Fomos até a antiga casa do meu pai, que os Dravens estavam encarregados de incendiar. Embora eu espere que a caixa tenha sido salva, eu preciso dela.
O arquivo que Kael me deu não mostra nada que nos ajude, é apenas uma lista de crimes que esse Alex cometeu, seus aparentes negócios com os Duartes e que ele é um homem na faixa etária militar.
Não há rosto, nenhuma figura específica para sua idade, qual é sua aparência física, muito menos qualquer explicação sobre o vínculo sanguíneo que compartilhamos.
Chegamos à propriedade e, quando os homens dos Dranevs nos dizem ser seguro, saímos do veículo. Jak empurra a porta com o ombro e a casa dos meus pesadelos me recebe de volta.
Tudo é um tom cinza ou preto, cheio de cinzas e fuligem, nada resta do que era antes. Subo as escadas tomando cuidado para não tropeçar, pois tudo parece desmoronar, principalmente o segundo andar.
O que era meu quarto é completamente destruído pelas chamas que o consumiram e a garota dentro de mim comemora sobre isso, passo até chegar ao último quarto.
— O que estamos procurando? — Orion questiona.
— Mamãe estava escondendo algo aqui, algo que ela não queria que Higor visse.
Agacho-me no chão sem me importar se minhas calças ficam sujas e começo a testar as tábuas no chão de madeira. Procurando o ponto oco.
Sei que está aqui, eu sei, eu lembro.
— Lyra…
Jak tenta me ligar, mas sei que está aqui.
— Vamos, Lyra, vamos conseguir informações em outro lugar.
Eu também ignoro Kael, e parece que Orion também vai protestar quando eu encontrar a tábua solta que faz um grito quando eu a pego, silenciando os três.
Bingo.
Eu sabia.
Retiro a tábua completamente e minha mão encontra rapidamente a caixa de madeira, coberta de poeira, umidade e um pouco de cinzas. Descemos as escadas até a antiga sala de jantar que as chamas não conseguiam alcançar completamente, onde coloquei a caixa sobre a mesa e a abri.
Não.
Tem que ser uma piada.
A primeira foto é um pouco antiga, as cores são um pouco amareladas, mas você pode ver um garotinho loiro de olhos azuis sorrindo para a câmera com uma bola de futebol nas mãos.
Isso não é o mais incrível da foto, o mais incrível da foto é que aquela criança tem uma semelhança incrível com alguém.
Comigo.
Há mais fotos, a criança não pode ter mais de oito anos.
Passo as fotos tentando ignorar a grande semelhança que elas têm com minhas fotos de quando eu era criança, chego às últimas fotos que fazem minha mão tremer e sentir pressão no peito.
A primeira fotografia tem dois bebês, um bebê está envolto em uma flanela azul e o outro envolto em uma flanela rosa, atrás da foto estão seus nomes e data de nascimento.
Alex Lins e Ana Lins. 19 de outubro de 2000.
Ana Lins, esse é meu nome verdadeiro? Lyra Vons era como meu pai sempre me chamava, alegando que eu não era boa descendente de russos, então minha mãe insistiu em me encontrar um nome russo e tentar me tornar parte de seu legado.
Se eu soubesse disso tudo, jamais usaria Lyra Vons.
Não, Lyra Vons.
Não, Ana Lins.
Tiro outra fotografia, esta é de um ultrassom onde você pode ver dois sacos gestacionais, dois bebês, um único útero, uma única gravidez.
Não, não, não.
Isso não é verdade.
— Não é verdade, p***a — Murmuro cheio de fúria enquanto fecho o punho na fotografia em minhas mãos.
Eles não conseguiram esconder isso de mim.
Não, não, não, não. NÃO.
— Lyra!
Ouço o grito de Kael quando jogo a caixa no chão, me encho de cinzas, jogo tudo na mesa, eles me deram privacidade para ler os documentos primeiro do que eles, mas agora não acho que ainda haja muito que eles possam salvar. Chuto a mesa de jantar que m*l se sustenta do fogo, fazendo com que ela finalmente ceda.
As evidências estão lá.
Alex Lins e Ana Lins. 18 de outubro de 2000.
Registros de nascimento.
Alex Lins, 18 de outubro de 2000. 18h00
Ana Lins, 18 de outubro de 2000. 18h30
É meu irmão.
Ele é meu irmão, p***a.
Alex Lins é meu irmão gêmeo.
Lyra Vons.
