Louis P.O.V.
Logo de primeira impressão, eu já via naqueles olhos azuis o quão o tal de Niall era inteligente e esperto o bastante para descobrir tudo o que eu mais necessitava esconder, em um estalar de dedos. Ele, de certa forma, já deveria desconfiar de tudo. Já deveria ter entregado toda a sua desconfiança para Harry, enquanto eu agia tão perigosamente, ambicioso.
Quando ele citou os agentes e a preferência do FBI em enviar pessoas ao que simplesmente reforçar o sistema e rastrear cada passo sujo que cada um dos Styles' vermes dava por cada canto explorado do mundo, eu, de relance, fiz uma nota mental em agir com o dobro de cautela a partir dali.
Um deslize, e tudo estava acabado.
— Sabe, Sr. Tomlinson... Você conquistou a confiança de Harry de uma forma tão rápida que em minha cabeça chega a ser uma ideia quase alienada. — O loiro prosseguiu com suas suposições, a cada piscar de olhos, mais ameaçador. Eu quase caía da cadeira em nervosismo, como aquilo era possível? — Transou com ele ou algo assim? Porque ele tem muitas putas de luxo por aí. Talvez ele quisesse uma permanente dessa vez.
Como é?
— Excusez-moi, senhor Horan. Mas acho que você não entendeu bem o meu intuito em estar aqui. — Eu podia ser um agente, falso e filho da p**a, se formos avaliar pelo ponto de vista dos prejudicados com o meu trabalho. Mas p**a? p**a de Harry Styles? — Se Harry cofia em mim, pois bem, é porque eu fiz por merecer, não acha?
— Fez o quê, por exemplo, por merecer? Chupou o p*u de...
— Ouch! — O interrompi, a repulsa em minha expressão sendo tão evidente quanto o meu tom de voz já alterado. Aquilo era demais para mim. Harry podia ser um homem bonito, sedutor e dono de um corpo feito à medida para a perdição de qualquer ser humano com hormônios funcionando corretamente. Porém, nem pensar, eu nunca aproximaria minha boca a menos de um metro de suas partes baixas.
Eu sou gay. Muito gay, aliás. Mas a essa condição? Eu me recuso.
— Vamos deixar que a história tome o seu rumo, então... — O Horan piscou. — Agora vamos ao que interessa.
E então, com sua feição brincalhona mudando para uma totalmente oposta, a mais sombria possível, ele se virou para um dos computadores, o qual tinha o seu centro piscando simultaneamente e pedindo por um código que eu infelizmente não tive tempo suficiente para ler. O garoto digitava rápido demais, como se os dedos dançassem facilmente pelas letrinhas. Eu era exatamente igual com o piano; os dedos e as teclas formavam uma perfeita sincronia e possuíam uma assustadora atração, como se fossem imãs.
— Há um tempo, sei lá, três anos atrás... ? — Niall continuava mexendo com o mouse pra lá e pra cá, numa tela branca que eu por enquanto desconhecia, sem direcionar o olhar a mim, sempre com a testa franzida em atenção. — Encontramos um hacker japonês que conseguia invadir o sistema de entretenimento e máscaras de oxigênio de quase 70% dos aviões americanos. Tivemos que pagar quase novecentos mil euros pelo sistema dele, mas, no final, valeu à pena: isso nos tornou intimidadores. Harry ficou cantarolando por uns bons dias, como a bicha poderosa que estava se tornando.
— O quê? — Não pude deixar de arregalar os olhos com tal revelação. Afinal, que p***a, eles tinham o controle de um avião americano! Essa podia ser a resolução de vários assassinatos aéreos, e, por um momento, eu tive vontade de pedir licença e sair vomitando por todo o casarão enquanto Stan surtava do outro lado da Europa com a minha descoberta. — Vocês já...?
— Se já derrubamos aviões? — O loiro gargalhou. — Por enquanto, não. Harry só mata quem atrapalha os negócios dele.
— E os americanos não atrapalham os negócios?
