A decisão dos meninos

1579 Words
O sol da manhã surgia preguiçoso por entre as nuvens leves, aquecendo suavemente o jardim da pousada. O gramado ainda guardava o frescor da noite, mas os raios dourados já começavam a esquentar as cangas estendidas sobre a grama. As meninas estavam espalhadas ali, algumas com óculos escuros, outras com os cabelos molhados de um banho recente, todas com sorrisos leves no rosto e o coração transbordando. Carla foi a primeira a quebrar o silêncio calmo daquele momento. — Meninas... ontem à noite, o Marcos me chamou pra morar com ele. Todas levantaram as sobrancelhas ao mesmo tempo, encarando Carla. — O quê? Mentira! — disse Isadora, sentando de repente na canga, já curiosa. Carla riu. — Juro! Ele disse que não faz sentido mais a gente ficar longe. Que esse mês juntos mostrou que é isso que ele quer pra vida dele. Que quer dormir comigo, acordar comigo, todos os dias. E que já até falou com a mãe dele,já mudou pra nossa turma A gente vai ficar no apê dele. Luísa levou as mãos ao peito, emocionada. — Ai, meu Deus, que tudo! — Então senta que lá vem bomba, — disse Renata, com um sorriso maroto. — O João também me chamou pra morar com ele. Ontem. A gente tava no quarto, e ele tava todo nervoso. Disse que essa viagem fez ele ter certeza de que eu sou a mulher da vida dele. E que não quer mais dormir longe nem um dia. — SOCORRO! — gritou Luísa, rindo. — E tem mais... — completou Renata — Ele falou que está procurando um apartamento próximo à faculdade, pra não atrapalhar nem os estudos dele nem os meus. Isadora deu uma gargalhada e apontou pra si mesma. — Pois então somos três! O Caio também me chamou. A gente tava se olhando ontem, em silêncio, e ele disse: “Você quer morar comigo?” Eu achei que era brincadeira. Mas não era. Ele falou com os pais e tudo. Kelly, que estava sentada numa cadeira de madeira, com os pés descalços na grama e um suco de melancia na mão, ouvia tudo com um sorriso largo, os olhos brilhando de emoção. — Meninas, estou muito feliz por vocês. Muito feliz mesmo. E eu ia falar isso pra vocês hoje… Todas a olharam com carinho. — Não ia dar certo vocês voltarem pra faculdade e ficarem se vendo só durante o dia na aula, e dormirem juntos só no fim de semana por causa dos trabalhos deles... Não ia dar certo, sabe por quê? Ela cruzou as pernas, olhando para o céu azul. — Porque quando eu e o Otávio estávamos no último ano da escola, onde a gente se conheceu, ele se apaixonou por mim primeiro do que eu me apaixonei por ele, né? E ele já me chamava de “amor” bem antes da gente ser um casal. Às vezes me buscava no trabalho, só pra me ver sorrir. As meninas suspiraram juntas. — Mas teve um dia que a minha mãe adoeceu. Foi muito sério. Precisava de uma operação urgente. E o Otávio... — ela parou por um segundo, engolindo o nó na garganta — ...ele pagou a operação com o dinheiro que estava juntando pra faculdade. — Mentira... ai que lindo! — sussurrou Luísa, os olhos marejados. — Juro. Eu não queria aceitar, fiquei desesperada, mas ele me disse: “Eu não quero nada em troca. Só o seu sorriso já me basta.” Renata apertou o peito com a mão, emocionada. — E aí, a partir desse dia, eu finalmente comecei a namorar ele de verdade. Minha mãe, com medo de me deixar sozinha, porque eu tinha um vizinho que ficava me olhando estranho, pediu pro Otávio ficar lá em casa comigo. Cuidar de mim. E ele passou a dormir comigo todos os dias. No começo a gente só dormia junto mesmo. Não tinha rolado nada ainda. Eu não estava pronta, era virgem... Isadora assentiu, ouvindo com atenção. — E ele respeitou o meu tempo. Me esperou. Foi paciente, carinhoso, presente. Até o dia em que eu quis me entregar pra ele. E foi tudo no tempo certo. Com amor. Com respeito. Ela sorriu. — Minha mãe ficou quase quatro meses internada. E durante todos esses meses, ele dormiu comigo todos os dias. Acordávamos juntos, eu cozinhava pra ele, ele me ajudava com tudo. Era como se já fôssemos casados. Quando minha mãe voltou pra casa e ele voltou pra casa dele, a saudade foi tão absurda, tão insuportável, que eu chorei por dias. Minha mãe percebeu. E disse: “Se ele te faz bem, deixa ele dormir aqui.” Carla enxugava uma lágrima que escorria, sorrindo. — Então ele passou a dormir lá um dia sim, um dia não. E às vezes eu também dormia na casa