otavio confrontar Rafael

1585 Words
A vida de Otávio tinha se transformado em um completo caos desde que Kelly desapareceu. Ele já não comia direito, m*l dormia. O olhar estava sempre perdido, os olhos vermelhos de noites em claro, a barba por fazer, a roupa sempre amarrotada. O brilho que antes existia nele — autoconfiante, seguro, às vezes até arrogante — agora não passava de uma sombra opaca. Ele passava os dias tentando refazer os passos dela, revisando mensagens antigas, olhando fotos, escutando áudios. Às vezes, ficava horas encarando o celular na esperança de ver a tela acender com o nome dela. Mas o silêncio era c***l. Ligava dezenas de vezes por dia, sempre caindo na caixa postal. Mandava mensagens desesperadas, quase incoerentes: "Kelly, por favor, me perdoa. Eu errei." "Kelly, eu te amo. Eu te juro, eu mudei." "Você tá com ele, né? Você não pode estar com ele. Você é minha, Kelly. Você é minha!" "Volta pra mim. Por favor. Eu tô surtando sem você." "Kelly, me responde. Nem que seja pra me xingar. Só me responde." Mas ela nunca respondia. Às vezes, Otávio jogava o celular longe, em crise, chorando como uma criança. Em outras, saía dirigindo sem rumo, com os olhos marejados, tentando encontrar qualquer traço dela pelas ruas, pelas lembranças. Chegava a parar em frente à faculdade, observando de longe, esperando talvez vê-la sair, como nos velhos tempos. Mas ela nunca aparecia. E quando via Rafael entrando ou saindo do campus, algo queimava por dentro. A raiva se misturava ao medo, e o ciúme o corroía. Tinha certeza que ele estava com ela. Que ela tinha ido direto pra ele. — Ela sempre teve um fraco por esse cara... Sempre foi ele, né? Desde o começo... — murmurava sozinho, esmurrando o volante do carro. Mas, no fundo, ele sabia que a culpa era toda dele. Sabia que tinha ido longe demais. Que tinha passado dos limites. E que ela o deixou não por outro homem, mas porque ele a machucou. Porque ela não se sentia segura ao lado dele. Só que aceitar isso... era quase como aceitar morrer por dentro. Os amigos se afastaram, a família já não sabia mais o que fazer. No trabalho, ele começou a falhar. Faltas, atrasos, explosões de raiva. Seus colegas o evitavam, e seus superiores já falavam em substituição. Otávio estava se perdendo. E tudo que ele queria... era ela de volta. Mas ela não voltava. Três meses já haviam se passado desde que Kelly se mudou para a casa de Rafael. O tempo parecia ter desacelerado ali dentro. Cada dia era uma mistura de silêncio confortável e cumplicidade não declarada. Eles ainda não tinham se beijado, não falavam de sentimentos, mas o clima entre eles era quase palpável — carregado de algo mais forte que palavras. Eles pareciam um casal, mesmo sem serem. Sorriam mais, brincavam juntos, dividiam pequenos momentos como cozinhar, assistir filmes ou até estudar. Às vezes, ele a abraçava quando ela estava tensa. E quando dava um beijo leve no rosto dela, ela ficava visivelmente nervosa, mas sorria de canto, como quem tentava disfarçar o coração acelerado. Rafael conhecia cada detalhe dela como ninguém. Sabia da pintinha quase invisível perto da mandíbula, da tonalidade exata dos olhos que variava com a luz — castanho mel, quente e profundo. Sabia o cheiro do shampoo que ela gostava, o jeito que ela prendia o cabelo quando estava nervosa, a risada que escapava quando ela tentava parecer séria. Cada cacho, cada expressão, cada silêncio dela era precioso. E pra ele, tê-la ali, mesmo sem nunca ter tocado os lábios dela, era mais do que um sonho — era uma conquista íntima, pura, quase sagrada. Ele era obcecado por Kelly há mais de três anos. Tê-la perto, dividindo o mesmo teto, mesmo sem promessas, era como viver um milagre todos os dias. Mas fora daquela bolha, a realidade era outra. --- Na faculdade, numa manhã abafada, Rafael chegava para mais um dia comum, sem imaginar o que estava prestes a acontecer. O som dos passos apressados ecoava pelo pátio de pedras quando, de repente, uma voz furiosa ecoou atrás dele. — Eu sei que a minha mulher tá com você! Rafael virou bruscamente e viu Otávio, descontrolado, com o olhar febril e o rosto marcado pela raiva e o cansaço. Ele estava magro, abatido. Um homem à beira do colapso. — Você tá maluco, cara? Que mulher? Que história é essa? Otávio avançou um passo, olhos fixos. — A Kelly, p***a! Ela tá na sua casa, não tá? Desde que ela sumiu, eu sei que é você! Sempre foi você! Rafael cerrou os punhos, se mantendo firme. — Se ela largou de você, é porque você