— Simplesmente temos o controle do avião como forma de impor poder às outras gangues. Se os americanos atrapalham os negócios? Bem... Pare de fazer tantas perguntas, Tomlinson. — Só tive tempo de ver os códigos sumindo e o branco da tela dando lugar ao nosso reflexo no computador. Eu sinceramente queria esmurrar aquela carinha bonita de olhos azuis. — É seu primeiro dia. Se fizer muitas perguntas, vou começar a desconfiar de você. E quem sabe se não vou começar a contar mentiras, também? — Ele sorriu sugestivo, como se houvesse a possibilidade de tudo aquilo antes dito não passar de historinhas.
— Mas que merde, era só isso, afinal? Que eu saiba, Harry me chamou aqui para aprender o máximo que tivessem a me ensinar. — Rebati, mesmo sabendo que seria suicídio.
— Harry confia em você, porém, que pena, eu não confio.
— Ora, e não é ele quem manda nisso tudo? — Era inacreditável que eu estivesse dizendo isso, por mais que aquela fosse a mais pura e irremediável verdade. Harry podia até mesmo comandar o mundo se fosse de seu agrado.
— Você não tem, mesmo, a mínima ideia de como as coisas acontecem aqui. Sem mim nada disso seria possível. Lide com isso, diabinho francês.
— Diabinho francês?
— Coisa do Harry... — Ele simplesmente deu de ombros, gargalhando cada vez mais alto, como se já adivinhasse que a sua risada era a coisa que mais me irritava em todos os meus vinte e três anos de idade, sendo crescente e estrangulada, parecida com a de uma gazela sufocando ou algo assim.
Estava prestes a abafar sua risada anasalada com algumas palavras, mas antes que eu pudesse o fazer, o loiro olhou o relógio e sorriu sugestivo em direção à porta. Seus dedos tamborilavam harmonicamente na barra de sua camiseta de botões, um pouco desproporcional em relação ao seu corpo, que era relativamente pequeno, assim como o meu. Logo, o barulho ambiente se resumia ao tic-tac do relógio, os dedos de Niall, e a minha respiração ridiculamente acelerada.
Era demais pra mim, por Deus, eu odeio silêncio. O silêncio, tecnicamente e obviamente, é vazio de sons, a comunhão de uma alma consciente consigo mesma, segundo Henry Thoreau. Porém, para mim, como o clássico ansioso e agitado que sou, o silêncio nada mais é e nada mais será que uma imensidão de ruídos sofrendo por terem de se manter calados. O silêncio atiçava minha ansiedade e, merda, isso não era nada bom.
— Meu tempo com você acabou, senhor Tomlinson. Liam chegará em poucos segundos. — O loiro finalmente resolveu abrir a boca, tombando a cabeça levemente em direção à porta, que de pouco em pouco foi se abrindo com o típico ruído enferrujado que malditos lugares aterrorizantes como aquele costumavam transmitir.
Outra figura reconhecível entrou em meu campo de visão.
O homem era exatamente como o registrado pelas minhas memórias duradouras, desde a minha primeira noite em Sheffield. Os olhos escuros e grandes, com um corpo menos musculoso que o de Harry, porém, notavelmente maior. Sua barba estava por fazer, o que lhe dava um ar menos infantil em comparação ao que Harry e Niall tinham me passado desde a primeira vista.
Seria esse o tal de Liam?
— Hora de passar um tempinho comigo, Louis. — O recém-conhecido se pronunciou. Seu sotaque era inegavelmente inglês, fielmente rápido e fortemente silábico.
Uma de suas mãos gesticulava para que eu o seguisse porta afora. Enquanto isso, de relance, eu ainda sentia o olhar sombrio e desafiador do loiro atrás de mim. Eu sinceramente não sabia o que fazer — ficar ou não ficar, até que conseguisse a resposta para apenas mais algumas perguntas que martelavam no meu subconsciente naturalmente curioso —, e então, Niall apenas confirmou o comando do homem moreno encostado no batente da porta, praticamente me expulsando da sala ao que desligava um dos computadores, que por aquele tempo eu usei como distração.
Uau. Era um alívio estar longe do garotinho loiro. Ele era muito parecido comigo, e isso é inquestionavelmente r**m.
— Prazer, Sr. Tomlinson. — Num gesto totalmente inesperado, o qual fizera meus olhos saltarem e minhas bochechas ruborizarem num deslumbre, o homem tocou minhas mãos suavemente, levando-as até seus lábios, ali deixando-lhes um beijo, incrivelmente gentil e encantador. Por um tempo, eu me esqueci de que ele era apenas mais um verme. Todos que trabalham com o Styles ou coisas que envolvam o Styles, são vermes. Talvez ele fosse um perdido em meio a tantos. — Liam Payne.
