Hora que não passa(2)

1352 Words
Carla apertou o play no áudio com o coração acelerado. Os quatro homens pararam, em total silêncio, como se o destino inteiro dependesse daquelas palavras. A voz de Renata soou primeiro: — Oi amigaaa! A gente tá bem, tá? Estamos bebendo bastante, mas tá tudo sob controle. Pode ficar tranquila... Kelly entrou no meio: — Não estamos bêbadas não, ainda! Haha. Luisa completou com a voz rindo: — Fala pros surtados dos nossos namorados que daqui mais ou menos uma... uma hora e meia a gente chega por aí! E aí veio Isadora, gargalhando alto: — Uma hora e meia nada, daqui DUAS horas! Todas explodiram em gargalhadas. Os olhos dos caras começaram a arregalar. Os lábios trêmulos. Marcos já se preparava pra conter uma explosão. Mas o áudio continuava. Um som ambiente de bar. Risadas. Música. Copos tilintando. E então se ouviu a voz de um cara aleatório, se aproximando: — E aí, princesas... Não vão aceitar nossos drinks, não? Renata respondeu, seca: — Ah, me poupe... Sai pra lá. Isadora, com deboche: — Tira esse sorriso de cachaça da cara e vaza, mermão. Luisa, firme: — Já falei que somos comprometidas. Nossos namorados são surtados e possessivos. Kelly, sem paciência nenhuma: — Não torra a paciência não, senão eu QUEBRO você. Os caras deram uma risadinha debochada e disseram: — Que gostosas surtadas... E foram embora. — Ai, finalmente! Já foram! Que caras chatos, hein? — murmurou Isadora no fundo do áudio. Renata falou, rindo: — Carla, avisa eles que a gente tá bem, tá? Tá tudo sob controle! Beijooos! E o áudio terminou. Silêncio. Um segundo de respiro. E então... — p***a! p***a QUE PARIU! — explodiu João, jogando a almofada no chão. — EU SABIA! EU SABIA QUE TINHA CARA EM CIMA DELAS! — Leandro gritava, andando em círculos como um leão enjaulado. — Você ouviu o que a Kelly disse?! — Otávio virou para todos, com os olhos arregalados. — Ela falou que QUEBRARIA a cara dele! Se ela falou isso é porque ele tava em cima! Tava perturbando! — Não é possível, cara. Não é possível! — disse Caio, tremendo. — Elas tão lá, rindo, bebendo, com caras enchendo o saco, e a gente aqui desabando! — EU VOU LÁ! — João já andava em direção à porta. — EU VOU TAMBÉM! — Leandro gritou. — f**a-SE, EU VOU! — Otávio abriu a porta. — NINGUÉM VAI! — Marcos gritou, se colocando na frente com os braços abertos. — Parem! Que merda é essa?! Vocês não vão pra lugar nenhum! Eles bufavam, tremiam, trocavam olhares furiosos, como uma panela de pressão prestes a explodir. — Vocês vão estragar tudo se aparecerem lá desse jeito! Elas tão bem! Tão juntas, tão se cuidando. Deem esse voto de confiança, caramba! Mas os olhos deles já estavam vermelhos. A respiração ofegante. O ciúmes fervendo como um incêndio. O surto ainda não tinha acabado. Eles se jogaram no sofá, ofegantes, suados, em completo silêncio. Só se ouvia o barulho do ar-condicionado e o tique-taque do relógio marcando duas e vinte da manhã. Olhares perdidos, mãos no rosto, pernas balançando sem parar. A raiva e o desespero engolindo cada um por dentro. Enquanto isso, lá no bar… — p***a, pior que eles devem ter surtado demais com esse áudio, hein! — disse Luisa, entre uma gargalhada e um gole generoso. — Com certeza surtaram! — respondeu Isadora, rindo alto. — A gente fala “duas horas” e eles devem ter entrado em combustão! — Eu não queria dar, mas se eu der agora... acho que acalmo a minha fera. — brincou Kelly, com um sorrisinho malicioso nos lábios. — Nossa… eles tão precisando urgente do nosso chá, hein meninas? — provocou Renata, já virando mais um shot. — Tão mesmo! — todas responderam ao mesmo tempo, entre gargalhadas e olhares cúmplices. Copos tilintavam, música tocava ao fundo, e as quatro se levantaram para dançar mais uma música, completamente entregues à leveza do momento. De volta à sala dos rapazes... Otávio chutou o chão