CAPÍTULO 6 (PARTE I)

2785 Palavras
Há muito tempo, a humanidade tem passado por um processo de mudanças entre o certo, o errado e o desconhecido. O desconhecido, hoje em dia, talvez nem seja mais tão desconhecido, afinal. Se você for pensar, é sempre tudo aquilo que te leva à tentação; a curiosidade de conhecer o desconhecido. O ser humano tem essa tendência a explorar o que sai da boca de outros seres humanos — eles buscam o prazer, algo maior que sexo, álcool ou adrenalina.  Por incrível que pareça, desde os primórdios, há mais de cinco mil anos, já existiam os efeitos colaterais para quem quisesse se sentir um deus diante de toda a miséria que era o mundo ainda não totalmente explorado, ou, simplesmente, para necessidades médicas. Os pigmeus, por exemplo, eram de uma tribo africana caçadores-coletores. Eles saíam para caçar, e, certa vez, encontraram javalis literalmente engraçados após terem se alimentado de uma certa planta chamada iboga. Como eu disse, o ser humano tem fome pelo desconhecido, e, portanto, um dos pigmeus experimentou a planta; ficou tranquilo, e logo a droga se espalhou por toda a tribo, sendo venerada pela sensação de tranquilidade que lhes era proporcionada. Então, foram surgindo outros presentes da natureza ao longo do tempo. A maconha, por volta de 2.700 a.C, como uso medicinal; a cocaína em 1.862, e mais algumas das suas misturas com amônia e água destilada, o que formava a famosa pedrinha no caminho, vulgo crack; o LSD, tendo maior popularidade na década de 60. O fato é que, com elas, surgiram também as formas de ganhar dinheiro fácil, vendendo porcarias. De princípio, e ainda em alguns cantos do mundo, as drogas eram ou são algo extremamente valioso, vindas de outro mundo, além de representarem um bem sociocultural importante para alguns povos. Por causa das porcarias adjacentes pós-tráfico, com a adição de produtos químicos desnecessários a elas, a humanidade se tornou dependente. Com isso, os mais espertos se aproveitaram da demonização que os Estados lançavam às drogas, ilegalizando-as, para estimular ainda mais aquela dependência, e ganhar dinheiro. Harry Styles era um desses espertos. Daqueles que aprenderam a não lavar as próprias mãos antes de ficarem ricos. *** Registro da última sexta-feira, vinte de dezembro; Sheffield. Por acaso, encontrei o carro do criminoso estacionado em frente a uma academia de um dos bairros nobres da cidade, e não devo negar que arrisquei minutos de atividades físicas apenas para que pudesse ter certeza de que o dono do Malibu era realmente Harry Styles. O homem costuma usar a sua sensualidade e jogo de palavras muito estrategicamente, e isso, de certa forma, eu percebi ser um ponto do qual ele usa para manipular as pessoas, e intimidá-las.  Seria mentira se eu dissesse que não funcionou; porém, consegui ser mais rápido que ele. Marquei um almoço com o gângster, e aquela foi a oportunidade perfeita para conseguir exatamente o que eu queria e estava desde o princípio no plano: aproximar-me dele. Ele foi muito reservado durante o almoço, nada imprevisível. Não revelou muitas coisas quando eu as perguntei — o que, por enquanto, ainda é compreensível, já que nos conhecemos há menos de uma semana e ele não é tão burro a ponto de entregar todo o jogo para um completo desconhecido. A única coisa que consegui perceber, embora muito insignificante, foi o fato de ele se julgar melhor que até mesmo o AI Capone. Um completo e clássico modesto. Por sorte, eu estou a um passo para a confiança do homem. Contei sobre a minha vida como Louis Tomlinson — mimado, falido e um belo francês afiado —, mas, melhor que isso, convenci o delinquente a dar-me a chance de tentar um emprego no seu império sujo, com o que ele quisesse. O meu primeiro dia no "trabalho" está marcado para hoje, segunda-feira, vinte e três de dezembro, na Grammar Street. O local não me parece muito perigoso, já que está cercado de residências antigas, de acordo com a imagem satélite que recebi. Me parece muito com um porão abandonado, mas em estilo casa vitoriana. O interior eu só descobrirei entrando. Portanto, em breve voltarei com novas informações. Era pouco menos de sete e meia da manhã quando Louis terminou seu segundo