Mais tarde, com Rafael dormindo no quarto, esgotado pela dor e pelos ferimentos, Kelly caminhou em silêncio até a sala. Sentou-se no sofá com uma manta cobrindo os ombros, os olhos ainda vermelhos de tanto chorar. Pegou o celular com as mãos trêmulas e, respirando fundo, iniciou uma chamada de vídeo.
O tempo parecia lento até a imagem da mãe surgir na tela. Dona Keyla apareceu com um sorriso inicial que logo se desfez ao ver o rosto abatido da filha.
— Kelly? Filha, o que aconteceu? Por que está assim? Você tá chorando?
Kelly tentou conter as lágrimas, mas bastou ouvir a voz da mãe para tudo desabar de novo. O queixo dela tremeu, a respiração acelerou e as palavras saíram quase engasgadas.
— Mãe... aconteceu uma coisa horrível hoje na faculdade... com o Rafael... com o Otávio...
— Otávio?! — o rosto de keyla ficou sério, quase sombrio. — O que esse desgraçado fez agora? Fala comigo, filha. Me conta tudo.
Kelly limpou uma lágrima com o dorso da mão e falou com a voz entrecortada:
— Ele atacou o Rafael, mãe. De novo. Os dois brigaram feio. O Otávio falou coisas absurdas, nojentas... me expôs... falou como se meu corpo fosse dele. Como se eu fosse um objeto que ele perdeu. Ele é doente, mãe. Um monstro.
— Filha do céu... — Vera levou a mão à boca, atônita. — Como o Rafael está? Ele se machucou muito?
— Sim... — Kelly mordeu o lábio inferior, tentando se conter. — Eu cuidei dele, limpei os ferimentos... mas ele tava sangrando, com a camisa rasgada, a barriga machucada... Mãe, eu me sinto culpada. Isso não devia ter acontecido com ele. Ele só tá sofrendo por minha causa...
— Para com isso agora, Kelly! — a mãe interrompeu com firmeza e amor. — Você não tem culpa nenhuma, você ouviu? Nenhuma! A culpa é do Otávio. É dele. Ele tá obcecado, desequilibrado. E ele ultrapassou todos os limites.
Kelly balançou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas.
— O Rafael... mesmo machucado, ele me olhou com tanto carinho, mãe. Ele disse que eu não tenho culpa, que ele vai se defender todas as vezes, que vai cuidar de mim. Mas eu tô com medo. Eu tô com tanto medo, mãe.
— Filha, escuta o que eu vou te dizer agora. — A voz de keyla endureceu, com aquele tom de mãe protetora que Kelly conhecia desde criança. — Eu vou entrar em contato com a Eliza, mãe do Otávio. Eu vou contar tudo. Isso não pode continuar assim. Esse menino precisa ser contido de alguma forma. Isso que ele tá fazendo... é perigoso! É criminoso!
— Você acha que ela vai ouvir, mãe? — Kelly perguntou num sussurro. — Você acha que ela vai acreditar?
— Ela vai ter que ouvir! Ela é mãe dele! Se não resolver, eu mesma vou à delegacia, mas esse abuso vai acabar, Kelly. Você não está sozinha. E o Rafael tem razão: você merece paz, merece amor. E ele te ama. Eu vi isso desde o começo.
Kelly levou as mãos ao rosto e chorou mais uma vez, mas agora com um pouco de alívio.
— Obrigada, mãe... obrigada por me apoiar... obrigada por tudo.
— Sempre, meu amor. Sempre. — keyla respondeu com lágrimas nos olhos. — Agora vai ficar com ele. Cuida dele. E me mantém informada. Eu te amo muito, filha.
— Também te amo, mãe...
A ligação se encerrou com as duas chorando. Kelly guardou o celular e ficou ali mais alguns segundos, em silêncio, sentindo o amor materno atravessar a distância e dar forças pra ela continuar. Depois levantou-se devagar e voltou ao quarto para ficar ao lado do homem que agora era seu porto seguro.