fez alguma merda, Otávio. Acha que ela ia sair da vida dela do nada? O que foi que você fez com ela, hein? Otávio avançou mais um passo, tremendo de raiva. — Como é que você sabe que ela me largou, então? Hein? — É simples. Ela sumiu. Parou de vir pra faculdade. Ninguém mais viu a Kelly. E se você tá surtando desse jeito, é porque você sabe que perdeu. E perdeu por culpa sua. Otávio, cego pela raiva, mirou um soco direto na cara de Rafael. O impacto foi forte, mas Rafael largou a mochila no chão e partiu pra cima. Os dois começaram a trocar socos, chutando, empurrando, caindo no chão, rolando pelo pátio. Era uma explosão de frustrações, ciúmes e mágoas. — Você nunca foi homem pra ela, seu merda! — gritou Rafael, antes de acertar outro soco no maxilar de Otávio. — Ela é minha! Minha! Você roubou ela de mim! — retrucava Otávio, transtornado. Logo, os amigos de Otávio chegaram correndo. João, Caio, Marcos e Leandro tentavam separar a briga: — Calma, p***a! Calma, Otávio! — Calma o c*****o! Ele tá com a minha mulher! Ele tá com a minha Kelly! — Você tá maluco, irmão? — Rafael gritou, tentando se soltar dos braços que o seguravam. — Você acha que é quem pra chegar me socando? Tá achando que o mundo gira em torno da sua insanidade? Otávio, ainda furioso, tentava se soltar dos amigos: — Me solta! Eu vou matar esse filho da p**a! — Vem então, covarde! Tenta de novo! Só tenta! — Rafael gritou de volta, o lábio sangrando, a camisa rasgada, mas firme, encarando o ex de Kelly com ódio nos olhos. A briga foi separada com dificuldade, deixando todos em volta em choque. E pela primeira vez... todo mundo ali começou a se perguntar: Onde está Kelly? E o que, afinal... Otávio fez com ela? A porta se abriu com dificuldade. Rafael entrou mancando levemente, o rosto marcado por hematomas, a boca com um corte visível no canto, e a camisa rasgada no ombro. Ele respirava com dificuldade, mas tentou manter a postura firme. Kelly, que estava na cozinha, correu ao vê-lo naquele estado. — Rafael... meu Deus, o que aconteceu? — ela parou em choque, os olhos arregalados. — Foi o Otávio, não foi? Ele assentiu devagar, tentando sorrir para aliviar o impacto. — Foi... foi o Otávio. Mas tá tudo bem. — Não tá, não tá! Olha como você tá! Olha o que ele fez com você! — ela correu até ele e segurou seu rosto com as duas mãos. — Senta aqui, vai... eu vou cuidar de você. Rafael obedeceu sem discutir, sentando-se no sofá com um gemido contido. Kelly foi rápida: pegou gaze, povidine, água oxigenada e voltou apressada. Se ajoelhou entre as pernas dele, no chão, ficando bem à sua frente. Suas mãos tremiam enquanto ela limpava cada ferida com cuidado. Os olhos marejados já deixavam as lágrimas escorrerem silenciosamente pelo rosto. — Kelly... — ele sussurrou, sentindo o toque delicado dela em seu rosto. — Por que você tá chorando, minha princesa? Ela não conseguiu conter o choro, fungando baixinho enquanto tentava limpar o corte na sobrancelha dele. — Porque ele te machucou... você não merece isso. Você nunca mereceu passar por isso... você não tem culpa de nada. Tudo isso é culpa minha. Eu que devia ter resolvido tudo isso antes, Rafael. Eu preciso voltar, conversar com ele, resolver isso de uma vez por todas. Depois... eu arrumo outro lugar pra mim ficar. Rafael segurou o rosto dela com as duas mãos, com delicadeza e firmeza. Ergueu o queixo de Kelly, forçando-a a olhar em seus olhos. — Não, você não vai voltar. Nem pensar. — ele falou com a voz grave, mas doce. — Se você não quiser mais ficar aqui, tudo bem. Eu te ajudo a encontrar uma casa, eu faço o que for preciso. Mas voltar pra ele, Kelly? Não. Ele tá tão transtornado que parece outra pessoa. E se você voltar... ele pode fazer alguma coisa com você. Kelly fechou os olhos, as lágrimas escorrendo sem parar. Ela balançou a cabeça negativamente, enquanto continuava limpando os ferimentos dele. O cheiro do antisséptico se misturava ao do perfume suave dela. As mãos dela estavam frias, mas o coração quente — tão exposto, tão cheio de culpa, de dor, de amor contido. Ela não conseguia dizer mais nada, só cuidar dele. E Rafael, mesmo machucado, sentia o peito doer ainda mais ao vê-la assim, quebrada por dentro. Ficaram ali, em silêncio, ela ajoelhada entre suas pernas, ele sentado, com os olhos fixos nela. Um silêncio que dizia tudo. E naquele instante, mais do que nunca, eles pareciam pertencer um ao outro — mesmo sem um beijo, sem uma promessa... já eram um.
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