A dor de Otávio

996 Words
Era madrugada. O silêncio reinava na casa, mas dentro de Otávio, o caos gritava. Ele acordou ofegante, o rosto molhado de suor, o coração batendo descompassado. Sentou-se na cama de um salto e olhou em volta, confuso. Os olhos vasculharam o quarto, e então caiu em si: o guarda-roupa estava vazio. O cheiro dela… sumido. O perfume que ele costumava sentir no travesseiro… desaparecido. Foi quando ele gritou, com a voz carregada de desespero: — NÃO! NÃO! VOCÊS NÃO ERAM PRA TER ENTREGADO AS COISAS DELA! Se levantou e começou a abrir as portas do guarda-roupa com violência, como se esperasse encontrar algo ali. Mas só o vazio o encarava. — AGORA ELA NÃO VAI VOLTAR! ELA NÃO VAI VOLTAR! EU PRECISO DELA! EU PRECISO SENTIR O CHEIRO DELA AQUI! Os gritos ecoaram pela casa. Elisa, Rogério e Helena correram até o quarto, assustados com o estado dele. Otávio estava de joelhos no chão, o rosto banhado em lágrimas, os cabelos desgrenhados, a respiração falha. Rogério se aproximou com calma, se ajoelhou ao lado dele e colocou a mão em seu ombro. — Meu filho… você tem que entender que ela partiu. Ela seguiu a vida dela… e você precisa seguir com a sua. Otávio chorava como uma criança. A voz embargada saiu entre soluços: — Eu não quero seguir com a minha vida sem ela! Eu não quero! Ela é tudo pra mim! Tudo… Ele se encolheu no chão, com o rosto pressionado contra o tapete, como se quisesse se esconder da dor insuportável que o consumia. Elisa, encostada na porta do quarto, levou a mão à boca para conter o choro. Helena abraçou a mãe com força. Ambas choravam, abaladas por ver Otávio naquele estado. Rogério, embora tentasse se manter firme, também deixou as lágrimas caírem. Aquela cena rasgava o peito de qualquer um. — Ela era minha vida, pai... minha vida. Agora tudo isso aqui é só... vazio. Eu só queria abrir o armário e sentir o cheiro dela... olhar o canto da penteadeira e ver o batom dela... o perfume dela... — ele sussurrava entre lágrimas. Rogério o abraçou apertado, como um pai abraça um filho em ruínas. — Você precisa buscar ajuda, Otávio. A dor é grande, mas você não pode se afundar nisso. Vamos te ajudar, mas você precisa aceitar. Ela se foi. E ela não vai voltar. Otávio apenas chorava. Um homem despedaçado, sozinho dentro de uma dor que ele mesmo construiu. A perda agora era real, física, c***l. O amor que ele destruiu com as próprias mãos… agora o deixava completamente vazio. Semanas haviam se passado desde que a sua mãe e sua irmã tinham levados as coisas da Kelly para ela deixando assim o seu closet vazio.. Otávio acordou com um cheiro familiar invadindo o ar: café fresco, pão quente... por um instante, quase esqueceu da ausência dela. Quase. Ao descer as escadas, encontrou o pai, a mãe e a irmã sentados na sala, como se tivessem passado a noite ali. — Meu filho, sente aqui com a gente. Come alguma coisa... — pediu Elisa, tentando sorrir mesmo com os olhos cheios de dor. Otávio sentou-se à mesa, serviu-se de um pedaço de pão e tomou um gole de café. Comia pouco, em silêncio, como quem mastiga a saudade junto com a comida. Então, com cuidado, Rogério tomou a frente. — Otávio... volta pra casa, filho. Lá você tem apoio. Você não precisa passar por isso sozinho. Helena se aproximou e segurou a mão do irmão. — A gente só quer te ver bem. Você pode superar isso, mas aqui não... Aqui tudo te lembra ela. Isso te machuca ainda mais. Otávio parou, olhou fixamente para a xícara à sua frente, e então disse com a voz trêmula: — Eu prometo, tá? Eu juro pra vocês. Eu não vou mais fazer nada com a Kelly. Nem com o Rafael. Eu entendi. Eles estão juntos. Ela não me quer mais. Fez uma pausa, respirou fundo. — Mas eu não posso ir embora. Eu... eu preciso ver ela. Mesmo que seja de longe. Mesmo que ela nem me note. Eu preciso saber que ela tá viva, que tá bem. Isso me dá algum sentido. — Mas isso vai te machucar mais, filho... — sussurrou Elisa, com a voz embargada. Ele então levantou o olhar, olhos marejados, e respondeu com o peito rasgado: — Não tem nada... nada que consiga me machucar mais do que já não ter mais as coisas dela aqui. Já não olhar mais pras roupas dela... pro perfume dela... pras lingeries que ela usava comigo. Aquilo tudo era vida. Era nossa vida. E agora tá tudo vazio. Silêncio. Lágrimas. — Não tem mais nada que possa me ferir mais do que isso. Eu não vou voltar. Eu ainda sinto ela aqui... e é isso que me faz continuar respirando. No dia seguinte, sem outra escolha, os pais e a irmã foram embora. Respeitaram a dor dele, ainda que com o coração em pedaços. Otávio ficou. E começou a mudar. Passou a arrumar a casa. Pintou algumas paredes. Limpou os cantos onde as lágrimas haviam caído tantas vezes. Passou a assistir filmes... sentado no sofá que um dia dividiram, agora abraçado a um cobertor e a uma solidão constante. Mas ainda chorava. Sempre chorava quando sentia falta dela — e a falta dela era sempre. Revelou fotos antigas. Dele e Kelly juntos. Sorrisos sinceros, olhares apaixonados. Espalhou pelas paredes do quarto. Como se ela nunca tivesse partido. Foi à perfumaria, comprou o perfume que ela usava. Aquele que ela passava no pescoço antes de dormir com ele. Espirrava pela casa, como se fosse bom ar, como se o cheiro fosse suficiente para mantê-la por perto. — Você tá aqui… né, amor? Mesmo que só no cheiro... mesmo que só em mim. E assim, Otávio seguia. Sozinho. Rodeado de memórias. Vivendo numa casa onde Kelly já não morava mais — mas onde, para ele, ela nunca tinha saído.
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