Ela Tem Que Ser Livre

1018 Words
A manhã nasceu devagar, como se o próprio tempo quisesse respeitar a delicadeza da noite anterior. Rafael despertou antes que o sol invadisse o quarto. Abriu os olhos lentamente e, ao virar o rosto, encontrou a cena que mais gostava de ver: Kelly, ainda adormecida, respirando tranquila, o corpo envolvido apenas pelo edredom, deixando à mostra o contorno suave de suas curvas sob o tecido leve. Ele não ousou se aproximar mais, apenas ficou ali, observando em silêncio. Seus olhos corriam devagar por cada traço do rosto dela — a boca entreaberta, os cílios longos, a tranquilidade que ela exalava mesmo em repouso. Um sorriso escapou de seus lábios, involuntário, cheio de admiração. — Finalmente... — murmurou para si mesmo, baixinho, como se confessasse um segredo guardado por tempo demais. Com cuidado, se levantou. Escolheu uma calça jeans simples e uma blusa preta, entrou no banheiro e tomou um banho rápido, deixando a água morna levar embora qualquer resto de ansiedade. Secou o cabelo, penteou e se vestiu. Antes de sair, voltou ao quarto. Aproximou-se e deixou um beijo leve no ombro dela. — Dorme mais um pouco, minha paz, sussurrou, sorrindo. Pegou a chave da moto e saiu. --- Na faculdade, o clima parecia normal — até encontrar Otávio no corredor. O outro o encarou de cima abaixo com uma expressão amarga, e soltou, com a voz carregada de sarcasmo: — É... tá muito sorridente pro meu gosto. Ela já deu pra você, não foi? Eu sei... ela é fascinante, né? Rafael respirou fundo. Fechou os olhos por um instante e, então, se virou para encará-lo. A voz saiu firme, sem hesitação: — Cara, na moral... me deixa em paz. Eu não sei onde ela tá. E mesmo se soubesse, nunca diria pra você. — Aproximou-se um pouco mais, com o olhar intenso. — E se um dia eu conseguir encontrá-la e ficar com ela... pode ter certeza de uma coisa: eu nunca vou tratar ela como você tratou. Ela tem que ser livre. Livre pra ser quem ela é, livre pra brilhar. — A raiva crescia, mas ele manteve o controle. — Eu não sou um psicopata doente que precisa controlar tudo. Você perdeu ela porque você foi um covarde. Você não foi homem o bastante pra estar com uma mulher como ela. Sem esperar resposta, Rafael virou as costas e entrou na sala, deixando Otávio parado, com a respiração pesada, os punhos cerrados. Em um surto de raiva, Otávio socou a parede ao lado do bebedouro. O impacto foi tão forte que abriu um pequeno corte nos nós dos dedos. Gritou entre os dentes, furioso, sem aceitar a derrota. Seus amigos, que estavam próximos, o olharam em silêncio. João foi o primeiro a se aproximar, tentando acalmá-lo. — Cara, calma... para com isso, velho. Marcos concordou: — Já vão fazer cinco meses, Otávio. A Kelly sumiu, não responde mais, troca de número e bloqueia tudo que é seu. Deixa ela viver em paz. Leandro, mais direto, soltou: — Você precisa virar a página, cara. Otávio bufou, tremendo de ódio. — p***a, vocês estão do lado de quem? Do lado dele?! Ou estão do meu lado?! Caio apenas balançou a cabeça, decepcionado: — Na moral... não dá pra conversar com você não, Otávio. Não dá. Sem mais palavras, os quatro amigos se afastaram, indo ao encontro de suas namoradas, que estavam sentadas mais adiante. João foi até Renata, Marcos procurou Carla, Leandro encontrou Luiza e Caio, com um pouco mais de timidez, foi atrás de Isadora. As meninas, no entanto, ainda estavam frias com eles. Embora estivessem se reaproximando, nenhuma delas havia perdoado totalmente o comportamento do grupo nos últimos meses. Otávio ficou para trás. Sozinho. O corte na mão ardia, mas não mais do que o gosto amargo da perda que ele mesmo causou. Kelly despertou sozinha naquela manhã. O sol entrava pelas frestas da janela, iluminando o quarto com uma luz suave e acolhedora. Ela abriu os olhos lentamente, ainda sentindo o calor aconchegante das cobertas. Um sorriso, tímido e genuíno, brotou em seu rosto — era o primeiro sorriso que ela dava em meses. Ela não sorria assim desde que tudo começou a desmoronar. Desde quando o medo e a insegurança tomaram conta dela, quando o amor parecia ter sido substituído por possessividade e agressividade. Mas agora, naquele instante, algo havia mudado. Ela se sentia finalmente cuidada, amada de verdade. Rafael a tratava com uma ternura que ela jamais conhecera com Otávio. No fundo, ainda havia uma parte de seu coração que sentia falta dele — um amor complicado, marcado por dores. Mas aquele carinho novo era diferente, era esperança. Levantou-se devagar, os pés tocando o chão frio. Caminhou até a cozinha, pegou um pano e começou a limpar as superfícies, passando um cheirinho de lavanda pelo apartamento. Arrumou os móveis com cuidado, trocou o lençol da cama, deixando tudo limpo e cheiroso — um refúgio para sua nova vida. Depois, pegou o notebook, sentou-se no sofá confortável e abriu as aulas online. Os trabalhos da faculdade precisavam ser feitos, mas sua mente já voava para o futuro próximo. Daqui a três meses, teria que voltar para a faculdade, enfrentar uma prova e uma apresentação — uma história que teria que contar, um capítulo da sua vida que ainda tremia só de imaginar. Aquela apresentação, principalmente, era o que mais a assustava. Porque no dia, inevitavelmente, ela iria rever Otávio. Mas não tinha para onde correr. Era hora de preparar-se, de ser forte. Mais tarde, ao sair da faculdade, Rafael passou pela floricultura perto do campus. Seus olhos brilharam ao escolher cuidadosamente algumas rosas vermelhas, o símbolo perfeito do carinho que sentia. Pegou também uma caixa elegante de bombons, uma cesta recheada de chocolates finos e um ursinho de pelúcia macio, um presente simples, mas cheio de significado. Com um sorriso leve, ele pensou: — Ela merece tudo isso e muito mais. E assim, com a cesta nas mãos, ele seguiu para casa, ansioso para ver o sorriso dela ao receber aquele gesto — o primeiro de muitos que ainda estavam por vir.
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