Helena estava acordada há três dias.
O quarto de hospital já não parecia tão hostil, mas a ausência de sensações da cintura para baixo era um lembrete constante do quanto sua vida havia mudado.
Ainda assim, ela sabia que seu poder não vinha das pernas — e sim da mente.
Naquela manhã, Miguel entrou no quarto com um buquê de flores frescas.
— Como está se sentindo hoje?
— Melhor… dentro do possível — respondeu Helena, ajustando o travesseiro. — Mas preciso que você entenda uma coisa, filho.
Ele se aproximou, preocupado.
— O que foi?
— Eu não sei quanto tempo ainda tenho com você… não nessas condições — começou, deixando a voz embargar levemente. — E o que mais desejo é ver você casado, construindo a vida que sempre sonhei para você.
Miguel suspirou. — Mãe, esse não é o momento para falar disso.
— É exatamente o momento — rebateu ela, firme. — Eu posso não sair desta cama. E se isso acontecer, quero ter a certeza de que você está ao lado de uma mulher digna, que vai te apoiar e manter o nome da família intacto.
— Não pressione… — ele murmurou, desviando o olhar.
— Não é pressão, é um pedido de mãe — disse, suavizando o tom. — Miguel, me dê essa alegria. Marque a data do casamento com Isabela. Faça isso por mim… enquanto ainda posso ver.
Miguel ficou em silêncio por longos segundos. Sabia que, naquele momento, contrariá-la seria c***l. Mas também sabia que aquela não era apenas uma súplica… era uma corrente invisível, prendendo-o ainda mais a um destino que não queria.
— Eu… vou pensar — respondeu, baixo.
Helena esboçou um sorriso satisfeito.
Pensar, para ela, já era meio caminho andado.
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Na cafeteria principal, Ana revisava relatórios quando Gabriel apareceu com chocolate no rosto.
— Mamãe, você está triste?
Ela sorriu, tentando disfarçar.
— Não, meu amor. Só cansada.
Mas, no fundo, sentia um aperto. Tinha a estranha sensação de que Miguel estava cada vez mais distante… talvez, para sempre.