E mais uma vez eu estava no imenso corredor estreito e cheio de portas emadeiradas, com pouco foco luminoso, já que todo o ambiente era iluminado apenas por um borrão amarelo que vinha de outra sala ao fundo.
Sem perceber, eu já estava parado em frente a um dos vários quadros de natureza morta da parede, prestando atenção no seu canto inferior, onde se podia ver uma assinatura: "Z.M", legível, numa cursiva redonda, de cor vermelha como o sangue.
Por Deus, tudo ali era muito obscuro, e Liam pareceu notar a minha impressão quando simplesmente se deu a permissão de tocar minhas mãos novamente, guiando-me escada abaixo, até o térreo, onde anteriormente eu estava.
Aquele cheiro agridoce misturado com infinitas essências, as quais eu poderia listar se quisesse, voltava com todo o vapor. Liam parecia gostar do cheiro, soltando minha mão e aspirando o cheiro de olhos fechados, depois voltando a guiar-me apenas por ter percebido que toda a cena estava me assustando. Realmente. Me assustando.
Quem tem prazer em simplesmente sentir o cheiro de drogas, afinal?
Bastou virarmos alguns corredores para chegarmos até onde eu estava de fato interessado; talvez o aposento mais claro da casa, dessa vez, com pessoas amontoadas; em sua maioria, homens mestiços e aparentemente colombianos, roupas finas e simples, o olhar vazio, focado somente no que suas mãos cheias de esparadrapos faziam; uns amontoados num recipiente, dissolvendo uma pasta branca em água quente o suficiente para que qualquer um observasse o vapor exalar de longe; outros trazendo e tirando baldes com líquidos tóxicos, de um cheiro insuportavelmente forte. Liam rapidamente me ofereceu duas luvas, uma touca, e máscara respiratória.
Aquela cena não me era estranha, infelizmente. Em pouco tempo trabalhando como agente, lendo e ouvindo historias dos mais experientes, eu já reconhecia a fumaça de impureza que era estar no meio de tantas substâncias tóxicas — a cocaína em si. Uma vez, até mesmo presenciei a destruição de uma cozinha química. Conseguia enxergar a quase inexistente angustia de quem trabalhava ali, já que sua morte estava marcada há muito tempo, a partir do momento em que se responsabilizava em modelar a droga e f***r toda a sua vida e o pulmão.
Porém, o que realmente me assustou foi o que vi mais ao fundo da cozinha... Em meio a tanto vapor, três garotas esparramadas no chão, evidentemente sem forças para sequer conseguirem abrir os olhos.
Liam seguiu meu olhar até as garotas.
— São refugiadas vindas da Síria. Elas tiveram de escolher entre morrer ou vender o próprio corpo. Mas não foram forçadas a isso, se é o que você está pensando. — O moreno deu de ombros, numa fala tão dura, mas que, no fundo, eu sabia, escondia um emaranhado de dó por cada uma delas. Quem não teria, afinal?
Tudo o que pude fazer, por ora, foi suspirar pesadamente, temendo em mostrar o quão aquilo me afetava. Tráfico de mulheres, ou qualquer coisa que as fizesse parecer com um pedaço de carne que se come ou, se não for de boa qualidade, apodrece... Qualquer ideia desse gênero me lembrava das minhas quatro irmãs e de minha mãe. Ficava enjoado, naturalmente, pensando em todas aquelas mulheres. Eu simplesmente não conseguia entender: como o ser humano chegou a esse ponto, no qual é capaz de ser tão sujo ao submeter seres da mesma espécie, indefesos como quaisquer outros, a um mundo tão sujo quanto os próprios humanos são?
De soslaio, consegui flagrar Liam lançando um olhar piedoso em direção às garotas. Quando se deu conta do quão esperto eu conseguia ser em sacar qualquer expressão, de qualquer um, e agora inclusive a dele, o moreno logo tratou de recompor-se e endireitar-se no eixo certo para a pose de um homem que trabalhava com a máfia. De queixo erguido, ele voltou a atenção a mim.