relatório da missão, encarando a tela do computador como se a mesma pudesse engoli-lo a qualquer momento. Sua visão estava meio turva pelo sono, que ainda não havia o deixado desde quando acordara, cerca de uma hora atrás e, sem muita vontade, enviara o e-mail para Stan, sem ao menos verificar a presença de qualquer erro ortográfico. Estava morto de sono e dominado pela ansiedade de contato com Harry Styles e seu novo trabalho, dali em breve. Stan que entendesse e corrigisse a p***a do seu relatório, ele pensou. Não se lembrava de Harry ter marcado um horário em específico para que pudesse dar as caras no local combinado para o seu primeiro dia. De qualquer forma, arriscou o horário mais cedo possível, vestindo duas camadas de roupa numa afobação incomum, sem o mínimo de interesse em sequer olhar para a cafeteira posta sobre a bancada da cozinha-quadrado de seu pequeno apartamento, num prédio que o FBI fizera questão de ser o mais podre de toda a Sheffield. As coisas não podiam ficar piores, e esse era um lema que Louis gostava de repetir a si mesmo. Como se estivesse se preparando para o primeiro dia de aula, acordasse atrasado e com o uniforme três vezes maior que o próprio corpo. Nada poderia ficar pior. Lá fora tudo parecia estar desmoronando em pequenos flocos de neve, mas, mesmo assim, a mão de William ainda suava; a temperatura externa era negativa, mas a interna era tão absurdamente alarmante que Louis tinha vontade de tirar toda aquela roupa e sair por aí expondo tudo. Desde que entrou para o FBI, sofria de um nervosismo que só lhe causou dores de cabeça e que inclusive chegou a virar um obstáculo para a sua carreira. Parecia algo comum ou compreensível, quem sabe uma marca registrada do policial, até ele começar a ter dores no peito e pressão baixa por causa da ansiedade. Dos quatro médicos com quem conversou, três recomendaram remédio e sessões com psicólogo, e então, Louis teve seu excesso de nervosismo driblado a partir dali. Porém, ultimamente, apenas o cigarro funcionava. E, agora, com todo o Império Styles, nem mesmo o cigarro era o suficiente. Olhando para o maço Marlboro em suas mãos, ele estava seriamente em dúvida sobre fumar ou não fumar logo de manhã. Não gostava nem um pouco de pensar sobre as consequências, mas, naquele momento, felizmente pensou. Não tinha estômago algum para enfrentar o que viria dali a poucos minutos, e muito menos para dar um sermão a si mesmo sobre os prós e os contras de simplesmente acender um cigarro, colocá-lo na boca e tragá-lo. Respirando fundo antes de fazê-lo, ele jogou o maço no lixo ao lado do seu velho honda. Ajeitou a roupa no corpo, que agora já não era mais a social sofisticada de sempre, e sim um terno velho e calça não tão magníficos, mas confortáveis — se negava a vestir-se conforme Harry havia pedido tão descaradamente. Tomou coragem para tomar pelo menos um de seus comprimidos. Quando finalmente parou em frente ao seu destino, não conseguiu conter o arquear das sobrancelhas e o "O" que sua boca automaticamente formou. Era exatamente como na imagem satélite que o FBI havia enviado a ele algumas horas antes, porém, ainda mais impressionante, pelo simples fato de parecer tanto uma casa comum, de família, a típica vitoriana, com o modelo que todas as residências inglesas pareciam ter, quando na verdade era quase que um refúgio cheio de porcaria e com criminosos ali dentro. Louis ainda não tinha sequer encostado o pé dentro da casa, mas, logo de cara, algo lhe dizia que nada ali cheirava a boa coisa. O de olhos azuis passou, pelo menos, uns cinco ou dez minutos parado em frente a casa, encostado no capô do carro, esperando qualquer movimento ou carros passando pela rua, muito bem asfaltada e bem situada para uma vizinhança tão morta. Nada de carros, pessoas ou até mesmo passarinhos cantando. Havia neve cobrindo os seus cabelos ainda bagunçados pós-sono, e, para evitar qualquer resfriado caso continuasse exposto como estava, criou coragem para ao menos bater na porta. E não demorou nem mesmo uma fração de segundos para a porta ser aberta. Louis esperava ver o homem alto e de cabelos cacheados, com os olhos de um verde vivo e, ao mesmo tempo, naquele tom sombrio de sempre. Porém, a figura