Os treinos e o afastamento

578 Words
Dois meses se passaram. Dois meses de treinos intensos. Dois meses de uma rotina exaustiva para Kelly, de dedicação total ao seu sonho. Dois meses de ausência quase completa para Rafael. A prova ainda não tinha chegado. E o tempo parecia cada vez mais c***l. Durante esses dias, eles não tiveram mais momentos íntimos. Nem carícias, nem beijos longos, nem o calor do corpo um do outro. Rafael estava visivelmente revoltado, angustiado… puto. Tentava controlar, mas a mágoa estava entalada na garganta, rasgando o peito. Ele se arrastava para o trabalho e voltava com a esperança de um abraço, um olhar mais demorado, um carinho. Mas a rotina era sempre a mesma: Kelly chegava tarde, destruída, pedindo compreensão. Ela sabia que ele estava m*l. Ela via. E, dentro dela, também havia vontade, desejo, saudade… Mas as dores, os treinos, o cansaço, a pressão… tudo a consumia. Até que, numa noite, ela chegou em casa e sentiu o cheiro forte de cerveja assim que abriu a porta. Olhou para a sala e viu Rafael afundado no sofá, os olhos vermelhos, a mesa com algumas garrafas vazias. — Ah, chegou — ele disse com a voz pastosa, amarga, dolorida. — Onze horas da noite, Kelly. Onze horas da noite! Ela fechou a porta devagar, suspirando. — Fael… — Tenho certeza que você só treina, Kelly! Só treina… — ele disse, se levantando cambaleante. — Olha o homem que eu tô! Olha pra mim! Tô acabado… largado… com saudade de você! Ele passou as mãos pelo rosto, os olhos úmidos, os ombros tensos. — Eu preciso de você. Eu sinto sua falta. Você me deixou, Kelly! Ela caminhou até ele, com o peito apertado, e tentou se aproximar. — Fael, por favor… me entende. — Eu tô cansado de te entender! — ele gritou, com dor, não com raiva. — Cansado! Eu te entendi quando você quis focar no seu sonho. Quando você começou os treinos pesados. Quando você começou a se afastar. Quando você chegou tarde, quando você recusou meu toque, minha presença, meu amor… Mas até quando, Kelly? Até quando? Ela segurou as lágrimas. Sabia que ele estava sofrendo. — Você acha que eu tô bem? — ele continuou, o peito arfando. — Você acha que eu tô aqui vivendo enquanto você vive lá fora? Me diz, Kelly… como é que eu fico? Você quer que eu fique como? Ele chutou a garrafa que estava no chão, não com violência, mas com frustração. E depois, desabou no sofá, cobrindo o rosto com as mãos. Mas o surto dele era diferente do de Otávio. Não era doentio, possessivo. Era um surto de um homem que amava, que sentia falta, que implorava por um pouco de atenção. — Eu tô implorando, Kelly… Implorando pra você me ver. Pra você lembrar de mim… — ele murmurou, com a voz embargada. Ela se ajoelhou à frente dele, segurou as mãos dele com força, e olhou fundo nos olhos dele. — Eu te amo, Fael. Eu juro por Deus, eu te amo. Eu tô cansada também, mas é só mais um pouco. Me espera só mais um pouco… — Eu tô tentando… — ele sussurrou. — Mas tá doendo. — Eu sei… — ela disse, chorando. — Eu sei, meu amor. Ele a puxou para um abraço, apertado, intenso, desesperado. E ali, naquele silêncio, dois corações partidos se encontraram — não para resolver tudo, mas apenas para dizer: “Eu ainda estou aqui.”
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