No dia seguinte…
Na praça perto da faculdade, fim de tarde…
Rafael estava sentado no banco de cimento com Henrique e Marcelo. Ele parecia tranquilo por fora, mas seu olhar fixo no nada denunciava o furacão que o habitava por dentro.
— Tá tudo certo contigo, mano? — perguntou Henrique, quebrando o silêncio. — Desde ontem, tu tá aí com esse jeitão de que tá sorrindo, mas tá pensando em um milhão de coisas.
Rafael sorriu de canto, balançando a cabeça.
— Tô bem, só… sei lá. Tô tentando processar tudo. A apresentação, o reencontro, a viagem. A Kelly. Principalmente ela.
Marcelo o cutucou com o ombro, rindo.
— Fala logo, cara. Você tá perdidamente apaixonado, a gente vê isso de longe.
— Eu tô mesmo. — Rafael confessou, com a voz baixa e firme. — Aquela mulher… me deixa completamente fora de mim. É só ela olhar pra mim com aquele jeitinho doce, meio tímida, que eu esqueço de tudo. Ela me desmonta. De um jeito bom, sabe?
— A gente nunca te viu assim — disse Henrique, sério agora. — Você sempre foi um cara firme, racional, pé no chão. Mas com a Kelly… tu vira outro.
Rafael soltou uma risada seca, e depois passou a mão no rosto.
— Às vezes eu tenho medo de estar amando demais. Porque eu sei… eu sinto… que o Otávio ainda mora em algum lugar ali dentro. Não que ela me diga isso. Nunca disse. Ela é transparente, carinhosa, me escolheu. Mas, cara, eles têm uma história, né? Isso não apaga fácil.
Marcelo colocou a mão no ombro dele.
— Mas ela tá contigo, Rafael. Ela é tua. E o que vocês têm é real. Tu faz ela sorrir de um jeito que a gente nunca viu.
— E eu faria qualquer coisa pra ela continuar sorrindo assim — disse Rafael, com os olhos levemente marejados. — Mesmo que às vezes doa um pouco aqui dentro.
Os amigos sorriram, orgulhosos.
— Você tá amando, irmão. E amar é isso: confiar mesmo quando o coração dá uns sustos — completou Henrique.
Enquanto isso, no quarto de Caio, mais tarde…
Otávio estava deitado na cama, virado pro teto, com os olhos vermelhos. Ao redor dele, os amigos estavam jogados pelo chão ou nas cadeiras, tentando animá-lo.
— Cara… tu não dormiu nada essa noite, né? — perguntou Marcos.
Otávio riu com tristeza.
— Dormir? Eu sonhei com ela. O tempo todo. Era ela sorrindo pra mim… e de repente sumindo nos braços do Rafael.
João suspirou.
— Eu fico m*l por ti, mano. Mas… tu sabe que isso era uma consequência.
— Eu sei — disse Otávio, engolindo em seco. — Eu perdi ela por culpa minha. E mesmo assim… dói. Dói ouvir a risada dela, ver ela com as amigas… ver que ela seguiu. Que ela tá sendo feliz. Com outro.
Caio se aproximou e sentou ao lado dele.
— A Kelly ainda tem muito carinho por ti. Isso a gente sabe. Ela chora quando fala de ti. Ela se preocupa contigo.
Otávio passou as mãos no rosto, lutando contra o choro.
— Mas isso não muda o fato de que eu tô aqui, e ela tá lá. E que eu só tenho lembrança, enquanto outro tem o agora.
Leandro tentou amenizar.
— Mas você tá tentando. Tá lutando. Tá reaprendendo a ser você. E isso, Otávio… já é metade do caminho.
Na casa da Renata, no sofá com as amigas…
As meninas estavam sentadas em volta de Kelly, todas rindo de alguma piada da Isadora. Luísa comia pipoca, Renata fazia trança no cabelo da Carla, e Kelly… sorria. Mas, em determinado momento, uma lágrima escorreu silenciosa por seu rosto. As amigas notaram.
— Ai, amiga… — disse Carla, segurando a mão dela. — Ainda tá doendo?
Kelly assentiu, enxugando rápido o rosto.
— A viagem não foi perfeita, como parece nos vídeos. Eu tava feliz, claro, mas… eu pensei muito nele. E agora… agora que eu vi o Otávio, ouvi a voz dele, vi aquele olhar… dói. Dói demais, sabia?
Ela respirou fundo, tentando conter o desabafo.
— Se eu pudesse, eu morava lá. Longe de tudo isso. Longe do olhar dele me atravessando como se implorasse pra eu voltar.
Renata a abraçou.
— A gente entende, amiga. Mas não fica tão abatida assim, senão o Rafael vai perceber. E a relação de vocês pode desandar…
Kelly negou com a cabeça, decidida.
— Não, meninas. O Rafael é o homem que me escolheu, que me valoriza, que cuida de mim. E mesmo no fundo sabendo que eu ainda gosto do Otávio — porque sim, a gente teve uma história, a gente se amou muito — eu jamais vou estragar o que tenho com o Rafael por causa disso. Não vale a pena.
— Você tem certeza, Kelly? — perguntou Luísa, tocando de leve no braço dela.
Kelly sorriu com os olhos marejados.
— Eu tenho. O Otávio me perdeu porque ele não soube me valorizar. O Rafael sabe. E eu vou fazer tudo que tiver ao meu alcance pra continuar sendo a mulher que ele ama. Porque ele merece. Ele merece o melhor de mim.
As meninas se emocionaram. Carla apertou a mão dela.
— E a gente vai estar aqui por você. Pra te lembrar disso sempre.
— Sempre mesmo — disse Isadora, com os olhos marejados também.
Kelly sorriu, firme. Pela primeira vez em muito tempo, mesmo com a dor ainda presente, ela tinha certeza de quem era. E de onde queria ficar.