a sua frente era totalmente oposta a qual ele tanto esperava ou, para ser sincero, temia. O homem tinha os cabelos loiros num quase topete, e não era muito diferente em relação ao visual sombrio do Styles; com um piercing na sobrancelha e boa parte do corpo coberta por tatuagens. Ele tinha olhos azuis vivos e penetrantes, os quais o Tomlinson estranhamente comparou aos da sua irmã, Lottie, e um sorriso tão sarcástico que foi o suficiente para fazê-lo se dar conta do tempo que passara ali, encarando. Louis conhecia aquele cara de algum lugar. Um dos cachorrinhos de Harry, na boate. O loirinho meio deslocado que entrou com os outros dois. A imagem daquela noite se tornou tão viva na cabeça do policial, que ele não pôde se conter em retribuir o sorriso sarcástico do loiro. — Louis Tomlinson? — Sou eu. — O policial disse em alto e bom tom, arriscando olhar mais ao fundo, por detrás da porta, mas não tendo muito sucesso, já que o garoto loiro barrava totalmente a sua passagem, limitando sua visão para o interior da casa.  Um garoto.  Louis ficava cada vez mais perplexo com o quão jovem era o Império de Styles e todos os envolvidos. Parecia que tinham acabado de nascer ou algo assim. — É... Eu te vi encostado no carro durante quase uma eternidade, enquanto está nevando aí fora. O senhor tem algum problema? — O loiro disparou. A voz era tão infantil quanto o seu rosto angelical. Apesar do piercing na sobrancelha, não passava de um menino, provavelmente... Irlandês? Louis supôs que fosse irlandês. — Hum... Então você vai me deixar entrar, ou... — Claro, claro... — Soltou um breve risinho, ainda assim encarando o Tomlinson por mais um tempo antes de tombar o corpo em direção ao policial, a sobrancelha com o piercing arqueando-se conforme se aproximava. — Apenas lembre-se de que, quando se entra, não sai mais. Louis engoliu em seco. Era tarde demais para isso, mas ele se arrependeu amargamente de ter abandonado seu cigarro. — Então você é francês? — O silêncio foi quebrado de uma forma tão sombria quanto fora o seu início, com o garoto loiro sorrindo tão sarcasticamente que Louis teve de se segurar para não sair correndo dali e entregar a missão para Stan. O garoto irlandês havia conseguido exatamente o efeito esperado, e, feito isso, finalmente abriu passagem para Louis. A primeira visão que teve não chegou a ser algo tão assustador assim. Ele já estava acostumado com casas-laboratórios em outras ocasiões, e então, ver apenas um hall com pinturas do Van Gogh ocupando as quatro paredes que os cercavam, de certa forma, o deixou mais tranquilo. Era um ambiente muito morto e sem nada muito suspeito, até que você ousasse prestar atenção no cheiro.  Açúcar e cafeína misturados. — Oui... je suis. — Louis murmurou ainda meio desnorteado pela mistura de cheiros, chegando a uma conclusão que talvez fosse a mais óbvia, desde o principio: havia uma cozinha química a metros dele. E, como se o Irlandês pudesse ler a mente do Tomlinson, ele abriu um sorriso torto e apontou os dedos cheios de anéis em direção a uma escada que provavelmente os levaria para o andar das coisas que realmente lhes interessavam. — A propósito, meu nome é Niall. Niall Horan. — Finalmente se identificou, subindo os degraus apressadamente, sem nem mesmo olhar para trás, onde Louis havia parado para olhar pelo menos um dos corredores do primeiro andar, onde provavelmente estaria a cozinha-química. Ele queria ignorar o tal Horan lhe guiando escada acima, mas acabou por segui-lo e continuar prestando atenção em cada mínimo detalhe, como se pudesse gravá-lo em sua memória, com todos os códigos. — O que aconteceu com o Styles? — Styles? — Niall freou seus passos de maneira abrupta, dando uma volta de quase 180º em direção ao policial, rindo a ponto de sua cabeça tombar para trás, enquanto um som quase que vergonhoso ecoava pelos murmurinhos que vinham lá de baixo. — Harry — corrigiu — deixou que eu cuidasse de você hoje, Tomlinson. Ele é um pestinha importante, você sabe disso.  — Sei, sim... Oui. — Sua vontade realmente fora de revirar os olhos.  