Não sei como acabei naquele momento da minha vida, mas me vejo envolto nos braços de Orion, que tenta acalmar o que reconheço como um dos desesperos mais puros que já senti. Acho que ele sussurra palavras no meu ouvido tentando me acalmar, mas não consigo ouvi-lo completamente.
Eu tenho um irmão, p***a.
Alex Lins.
O que acaba tendo que trabalhar com meu pai enquanto administrava seus negócios em Dubai.
Brilhante.
Minha mente reúne todas as memórias que tenho da mamãe sobre como ela implorou ao papai para ver Alex, que agora descobri ser meu irmão. Enquanto o pai conversava com seus homens sobre o treinamento de Alex e que tudo estava progredindo de acordo com os planos. Lembro-me de como minha mãe sempre olhava para aquelas malditas fotos naquela caixa, de como ela chorava tantas vezes.
Por que ele nunca me contou? O que mais você escondeu de mim, mãe?
Observo Kael e Jak tirarem as fotos, que foram espalhadas no chão após minha explosão, enquanto acalmo lentamente minha respiração. Orion finalmente me liberta da prisão e corre para ver as fotos que seus irmãos analisam.
Os olhos de Kael se erguem das fotos para o meu rosto, ele faz a viagem várias vezes enquanto sua testa franze.
— Quem é Ana Lins, Lyra Vons? — Perguntas de Jak.
Maldito seja, não acredito que Mel Lins, minha mãe, escondeu de mim algo tão errado quanto ter um irmão.
— Lyra… — O aviso de Kael não passa despercebido por mim.
— Sou eu.
— Você? — Orion questiona, confuso.
— Sim, é meu nome — eu explico — Lyra Ana Lins Vons, esse é meu nome verdadeiro.
— Isso significa que…
— Sim, Alex Lins é meu irmão.
***
Não dormi bem, não comi como deveria, não tirei a b***a desta cadeira e, caramba, não obtive nenhuma informação sobre onde Alex Lins está e como ele está agora. Estou nessa rotina há quatro dias.
— Lyra — Acho que você já se envolveu o suficiente, vamos, faça uma pausa.
Não recorro à voz de Jak, embora pela sua sombra eu possa deduzir que ele está no batente da porta. Tenho revisado dia e noite os arquivos que Kael me deu, mas não consigo encontrar nada, nada que eu já não soubesse, muito menos nada que funcione para mim agora.
— Eu não entendo — suspiro enquanto coloco minha cabeça para trás — Por que mamãe não me contou?
Ele não responde, somente me deixa divagar e expressar todas as dúvidas que tenho agora, como se pudesse resolver todos os meus problemas.
— Por que mamãe nunca me contou? Por que nunca o conheci? Por que eles não nos criaram juntos? — Eu bufo frustrada. — Ele trabalha para Higor, isso significa que papai nunca foi mau com ele? Ele tinha algo sobre o pai que eu nunca tive? Isso significa que Alex também está me caçando? Ele quer me matar?
— Eles nunca conseguirão encontrá-la enquanto você estiver conosco.
— Eu também não tenho escolha, não é, Jak?
Minhas palavras o deixam quieto por alguns segundos enquanto ele as analisa. Pensei um pouco sobre isso, progredimos em tudo o que surge comigo e com seus irmãos, a tensão s****l que ele e eu lidamos. Assim como seus irmãos, é muito notável, não tenho mais receio deles, sei que eles não vão me machucar, pelo menos por enquanto, e consegui gerar uma espécie de confiança neles.
Mas como eles me veem? Como um simples prisioneiro? Como a mulher com quem eles querem t*****r?
Sei que eles tiveram vários detalhes comigo que não têm com outras pessoas e que alguns limites foram confundidos. Sei que as circunstâncias são diferentes agora e devemos ser uma frente unida para poder decifrar o que está acontecendo entre meu pai e os Correias e como isso vai nos ferrar. Para todos, sei que Alex é um ponto-chave em tudo isso agora, mas, droga! Não estou entendendo nada.
Não entendo por que meu corpo fica em tensão constante toda vez que um dos Dravens põe os olhos em mim ou respira o ar ao meu redor. Jamais entendo por que não consigo parar de pensar naquela noite que passei com Orion e não deveria estar fantasiando sobre como seria t*****r com os irmãos dele.
Eu não deveria me sentir assim, me encontro em sério conflito comigo mesmo porque deveria estar pensando que descobri a existência de um irmão que eu não conhecia. E que poderia estar planejando mil maneiras de acabar com minha existência, e não a maneira como os irmãos Dravens poderiam me f***r.
Que dilema.
— Vamos, temos uma surpresa para você, Lyra.