No dia seguinte, a casa estava em silêncio, envolta num clima de cuidado e amor. Kelly acordou cedo e foi direto para o quarto, onde Rafael dormia profundamente. As marcas da briga ainda estavam visíveis em seu rosto e corpo. Com delicadeza, ela passou um pano úmido no rosto dele, trocou os curativos e preparou um café da manhã leve.
Ele abriu os olhos devagar, com um sorriso fraco.
— Bom dia, meu amor...
— Bom dia, vida... — ela respondeu com carinho, acariciando seus cabelos. — Hoje a gente não vai pra faculdade. A gente vai ficar em casa. Só nós dois.
— Tudo bem... — ele sussurrou. — Só de ter você aqui, já é tudo pra mim.
Enquanto cuidava de Rafael com todo carinho, Kelly não sabia que, em outro canto da cidade, sua mãe, Keyla, também estava agindo. Ela estava decidida a dar um basta naquela situação.
Ligou para Elisa, mãe de Otávio, e foi direta:
— Elisa, a gente precisa se encontrar. É urgente. Eu tenho uma coisa muito séria pra te contar sobre o Otávio.
Do outro lado da linha, Elisa percebeu pelo tom de Keyla que era algo grave. Marcou o encontro para aquela mesma tarde. Quando chegou ao local combinado, levou consigo Helena, a irma mais velha de Otávio, que parecia nervosa e confusa.
Ao vê-las, Keyla as cumprimentou com firmeza, o rosto sério e olhos marejados.
— Obrigada por virem. Eu sei que isso vai ser difícil de ouvir. Mas vocês precisam saber a verdade sobre o Otávio.
— O que tá acontecendo, Keyla? — perguntou Elisa, já inquieta.
Keyla respirou fundo e começou.
— O Otávio não está bem. Ele passou de um homem ciumento pra alguém perigoso. Ontem ele espancou o Rafael. Disse coisas horríveis pra minha filha. Disse que o corpo dela ainda era dele. Que ela era uma coisa que ele perdeu. Ele tá obcecado. E isso não pode mais continuar.
Elisa levou a mão à boca, os olhos arregalados. Helena começou a chorar, em choque.
— Meu Deus... a Kelly... ela não merece isso... — Helena disse entre lágrimas. — Ela sempre foi maravilhosa. Claro que eu queria ela com meu irmão, mas não assim!
— E eu também queria que a kelly estivesse com meu filho — disse Elisa, a voz embargada. — Mas ele a perdeu por causa do próprio comportamento. Por isso. Por tudo isso.
— Olha... — continuou Keyla, emocionada e firme — eu sempre tive muito carinho pelo Otávio. Ele era como um filho pra mim. Mas esse carinho tá virando raiva. Porque a minha filha não merece isso. Ela nunca fez nada pra provocar essa obsessão. Ela sempre respeitou ele.
Ela fez uma pausa e, com lágrimas nos olhos, completou:
— E se algo entre ela e o Rafael aconteceu, foi depois de tanto sofrimento. Ela me contou... ela me disse que o Otávio já não era mais carinhoso. Que as relações deles viraram uma tortura. Ele fazia ela sentir dor. Não por prazer. Mas por dominação. Pra mostrar que ela era dele. Isso é doentio.
Elisa chorava silenciosamente. Helena tremia, perplexa.
— Meu Deus... por que meu irmão ficou assim? — murmurou Helena, quase sem voz. — Ele era tão doce. Ele era bom.
— Eu não sei, Helena... mas uma coisa eu sei: isso não vai ficar assim. — disse Elisa, se recompondo. — Eu vou contar tudo pro Rogério. E nós vamos até o Otávio. Isso precisa ser enfrentado de frente. Ele precisa de ajuda. E a Kelly precisa de paz.
— Chega de silêncio. — Keyla finalizou. — A minha filha tem voz. E dessa vez, ela vai ser ouvida.
As três mulheres se abraçaram, unidas pela dor, mas também pela força. Era hora de proteger. Era hora de agir.