Continuando a trilha pela escada, que àquele ponto não parecia ter fim, eles finalmente deram de cara com um corredor longo e com várias portas de madeira fechadas e distribuídas pelo mesmo. Niall, sequer olhando para trás, guiou o Tomlinson até passar por apenas mais duas portas, abrindo a terceira lentamente, como se quisesse causar algum tipo de efeito impactante ou suspensivo no policial. Afinal, ele realmente conseguiu. O cômodo agora descoberto era extremamente, senão totalmente, estampado de computadores. Havia uma longa mesa que circundava todas as quatro paredes do "quarto", e era impressionante a quantidade de telas que piscavam de modo sincronizado na mesa. Para sermos mais diretos: era uma sala informatizada; o paraíso de qualquer nerd viciado em tecnologia, ao vivo e em cores. Lembrava muito as salas de computação do FBI, nas quais Louis passava dias tentando entender qualquer código ou números que piscavam simultaneamente na tela. Aquele não era o ramo dele, nunca seria, mas não precisava saber muito sobre, para perceber que ali era exatamente o coração de tudo que fazia a máfia do Styles funcionar. Era ali que a proteção dele era garantida; ali que tudo se ligava a ponto de construir uma bolha de defesa indestrutível para quem ousasse tentar descobrir como funcionavam as coisas dentro do império do tráfico. Num instalo, uma lembrança surgiu na cabeça do Tomlinson: quando ele recebeu a notícia de que seria escalado para uma missão com Harry, num jantar no qual ele achava ser a noite para o anúncio da sua promoção. Claro que ele havia broxado totalmente ao saber que tudo o que teria dali em diante seria o mesmo trabalho de sempre. Mas, num piscar de olhos, se interessou pela história de Harry. Quando lhe explicaram que todo o sistema poderosíssimo do FBI simplesmente não era compatível — ou, melhor dizendo, não funcionava — contra o sistema do Styles, Louis se sentiu intrigado em saber como uma coisa dessa seria possível. Afinal, o FBI pode descobrir tudo o que lhe convém. Eles sabem o que você come, por onde você anda, e, se formos sinceros, até com quem você fode. — Eu lhe apresento o único sistema que dá de 10 a 0 no FBI. — Niall anunciou, escolhendo a cadeira mais próxima antes de sentar-se e abrir os braços em direção a toda extensão de computadores em volta de si. — Mas não tente entender tudo isso. Você poderia ser um maldito policial treinado, e ficaria dias e dias tentando, mas não acharia p***a nenhuma.  — Você cuida de tudo isso sozinho? — Infelizmente, ainda não me transformaram num super computador. — Riu. — Existem mais uns quinze nerds, e eles passam o dia inteiro sentados aqui. Mas é quase natal, você sabe, os vagabundos não querem trabalhar, mesmo que ganhem uma fortuna. Então eu dou meu jeito. — Um jeito? — Louis perguntou, sarcástico, indo se sentar ao lado de Niall. A oportunidade perfeita de pegar o máximo de detalhes que conseguisse. — Você não acha que essa é uma deixa para acabarem com o seu sistema? — Não existe essa possibilidade. Se o FBI ou qualquer merda americana estivessem interessados em destruir o nosso sistema, já teriam o feito faz tempo. Até porque, não é vantajoso. Eles já tentaram localizar as comandas dos nossos computadores, uma vez, e com isso o sistema apagou, ou seja, está programado a isso. Eu só tive o trabalho de reconstruir toda essa merda, depois. Desde então... Eles preferem enviar pessoas. — O loiro continuou, olhando sugestivo para Louis, de um jeito quase perfurante, fazendo Louis pensar que seria descoberto mais cedo ou mais tarde.  Tudo o que o policial sentia era um arrepio ameaçador percorrendo toda a sua espinha. Mais uma vez, imaginou seu cigarro.  — Agentes. — Ele tomou coragem e concordou. — Exato. São os piores. Eles se infiltram sem que nenhum de nós possa ter o tempo de perceber. Ainda assim, desde que entramos nessa, tudo sobre nós foi completamente apagado, então, não temos registros. Quem te garante que meu nome é Niall? — Riu, sugestivo. O loiro realmente parecia se divertir. — Existe outro ponto, e eu não acredito muito nele, mas é a confiança. Harry não é um homem que confia em qualquer um por aí, e mesmo que cometa esse deslize, temos muitos outros olhos em cada bonequinho a entrar por essa porta. Por isso, agentes? Nunca foram problema.  Até agora...
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