isso sozinha.
Ele tocou de leve a mão dela, e foi nesse instante que Ana sentiu o peso do segredo arder no peito. Desde que confirmara o resultado do exame dois dias antes, o medo vinha crescendo como uma sombra.
Medo de Helena.
Medo de que Miguel fosse forçado a escolher entre ela e o filho que carregava.
— Miguel… — ela começou, mas a voz falhou. — As coisas estão ficando perigosas.
— Perigosas pra quem mexe com você — ele corrigiu, firme. — Não pra nós.
Ana mordeu o lábio, segurando as palavras que queria dizer. Queria contar. Queria sentir o alívio de dividir o peso. Mas só conseguia imaginar Helena descobrindo e usando a gravidez como arma para destruí-la.
— Talvez seja melhor a gente… se afastar por um tempo — ela disse, forçando a voz a soar firme.
O choque nos olhos dele foi imediato.
— Você não pode estar falando sério.
— Estou tentando proteger nós dois — mentiu, mesmo sabendo que a verdade era outra: estava tentando proteger o bebê.
Miguel segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Eu não vou a lugar nenhum. Não importa o que minha mãe faça.
Ela apenas assentiu, sem confiar na própria voz. Sabia que ele estava falando sério… mas também sabia que a guerra estava longe de acabar.
E que seu segredo, mais cedo ou mais tarde, mudaria tudo.
Quando ele a abraçou, Ana fechou os olhos, deixando que o calor dele apagasse por um instante o medo que carregava. Mas lá no fundo, sentia: o tempo para manter aquilo escondido estava correndo rápido demais.