— A pasta vendida para os traficantes vem com várias outras substâncias, entre elas a cocaína. — Ele começou andando até um dos amontoados de homens que cercavam uma bacia cheia de algo branco, o qual eu supus ser a pasta. Por incrível que pareça, mesmo com a voz em alto e bom tom de Liam, os homens continuavam trabalhando como se não ouvissem nada mais que um zumbido. Pareciam zumbis, era assustador. — Para separá-las, é necessário, em um recipiente, dissolver a massa em água, adicionando ácido clorídrico ou sulfúrico, mais acetona. Esse é o trabalho desses caras aqui. E, bem, se Harry decidir que é mais seguro que você supervisione essa área, será o seu também.
— E vocês fazem tudo isso numa casa vitoriana, numa Sheffield tumultuada e populosa pra c*****o?
— Digamos que sim, Sr. Tomlinson. — Riu, fazendo círculos na pasta já quase pura dentro do recipiente. — Aqui produzimos pouquíssimo, é claro, até porque não temos espaço o suficiente para grandes resultados. Portanto, existem alguns laboratórios escondidos na América... Lá são todos como nós, a segurança é uma merda e o dinheiro é estrategicamente fácil. Já aqui, se trata de negócios: Harry paga o que for preciso para os policiais manterem uma boa distância de todo o quarteirão, e, acredite, até agora, tudo têm dado maravilhosamente certo. Sem policiais. Sem FBI... Um mar de rosas.
— Imagino... — Eles eram nojentos; todos, sem exceção.
Na faculdade e ainda no início do curso profissionalizante do FBI, eu cheguei a estudar sobre o mundo do tráfico, as drogas e os principais pontos de produção, que se ligavam aos pontos de distribuição e daí o ciclo vicioso se repetia. O primeiro tópico aprendido eu nunca iria esquecer, e o fato de estar tendo contato ao vivo e em cores com a cocaína tornava toda a teoria ainda mais clara para mim: Ela é uma droga dos infernos e fácil de se encontrar. São como os ratos do esgoto; estão por todo o lugar.
— Distribuidores como o Styles estão sempre pesquisando alternativas para aumentar a margem de lucro, para ficarem mais ricos. Afinal, a sede é insaciável — quanto mais se tem, mais se quer —, o que significa que eles estão misturando a caspa do capeta com todo tipo de aditivo desagradável, e mais algumas substâncias terríveis que valem muito mais do que você pensa.
— Genial. — Sorri, falso.
— Harry havia comentado sobre você ser um francês muito esperto, Sr. Tomlinson. — Deu de ombros, soltando um risinho ávido enquanto um dos homens abria espaço para que ele pudesse ter contato direto com a pasta branca, esfarelando os restos dela com os dedos. — Eu não tive muitas escolhas na vida, assim como o Harry e a maioria dos que estão aqui. Ainda assim, tudo o que fazemos é a arte mais bem pensada e inteligente que esse mundo já viu. Não é, Artur? — Assentiu um homem jovem e de traços americanos que manuseava a pasta ao lado do gângster.
Eu m*l sabia como respondê-lo. Tudo aquilo me causava a maior das repulsas, e, enquanto isso, tudo o que eu poderia fazer, por hora, era acenar e sorrir, como se aquele mundo fosse maravilhoso aos meus olhos.
Apesar de estar de costas, eu podia ver o breve olhar aliviado de Liam enquanto aproximava o seu relógio de pulso do rosto, para que pudesse ver as horas. Assim, voltou a prestar atenção em mim:
— O meu tempo com você acabou, Sr. Tomlinson. Foi um prazer conhecê-lo, e espero reencontrá-lo muito em breve, também.
Sem hesitar muito, acabei por assentir levemente, com um sorriso pelo menos gentil — o máximo que eu conseguiria forçar, considerando que, apesar de tudo, o sorriso de Liam parecia fiel e sincero. Minha boca já estava seca, a pele pinicando com todo aquele cheiro de química se espalhando de uma extremidade à outra da cozinha. Depois, entreguei a máscara e as luvas.
Por Deus, ainda bem que o meu tempo havia acabado.