com força. — Elas tão lá, rindo da nossa cara. Eu sei. Eu consigo ver a cena inteira. Elas gargalhando e falando “ah, eles devem estar surtando”. João olhou pro teto, em silêncio, os olhos marejando. — Não dá. Não consigo mais respirar sem sentir raiva. Leandro esfregava a testa com força. — Cara, a Luiza quando fica assim… toda debochada… é porque tá se divertindo MUITO. Caio murmurou: — Elas viraram mais drinks. Eu ouvi no fundo. Elas continuam bebendo. Tão se divertindo. A gente aqui... morrendo. Marcos se levantou, firme: — Vocês precisam se controlar. Ou vocês vão colocar tudo a perder. Silêncio. Eles sabiam. Mas não adiantava. A tensão só aumentava. E enquanto isso… as meninas riam, dançavam, e brindavam mais uma vez. — Pelos nossos surtados maravilhosos! — disse Isadora, erguendo o copo. — Por mais noites dessas antes do apocalipse! — completou Luisa. — E por eles aguentarem a nossa liberdade! — Renata deu o brinde final. Gargalhadas. Mais drinks. E o caos seguia dividido entre dois mundos prestes a colidir. O tempo passou voando no bar. As quatro estavam vermelhas de tanto rir, com os cabelos levemente bagunçados e os copos já vazios sobre a mesa. As luzes coloridas dançavam nos rostos delas enquanto outra música começava a tocar. — Meninas… — disse Renata, meio rindo, meio se apoiando na mesa. — Tá dando quatro horas da manhã. Tá na hora, né? — Ai, gente... eu não consigo nem levantar direito, quanto mais dirigir. — resmungou Luisa, desabando numa risada mole. — Eu também tô sem força nenhuma. m*l consigo pegar o celular. — disse Isadora, piscando devagar, tentando não cair da cadeira. — p***a… e agora? Como é que a gente vai dirigir? — reclamou Kelly, passando a mão no rosto. — E o pior de tudo... — murmurou Renata, inclinando-se pra perto das outras — é que aquele grupo de caras chatos, os que ficaram nos torrando o saco a noite toda, ainda estão ali. Olhando. Secando a gente descaradamente. — Ai, que merda, mano. — Kelly bufou, pegou o celular e disse firme: — Já sei o que eu vou fazer. Ela discou. O nome de Otávio apareceu na tela. Ele atendeu no primeiro toque, pulando do sofá como se tivesse levado um choque. — Oi, amor? Fala! Tá tudo bem?! — ele perguntou já sem fôlego. — Amor… — disse Kelly, com a voz levemente arrastada e bêbada, mas ainda doce. — Você pode buscar a gente? Não tem condições. Nenhuma de nós consegue dirigir. Tamo morta, exausta, e ainda tem aqueles babacas aqui olhando, secando a gente… a noite toda foi isso. Não temos forças pra nada, sério. Cês podem vir buscar a gente? Otávio fechou os olhos por um segundo, apertando o celular na mão. — Sim, sim, a gente tá indo agora! — e desligou. No mesmo segundo, ele gritou pela casa: — p***a! Ela falou que nenhuma consegue dirigir! Elas tão bêbadas e AQUELES CARAS ainda tão lá! Leandro levantou furioso. — Vambora! Vambora agora, c*****o! — Já que elas mandaram buscar, a gente vai buscar! E ponto! — completou João, pegando as chaves. — Tô levando taco de beisebol. Não quero nem saber! — disse Caio, transtornado. Marcos, respirando fundo, levantou também: — Tá, vamos. Mas vamos pra resolver, com cabeça no lugar. Qualquer coisa, tamo junto. Os carros foram ligados quase ao mesmo tempo. Motores roncando alto. Eles arrancaram pela madrugada com os corações acelerados e a mente fervendo de preocupação, ciúmes e tensão. Enquanto isso, no bar... As meninas estavam meio largadas nas cadeiras, rindo de tudo, sem saber o que estava por vir. — Será que eles vêm mesmo? — perguntou Luisa, rindo. — Vêm sim… e aposto que com a alma pegando fogo! — disse Isadora, se abanando com o cardápio. — Vai dar r**m, mas pelo menos vamos sair vivas desses caras chatos. — completou Renata. — Ai, que delícia, quero só ver a cara deles quando chegarem. — Kelly riu mais uma vez.
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