Os dias foram passando com uma intensidade silenciosa. Kelly se dividia entre livros, simulados e treinos físicos cada vez mais puxados. Ela sabia que a PRF exigiria tudo dela — mente e corpo. E, como sempre, ela estava disposta a entregar tudo.
Rafael era seu porto seguro. Mesmo com sua rotina puxada no escritório de advocacia, ele não deixava de estar presente. Preparava cafés reforçados para ela, deixava bilhetes motivacionais grudados nos livros, e às vezes aparecia de surpresa com marmitas saudáveis, só para garantir que ela não esquecesse de comer direito. À noite, deitava ao lado dela, mesmo quando ela adormecia com a cara enfiada nos resumos.
— Você é incrível, Kelly… — ele sussurrava, beijando sua testa.
— Você que é… por me aguentar assim — ela respondia, com um sorriso cansado, mas grato.
E mesmo com a exaustão da rotina, ele estava lá. Sempre. Nos dias bons e nos dias em que ela queria largar tudo.
Já os treinos físicos se intensificavam. Kelly estava mais rápida, mais forte. Corria cada vez melhor ao lado de Otávio. E a presença dele já era parte da rotina matinal — discreta, firme, mas amiga. Eles não falavam muito, mas havia uma conexão serena, de duas pessoas que sabiam o peso de um sonho. Que entendiam o outro até no silêncio.
Certo dia, Rafael estava conversando com Henrique no trabalho, enquanto tomavam café, quando ouviu por acaso um comentário:
— Ah, então a Kelly tá correndo com o Otávio, né? Dizem que a Ana, aquela personal que foi da turma de vocês, também tá treinando com ele agora. Parece que eles estão bem próximos…
Rafael engoliu seco.
Sorriu, disfarçou, e fingiu que aquilo não o afetou. Mas afetou.
A puga atrás da orelha veio como quem não quer nada. Era ciúmes? Um pouco. Mas também era aquela sensação de alerta, de quem não quer perder algo precioso. Só que Rafael era maduro. Respirou fundo, e escolheu confiar.
Não falou nada com Kelly naquela noite. Só a abraçou mais forte.
Ela percebeu. — Tá tudo bem? — perguntou, deitada em seu peito.
Ele sorriu de leve. — Tá sim… Só cansado.
Ela beijou o queixo dele, aconchegou-se. — Você é meu amor. Só meu.
E ele fechou os olhos, aliviado, com o coração aquecido. No fundo, sabia. Ela estava ali com ele. Inteira. Mesmo que o passado corresse ao lado dela todas as manhãs.
Porque o amor deles era feito de confiança. De parceria. E de sonhos divididos.
Semanas depois, Rafael chegou em casa depois de um dia exaustivo no escritório. O paletó jogado no encosto da poltrona, a gravata solta, a cabeça pesada. Tudo que ele queria era um banho morno, um jantar leve… e Kelly. Um momento de carinho, de amor. Ele queria sentir o corpo dela no dele, os beijos, o aconchego.
Mas as horas passaram, e nada dela. Já era quase dez da noite quando ela entrou em casa, exausta, praticamente mancando.
— Oi, meu amor… boa noite — disse com um sorriso fraco. — O treino hoje foi mais intenso. Estou toda dolorida…
Rafael a olhou, tentando esconder a frustração. Respirou fundo e forçou um sorriso.
— Nossa, amor… estou vendo.
— Você se incomoda se eu só tomar um banho e me deitar? Estou com muita dor na perna, m*l me aguento em pé…
— Tudo bem… vai lá — ele respondeu, engolindo seco.
Dias depois, ele a procurou na cama. A saudade dele era física, urgente. Queria sentir a mulher que amava, fazer amor, se conectar.
Mas ela, com o corpo moído, virou de lado e murmurou:
— Ai, amor… estou com muita dor no corpo. Hoje não consigo. Vamos deixar pra outro dia?
Ele apenas assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Mas por dentro, um incômodo começou a ferver.
Mais alguns dias se passaram e a mesma coisa se repetiu. Rafael, em busca de carinho, de i********e, de presença. E Kelly, de novo, recusando com um pedido de compreensão:
— Eu estou morta, amor… com muita dor na perna. Você sabe que o treino é pesado. Hoje não dá.
Rafael respirou fundo. Apertou os olhos. Mas não disse nada. Apenas virou-se, sentindo uma mistura de frustração, dor e algo mais amargo… uma dúvida crescendo.
Até que, depois de mais uma semana, numa noite em que ele estava decidido a conversar, tentou novamente se aproximar. E, mais uma vez, ela se afastou:
— Rafael, eu tô muito cansada, meu amor… eu juro… m*l consigo respirar direito.
Dessa vez, ele não segurou.
— Por que você não me falou que estava treinando com o Otávio?
Kelly ficou em silêncio. Por alguns segundos, o mundo parou. O ar ficou pesado. O olhar dela congelou.
— Eu… — ela começou, mas ele a interrompeu, a voz tensa, o olhar carregado de mágoa.
— E o pior não é isso. É que eu tive que descobrir pelos outros. E agora eu entendi. Você tá deixando ele te cansar de propósito, né? Porque assim, quando chega em casa, você não tem mais forças pra mim.
— Rafael! — ela disse com firmeza. — Eu nunca faria isso com você! Nunca marquei treinar com o Otávio. Você sabe que eu treinava sozinha. Até que um dia a gente se esbarrou nos treinos… nos falamos de longe… e, depois de várias vezes nos encontrando, começamos a correr juntos. Mas é só isso. Nada demais.
— E ele? Ele não fala nada? Não tenta nada?
— Não. Ele me respeita. Ele sabe que eu sou sua. A gente só treina. Ele corre de um lado, eu do outro, às vezes lado a lado. Mas é só treino, Rafael.
Ela se aproximou, os olhos marejados, tentando fazê-lo entender.
— E não, ele não me pressiona a treinar firme. Você sabe o quanto esse processo é puxado. O TAF da PRF é muito mais pesado que o da PF. Eu corro quatro mil metros por dia. Faço mais de quarenta barras. Saltos de impulsão, natação, flexão de punho cerrado, abdominal remendado… Rafael, isso dói. Dói pra caramba. Eu chego acabada. Isso não é sobre você. É sobre o meu sonho.
Ele passou as mãos pelos cabelos, bufando de raiva, confuso.
— Eu te entendo, Kelly. Juro que entendo. Mas está demais. Eu sinto sua falta. Eu tô aqui, do seu lado, te apoiando, mas… você tá todos os dias com o seu ex. E eu? Eu fico como, me diz?
O silêncio caiu pesado entre eles.
Ela mordeu os lábios, segurando as lágrimas. Ele a olhava, não com raiva apenas, mas com dor. Com saudade. Com o desespero de quem ama e teme estar perdendo.
— Você é tudo pra mim — ele disse, mais baixo. — Mas eu também preciso de você. Não só da sua presença… mas do seu carinho, do seu toque, da sua alma.
Kelly se aproximou, ainda dolorida, ainda cansada, e o abraçou forte.
— Me dá só mais um tempo, Rafael… só mais um tempo. Depois que essa prova passar… eu sou toda sua, de novo. Inteira.
Ele respirou fundo, fechando os olhos, sentindo aquele abraço que tanto desejava. E torcendo para que aquele “depois” realmente chegasse.