Kelly desceu do palco ainda sentindo o coração aquecido pela apresentação e pelo carinho de todos. Caminhava pelos corredores do auditório quando foi surpreendida pela presença de Otávio, que se aproximou decidido, com os olhos cravados nela.
— Kelly... você está maravilhosa. Muito linda.
Ela respirou fundo, sustentando o olhar, mas mantendo a compostura.
— Obrigada, Otávio. Agora, se me dá licença... — disse com gentileza, tentando seguir em frente.
Mas ele deu um passo à frente, suplicante.
— Kelly, por favor... não faz assim. Deixa eu falar com você, rapidinho. Só um minuto.
Do outro lado, Rafael observava tudo de longe. Mesmo sentindo uma pitada de ciúme, se controlava. Ele não queria ser como o Otávio: possessivo, invasivo, controlador. Ele sabia que, se Kelly realmente quisesse estar com ele, ela ficaria por escolha própria — e não por pressões ou desconfianças.
Otávio, por outro lado, parecia à beira do colapso.
— Kelly, eu errei. Eu fui um i****a. Fui possessivo, gritei com você. Eu quebrei tudo dentro de casa, destruí tudo... Mas suas coisas ainda estão lá, meu amor. Do jeitinho que você deixou. Suas roupas, suas sandálias, suas joias, seus cremes, seus perfumes... tudo está no seu devido lugar. Volta pra mim. Volta pro nosso lar. Meu amor, eu te amo tanto. Você é a mulher da minha vida. Eu não vivo sem você, Kelly. Olha pra mim, olha meu estado... Eu tô magro, tô fraco. Eu não durmo, não como. Eu preciso de você.
Kelly sentiu os olhos marejarem. Doía ouvir aquilo, claro. Mas não como antes. Agora doía pelo que ela suportou, não por saudade. Sua voz saiu firme, embora embargada:
— Otávio... Se você precisasse de mim de verdade... Se você me amasse de verdade, você não teria feito o que fez.
— Eu sei que errei, Kelly. Eu errei.
— Esse é o seu problema. Você sempre erra, Otávio. Inúmeras vezes. E quantas vezes eu me provei pra você, hein? Quantas? Que eu te amava. Que você era o único homem pra mim. Que eu era a sua. Mas você sempre gritou, sempre surtou, sempre me feriu. Sempre.
A voz dele começou a mudar. Mais baixa, mais raivosa.
— Mas Kelly... aquele idiota... aquele Rafael...
Ela ergueu a mão, interrompendo.
— Chega, Otávio. Chega.
Ele franziu a testa, engolindo a raiva.
— Eu já entendi tudo... você tá com ele, né? É por isso que você tá assim... diferente.
Kelly soltou uma risada curta, sarcástica, mas não perdeu o tom firme:
— Otávio... Eu não vou ser a distorção da minha própria vida. Com quem eu estou ou deixo de estar... só interessa a mim. E sim, eu estou diferente. Porque eu mudei. O trauma, a decepção que eu vivi com você me fizeram mudar. Eu sou outra mulher agora. E não vou deixar mais ninguém... ninguém... apagar meu brilho.
Ela deu um passo para o lado, pronta para sair, mas ele ainda tentou:
— Você não ia ficar no dormitório da faculdade? Conseguiu dinheiro pra alugar uma casa?
Kelly parou, olhou por cima do ombro e respondeu com classe:
— Não importa onde eu esteja, Otávio. O que importa é que eu estou em paz. Adeus.
E então virou as costas e saiu do auditório com dignidade, a cabeça erguida, os olhos brilhando.
Rafael, ainda de longe, assistia à cena com o peito aliviado. Ele não ouviu tudo, mas bastou ver a postura de Kelly para saber: ela estava livre. Livre daquele passado. Livre para ser ela mesma. E ele estava disposto a continuar sendo parte da nova jornada dela — sem prender, sem sufocar, apenas amando.
Otávio, por sua vez, ficou ali. Visivelmente irritado, abalado, frustrado... e cheio de ódio. Não por ela ter partido — mas por não ter mais o poder de impedir isso.
Capítulo – Desabafo entre Amigos
Kelly saiu da universidade com o coração leve. A apresentação havia sido um sucesso, e agora era hora de reencontrar os amigos que tanto amava. Os abraços, as risadas, os olhares de carinho... tudo fazia com que ela se sentisse acolhida, viva.
Eles seguiram juntos para um restaurante aconchegante, onde a conversa fluía leve e descontraída. Assim que se sentaram à mesa, Kelly pegou o celular e digitou uma mensagem para Rafael:
Kelly: "Amor, vou almoçar com o pessoal, tá?"
Poucos segundos depois, a resposta chegou:
Rafael: "Tá bom, meu amor.. E almoça direito, viu? me avisa pra mim te busca ou se você preferir pede um carro de aplicativo.
Ela riu baixinho erespondeu:
Kelly: "pode deixar amor ,te aviso e voce vem me busca bjs"!