Depois de eu lançar um último olhar piedoso a uma das refugiadas que por fim havia acordado — se já não estava acordada antes, e sequer tinha forças para mexer as próprias pálpebras —, logo Liam me guiou de volta ao imenso corredor. Com o seu inglês rápido e demarcado, eu fui instruído a passar por todas as portas à direita, até que chegasse a uma última nos fundos, e então, eu acompanhei todos os passos até que estivesse frente a frente com a tal porta, idêntica a todas as outras, porém, sem o mínimo de luz plausível vinda dela.
Sinceramente? Eu estava com medo de simplesmente girar a maçaneta. Ali todos eram tão malucos e sombrios que, quando ouvi um barulho de bala atingindo madeira, um tiro, eu posso jurar que quase voltei à cozinha para certificar-me de que Liam havia me passado os comandos certos.
Seria esse o plano principal do Styles, desde o princípio, então? Matar-me com um tiro? Ou será que àquele ponto já era eu o maluco da história e...
— Eai, vai entrar ou não?
Quando virei-me novamente em direção à porta de onde aquela voz vinha, outro homem misterioso estava ali, apoiado na batente da porta com uma das sobrancelhas arqueadas num semblante nada bom. Observando melhor, aquele era o ser humano mais bonito que meus olhos já haviam contemplado, depois de Harry Styles, oh, eu tenho de admitir... O que era aquilo?
Moreno, de cabelos negros e muito bem alinhados num topete perfeito, olhos castanho-escuros e barba por fazer, tatuado assim como todos os outros, mas, dessa vez, deixando um ar mais... Peculiar? Era dezembro e estava gelando por aí afora, e o homem usava apenas uma camisa sem manga, calça jeans escura e tênis que deviam custar o olho da cara. Como eu havia notado, aquele em minha frente, Niall, Liam e Harry possuíam o mesmo estilo, as mesmas tatuagens e piercings, exceto por alguns em áreas diferentes. Qual era o mais encantador? Eu não sei. E qual era o mais i*****l? Eu também não sei.
— Acordei muito cedo por sua causa, Louis. — Disse ao abrir a porta por total, me dando passagem para que entrasse e tivesse a visão de nada mais, nada menos, que uma área toda revestida com vários tapetes de borracha azuis. Na parede maior, era incrível a quantidade de armas penduradas como se representassem valiosos troféus, e, mais ao fundo, havia um pequeno ringue de luta.
Seria o lugar onde eles treinavam?
Àquele ponto, eu não ousaria duvidar de mais nada, e então, quando o moreno pediu para que eu escolhesse uma das armas, meu coração só faltou sair pela boca, e os olhos, saltarem das órbitas.
— Espero que isso seja, no mínimo, divertido. — Ele sorriu de canto, me encarando de cima a baixo. Por Deus...
Apesar de minhas mãos tremerem incontrolavelmente, sem fazer a mínima ideia do que aconteceria dali em diante, eu consegui dar alguns passos em direção à área que eu carinhosamente apelidei como o "mural de armas", até que estivesse de cara com a mesma. Num ato rápido, agarrei um revólver de calibre médio parecido com o qual eu costumava brincar, havia um bom tempo, nos espaços de treinamento americano. Parecia a primeira vez que eu pegava em um. Afinal, nos últimos tempos a minha especialidade consistia em sentar-me numa cadeira, de frente a uma infinidade de fichas criminais. Pois então, meu corpo simplesmente não sabia reagir muito bem, nem sabia o que fazer, como começar.
Fiquei paralisado.
— Vamos, mostre o que você sabe. — O moreno incentivou, entregando-me óculos de proteção, boné e tampões de ouvido, com os quais eu hesitei muito antes de tomar coragem e por fim usá-los. De soslaio, conseguia ver o homem me encarando do outro lado da sala, sorrindo torto, como se tivesse acabado de me propor o desafio mais impossível da eternidade.
A pouco mais de três metros de mim havia um alvo consideravelmente pequeno, o qual eu escolhi para pegar um pouco mais de distância — assim aquilo viraria, de fato, um desafio. Verifiquei se meu corpo estava na posição devidamente correta. Reto, mas levemente curvado para frente, em equilíbrio, mirei o olhar com apenas um dos olhos e apertei o gatilho. A bala havia acertado a divisão entre a área preta e vermelha, e então, quando atirei pela segunda vez, na área média entre o preto e o branco. Parecia algo i*****l e imprudente de início, mas, depois? Até que ficava divertido.
