O sol da manhã entrou tímido pelas frestas da cortina, iluminando o quarto suavemente. Kelly ainda dormia, enroscada nos lençóis, com um sorriso leve no rosto. Rafael, ao lado, a observava em silêncio. Seus olhos já não carregavam tristeza, mas sim admiração. Havia ali algo novo. Algo que a noite anterior havia mudado dentro dele. Ele se sentia inteiro novamente. Escolhido. Amado.
Com delicadeza, ele a tocou. Beijos suaves no ombro, no pescoço. Kelly abriu os olhos devagar, sendo despertada com carinho. Rafael a olhava com ternura, mas havia também desejo no olhar.
— Agora é minha vez... — sussurrou ele.
Ela sorriu, preguiçosa, mas encantada com o gesto. E então ele a amou com a mesma intensidade que ela o havia amado na noite anterior. Seus toques eram cuidadosos, mas quentes, cheios de entrega. Ele beijava cada parte dela como se fosse única, adorando seu corpo com a boca e com as mãos, provocando suspiros longos, gemidos doces. O prazer foi crescendo entre eles de forma lenta, intensa, cúmplice. Quando chegaram ao ápice juntos novamente, ele a abraçou forte, como quem não queria soltar.
Depois do banho, saíram para a faculdade mais leves, sorridentes. Andavam de mãos dadas pelos corredores, trocando olhares e risadas discretas. Havia neles uma aura diferente. Uma conexão mais firme, mais madura, mais segura.
No intervalo entre uma aula e outra, Kelly se afastou para encontrar suas amigas no pátio. Lá estavam Renata, Luísa, Isadora e Carla, sentadas em círculo, com seus cafés e lanches em mãos. Assim que viram Kelly, abriram espaço, e Luísa logo comentou:
— Ih, olha esse brilho no olho... Teve noite boa, foi?
Kelly riu sem graça, sentando-se com elas.
— Gente... vocês não têm ideia do que foi ontem. Eu cheguei exausta, morta do estágio. Ele nem ouviu quando eu entrei. Tava no sofá, com aquele olhar perdido, sabe? No auge do que ele tava sentindo. Eu nunca vi o Rafael daquele jeito...
As amigas ficaram em silêncio, prestando atenção.
— Eu ia simplesmente tomar banho e dormir. Mas... eu desisti de desistir. Fiz um jantar, com carinho, do meu jeitinho. E depois... eu pedi permissão. Pedi pra amar ele. E eu amei. Amei com desejo, com paixão. Por ele. Por mim. Pra mostrar que era ele, que eu escolhi ele.
Renata apertou a mão de Kelly, emocionada.
— Você é incrível, Kel... Que entrega. Isso é amor de verdade.
Isadora completou:
— E ele? Como acordou hoje?
Kelly sorriu, os olhos brilhando.
— Diferente. Mais leve. Ele me acordou com tanto carinho, como se tivesse renascido. Me amou como nunca. Como se dissesse “eu tô aqui, eu te vejo, eu te amo”... Foi lindo. A gente saiu pra cá rindo, feito dois adolescentes. Mas...
Ela respirou fundo, o sorriso diminuindo.
— Mas o Otávio... ele tá mexendo comigo. Não porque eu o queira de volta. Mas... o jeito que ele me olha, o jeito que ele ri, a forma como ele respira perto da minha orelha... Meu Deus, isso tá me acabando por dentro.
Carla a olhou com empatia.
— É normal isso te balançar. Ainda mais quando tem lembrança, história, e uma carência emocional no meio. Mas o importante é: com quem você quer estar? Quem é que você vê do seu lado quando acorda?
— O Rafael — respondeu Kelly, sem hesitar. — Sempre ele.
Luísa tocou seu ombro.
— Então segura firme nele. Mas não finge que não sente nada. Você tá vivendo um momento delicado. Ser honesta com você mesma é o primeiro passo pra não se perder.
Kelly assentiu, engolindo em seco.
— É só que... tudo isso é novo. Ver o Rafael vulnerável assim... e ao mesmo tempo ver o Otávio se reaproximando, depois de tudo...
Renata concluiu:
— Só não esquece que amar também é escolha. Todo dia. E ontem, você escolheu o Rafael. Ele sentiu isso. E olha o que vocês viveram hoje... Não deixa o medo roubar isso.