Enquanto os pratos chegavam, a conversa na mesa começou a tomar outro rumo. Entre uma garfada e outra, os rapazes — João, Caio, Leandro e Marcos — trocaram olhares e se entreolharam com cumplicidade. Até que João se adiantou:
— Kelly, a gente sabe que você e o Rafael estão juntos. Não precisa esconder da gente, não.
Ela arregalou os olhos por um instante, surpresa.
— Não foram nossas esposas que contaram nada. A gente percebeu. — completou Caio, sorrindo de canto. — O Rafa tá diferente. Mudou o jeito de andar, o jeito de sorrir. E hoje, vendo vocês na faculdade... não tão perto, mas perto... dá pra ver.
Leandro se inclinou sobre a mesa:
— Poxa, amiga... o Otávio e um irmao de ourra mae pra mim mais ele mundou muito .
— É isso. — disse Marcos, sério. — Ver como ele te tratava era revoltante. Pra falar a real, nossa amizade com ele ficou bem abalada.
As meninas — Renata, Isadora, Luísa e Carla — assentiram em silêncio, algumas apertando a mão de Kelly, outras balançando a cabeça com tristeza.
Kelly respirou fundo, olhou ao redor e então desabafou:
— Gente, eu sei que é difícil. Eu e o Otávio vivemos momentos intensos. Fizemos aquela viagem linda, a gente riu tanto, vocês lembram?,vocês surtando com as meninas quando a gente saiu pra beber e chegou tarde... bêbadas ,e felizes.
todos sorriram com um gosto agridoce.
— Mas vocês... vocês nunca foram como o Otávio. Ele sempre surtava. Era como uma bomba-relógio.
Todos a ouviam em silêncio, respeitando cada palavra.
— Se ele estivesse aqui agora, e o garçom me olhasse por um segundo, ele surtaria. Chegaria em casa gritando, batendo no peito, na parede, dizendo que eu era dele. Que ninguém podia olhar pra mim.
A voz embargou.
— Eu cansei, gente. Eu cansei. O amor que ele dizia sentir por mim... era veneno. Era posse. Era controle.
Ela abaixou a cabeça por um instante, mas logo voltou a encará-los.
— Ver ele hoje me doeu. Me doeu de verdade. Mas vocês não fazem ideia do que ele fez naquele dia. Ele quebrou tudo dentro de casa. Tudo. Gritava, me chamava de louca, de v***a, vagabunda,dizia que eu era dele. Que eu ia morrer com ele. que ele mataria o Rafa.
As meninas prenderam a respiração. Luísa apertou sua mão com força.
— Eu fugi. Peguei meu computador e meu celular. Só isso. Saí desesperada, chorando, na rua, sem saber pra onde ir. Foi aí... foi aí que o Rafael apareceu. Como um milagre. Ele passou de carro e me viu. E eu pedi socorro. E ele me socorreu.
Kelly deixou uma lágrima escorrer. Era alívio. Era libertação.
— Ele me salvou. Literalmente. Não só daquela noite. Mas de tudo. Daquele ciclo. Daquela prisão.
O silêncio que se formou não era desconfortável. Era respeitoso. Profundo. De reconhecimento.
— "Desde aquele dia, eu não pisava na rua. Oito meses, gente. Hoje foi a primeira vez que saí da casa do Rafael"
As meninas se entreolharam em choque. Renata segurou sua mão.
— "Você tá linda hoje, amiga", sussurrou. renata sorriu com os olhos vermelhos.
— "Essas roupas, essa maquiagem, os produtos... tudo foi o Rafael que comprou. Ele foi cuidadoso, zeloso, paciente. Ele cuidou de mim como vocês cuidam das suas mulheres, sabe? Com carinho, com leveza. Ele me fez rir, me ouviu chorando, viu minhas crises... e ficou. eu nao me deixei leva de um dia pro outro. Foi aos poucos. Primeiro viramos amigos. ele Dormia no sofá, e eu na cama. E agora... agora eu tô feliz com ele. De verdade.".
— "Eu Amo o Otávio. Mas eu preciso me curar desse amor. Eu preciso entender que amor não é prisão. Amor que sufoca não é amor. Ver o Otávio hoje mexeu comigo, claro que mexeu. Mas eu quero minha vida de volta. Eu sinto falta disso aqui. De vocês. De sair, rir, viver. Eu não posso mais viver presa."
Ela pegou o celular de novo e mostrou a última mensagem de Rafael:
— "Almoça direitinho,se divirta-se, me liga pra minha te busca ou se você preferir pedir um carro de aplicativo ver oque prefere ,bjs"!
— "Vocês acham que o Otávio diria isso?", ela perguntou. Os meninos balançaram a cabeça.
— "Nunca", respondeu Leandro. "Ele ia surtar se você demorasse na rua."
— "Ia implicar até com o carro que você pedisse", completou João.
carla assentiu, firme:
— "Então... não dá pra viver assim. Eu preciso de liberdade. E Rafael me dá isso. Ele me deixa ser. Me deixa voar."
E pela primeira vez em muito tempo, ela sorriu com leveza. A dor ainda estava ali, mas agora havia também força. E coragem.