dele. E assim foi. Até que, quando terminamos a escola, ele olhou pra mim e falou: “Amor, vamos montar nosso apartamento. Nada de dormitório.” E a gente fez isso. Ela respirou fundo e sorriu grande. — É claro que tem dias difíceis. Tem briga, tem cansaço, tem TPM, tem tudo. Mas é perfeito. Ele me ajuda em tudo. Eu não me sinto sobrecarregada em nada. Ele é meu parceiro de verdade. E quando eu vejo vocês com os meninos, eu e o Otávio até comentamos ontem... Quando vocês voltarem, vai ser difícil demais ficarem longe uns dos outros. As meninas ficaram em silêncio por alguns segundos. Um silêncio leve, cheio de emoção. Algumas se entreolhavam sorrindo, outras apenas olhavam para o céu, agradecendo. Enquanto isso, na sala da pousada, os meninos estavam reunidos, rindo, conversando, tomando café. Otávio olhava para os amigos e dizia: — Não vai dar pra vocês ficarem longe delas, mano. Depois desse mês aqui? Impossível. João assentiu. — Já pedi a Renata em convivência. Não tem mais volta. Eu amo aquela mulher. Leandro, Caio e Marcos também sorriram, cada um lembrando do momento em que fez o convite. E então, como se os corações estivessem em sintonia, Otávio começou a compartilhar sua história, com um olhar nostálgico e cheio de amor: — Gente, morar junto é maravilhoso. Dormir e acordar com a pessoa que você ama... é outra vida. Eu comecei a morar com a Kelly assim que a minha sogra ficou doente. Usei o dinheiro que eu tava guardando na época pra minha faculdade e paguei a cirurgia dela, mesmo sem a Kelly ainda estar namorando comigo. A única coisa que eu pedi em troca foi o sorriso dela. Só o sorriso. Mas ela já gostava de mim, só tinha medo de se machucar. Ele fez uma pausa breve, olhando para a xícara nas mãos. — Então ela aceitou namorar comigo. E a mãe dela, preocupada, porque tinha um vizinho que ficava olhando muito pra Kelly com maldade, pediu pra eu dormir lá. Eu não pensei duas vezes. Completamente apaixonado pela Kelly, disse: “Não, sogra, pode ficar tranquila que eu vou ficar com ela.” E assim eu fiz. Os meninos prestavam atenção, em silêncio. — A gente ficou morando junto por quatro meses. Foi o tempo que a minha sogra ficou no hospital. Nas primeiras semanas, a gente só dormia junto mesmo. A Kelly ainda não tinha se entregado pra mim. Ela era moça. E eu respeitei o tempo dela. Até que, finalmente, ela se entregou completamente. E virou minha mulher. Foram momentos maravilhosos. Aqueles meses foram intensos, mágicos... Ele respirou fundo, sorrindo com saudade. — Mas quando a mãe dela saiu do hospital, por respeito, eu voltei a dormir na casa dos meus pais. Mano... foi horrível. — p***a, mano, imagino! — comentou Marcos, e os outros concordaram na hora. — Foi horrível mesmo. Eu tava acostumado a dormir e acordar com ela, sentir o cheiro dela, a pele dela do meu lado... Mas eu precisava respeitar a mãe dela, né? Só que a minha sogra percebeu que a gente tava péssimo com essa separação. E permitiu que eu voltasse a dormir lá. E aí eu voltei a dormir lá pelo menos um dia sim, um dia não. Quando não era eu lá, era a Kelly que dormia na minha casa. Os meninos ouviam, admirados com a história. — E quando finalmente acabou a escola, a gente se formou, eu olhei pra ela e disse: “Meu amor, você não vai dormir em dormitório de faculdade. Eu vou alugar uma casa pra gente.” E foi isso. Montamos nosso cantinho. Estamos morando juntos há dois anos. E, olha, têm sido maravilhosos. — Mas não é fácil, — ele completou, rindo. — Tem dias de TPM... que não é brincadeira. Os caras riram, um deles comentou: — Pior que é horrível mesmo! Otávio riu também, balançando a cabeça. — Não é fácil. Tem uns dias que ela não tá legal, tá de mau humor, revoltada da vida, sei lá com o quê. Mas eu respeito o espaço dela. Se ela quiser ficar sozinha no quarto, eu deixo. Se ela quiser ficar na sala vendo TV sozinha, eu deixo também. E esse é o meu conselho pra vocês: respeitem o tempo, o espaço, o silêncio. Amar também é saber quando não fazer nada. Só estar ali, por perto, disponível. Isso faz toda a diferença. Os meninos ficaram em silêncio por alguns instantes, absorvendo cada palavra. Era mais do que uma conversa entre amigos. Era um exemplo real, sincero e inspirador de amor e convivência verdadeira.
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