Kelly sorriu, os olhos úmidos. O coração ainda bagunçado, mas agora cheio de amor e apoio.
— Obrigada, meninas. Vocês são tudo.
E ali, entre amigas, ela respirou fundo. Sabia que os dias que viriam não seriam fáceis. Mas agora ela tinha uma certeza: ela estava amando. E estava disposta a lutar por esse amor.
Há pouca distância dali, do outro lado do pátio da faculdade, Rafael estava encostado em uma mureta, junto com Henrique e Marcelo. A garrafa de água em sua mão estava fechada havia minutos, esquecida. Ele encarava o outro lado do pátio com os olhos pesados, como se cada piscada fosse uma luta.
— Gente... — começou ele, a voz embargada — ver o Otávio tentando conquistar a Kelly, reconquistar ela... Isso tá me matando. Eu não tô aguentando mais. Tá me destruindo por dentro, cara.
Henrique e Marcelo se entreolharam, atentos.
— Às vezes eu não consigo dormir. Às vezes eu acordo no meio da noite e fico só olhando pra ela... dormindo. Como se ela fosse fumaça, sabe? Como se pudesse sumir a qualquer momento.
Ele respirou fundo, apertando a tampa da garrafa.
— Eu não tenho o direito de prendê-la. Nem quero. Eu quero que ela escolha. Quero que ela seja livre pra decidir. Mas me dói... me dói pensar que talvez, no fundo, ela pode estar escolhendo ele, e não a mim.
Marcelo colocou a mão no ombro dele, firme.
— Mano... dá pra ver que ela tá balançada, sim. É evidente. Mas também dá pra ver, no olhar dela, no jeito que ela te toca, que quem ela escolheu... foi você. É você.
Rafael passou as mãos no rosto, tentando conter o peso no peito.
— Ontem eu tava tão perdido nos meus pensamentos... nem ouvi ela chegar em casa. Fiquei ali, no sofá, viajando. De repente, senti ela sentando no meu colo, me beijando. Um beijo calmo, carinhoso... como se dissesse "tô aqui".
Ele sorriu fraco, como quem revive um milagre.
— Depois ela fez um jantar... com carinho, sabe? Com intenção. E depois... ah, cara... eu tava deitado na cama, chorando. Não sei nem explicar. Só chorava. E ela olhou pra mim com uma doçura... e disse que sabia o quanto tudo isso tava me magoando. Que mesmo assim, ela tinha me escolhido. E... me pediu permissão pra me amar.
Henrique franziu o cenho, impressionado.
— Ela pediu permissão?
— Sim. E aí... ela me amou. Como nunca. Foi uma entrega absurda. Eu não fiz nada. Só fiquei ali... sentindo. Recebendo. Foi perfeito. E hoje de manhã... também foi. Eu quis retribuir. Amei ela do meu jeito. Ela merece isso. Tudo isso. Mas agora, eu chego aqui... e vejo o Otávio rindo pra ela, olhando... e tudo volta. Tudo confunde a minha mente.
Marcelo se abaixou um pouco, olhando nos olhos de Rafael.
— Cara, olha o que você acabou de dizer. Ela preparou tudo, se entregou, cuidou de você... pediu pra amar você. Isso não é qualquer coisa. Isso é único. Isso é escolha. Amor de verdade.
Henrique completou:
— Claro que vai doer, mano. Claro que vai dar insegurança. Mas não se afasta dela. Dá o espaço que ela precisa, mas sem sumir. Mostra que você tá ali. Que ela pode contar com você. Que você é o presente dela, não o passado.
Marcelo continuou:
— Se ela não te quisesse, já tinha voltado pra ele, cara. Foram quase sete anos de história entre eles. Se ela quisesse reviver aquilo, ela teria feito. Mas não. Ela escolheu começar algo contigo. Isso diz muito.
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos, respirando fundo, o peito ainda apertado, mas agora com as palavras dos amigos ecoando na mente.
— É... ela me escolheu. E eu vou lutar por isso. Mesmo com medo. Mesmo com dúvida. Porque... ela vale tudo.
Henrique deu um leve soco no braço dele, rindo:
— É isso, irmão. Só não deixa o medo falar mais alto que o amor.
Marcelo concluiu, apontando discretamente para Kelly do outro lado do pátio, conversando animada com as amigas:
— Olha pra ela. Você é o motivo do sorriso dela agora. E isso... ninguém tira de você.