Quando me virei, vi que o sorriso subestimado do moreno sumiu, exprimindo tudo, desde inveja à admiração.
— Nada m*l, Tomlinson. Mas não me surpreendeu tanto. — Invejoso... — Agora dificulte um pouco e tome mais distância.
— Mais que isso? — Rebati. — Mas que p***a? Mais que isso é contra as normas! Você quer matar alguém?
— Está vendo algo que esteja dentro das normas nessa casa, por acaso? — Ele riu. — Vamos, Tomlinson, vai aceitar meu desafio ou não?
Merda. Ele provavelmente estava me testando.
Sem dizer mais nada, dei ré a uma distância de quatro passos e me coloquei na posição certa novamente. Estava pronto para apertar o gatilho e superar as expectativas daquela carinha bonita de paquistanês criminoso, quando fui pego de surpresa ao sentir braços grandes e musculosos me abraçando por trás, seus dedos tocando em cada pedaço de pele minha, na região da cintura, da maneira mais atrevida. E isso foi o suficiente para me fazer escorregar os dedos no gatilho e atirar absurdamente longe do alvo... Para ser mais exato, quase atingindo o garoto árabe, cujo grito estridente e fino contradizia toda aquela imagem de bad boy que ele tinha.
Enquanto isso, cachos de cheiro adocicado caíam levemente pelos meus ombros, a respiração quente e arrepiante contra o meu pescoço, as tatuagens detalhadas em preto recém aplicado, e o cheiro de rosas com loções tropicais...
— Hi.
— Oops! — Deixando a arma cair sobre meus pés, eu já não sabia mais para onde olhar; se para o homem que eu quase matei e por sorte desviou da bala, ou se para as esferas em esmeralda que me encaravam de um jeito tão perturbador, os braços tatuados ainda me envolvendo enquanto todo o meu susto se transformava em consciência, aos poucos.
— Não achei que viesse, Louis. — Sua voz estava mais rouca do que nunca, e, Deus do céu, por que meus pelos estavam se eriçando com isso? — Pelo jeito, já começou seu primeiro dia aqui tentando matar um homem. Achei razoável. Eu não teria feito diferente.
— Diabinho francês, Styles? Ele é o próprio demônio... Que audácia, Louis, mas não foi dessa vez. — O moreno falou entre ofegos, uma das mãos ajeitando o topete, a outra ainda apertando o próprio peito, recuperando-se do susto. Pela segunda vez no dia, alguém me chamando de diabinho francês. Que diabos era aquilo, afinal?
— Parabéns, Sr. Tomlinson. Eu venho tentando matar Zayn há anos, talvez possamos nos unir e fazer acontecer.
Zayn. Era esse o nome do moreno. A única coisa que me veio em mente foi o "Z.M" assinado nos quadros do corredor.
— Droga, me desculpe, Zayn. Bom, eu estou aprendendo, vocês sabem. Madrugadas em estandes de tiro não fazem de mim um profissional. Ainda. — Menti, com um sorriso mínimo no canto da boca. Afinal, eu sabia que uma performance maravilhosa me colocaria em risco. Onde eu teria aprendido a atirar perfeitamente, não sendo um policial ou, senão isso, m****o de outra gangue?
Vi Harry revirar os olhos com o meu pedido de desculpas, finalmente soltando-me do anterior aperto e ajeitando a roupa em seu corpo. Como sempre, o jeans azul rasgado nos joelhos. A única mudança era o casaco preto que ia até o meio das pernas, e o cabelo livre de bandanas ou qualquer outro pano que puxasse os cachos castanhos para trás. Ele era um puto desgraçado atraente. — Você só tem esse jeans no armário, Harry?
Zayn riu, enquanto Harry me respondeu somente com uma piscadela. Eu sabia que ele odiava o meu jeito atrevido e despercebido em perguntar qualquer coisa que me viesse à mente, mas o que ele não sabia era que eu o odiava por inteiro.
— Já basta por hoje, Louis. Volte amanhã e... — As esmeraldas percorreram cada milímetro do meu corpo, de uma forma tão obscena que dessa vez foi a vez de Zayn revirar os olhos. Harry estava me secando. Ótimo. — Bem, se vai mesmo começar a fazer parte disso, por mais que doa no fundo da minha alma, jogue esse terno fora e comece a se vestir como um gângster.