Algo mudou

867 Words
Depois que Kelly cuidou dos machucados dele com todo carinho, Rafael ainda insistiu: — Eu vou dormir no sofá... a cama é sua, Kelly. — Por favor, Rafael, — ela respondeu com o olhar doce, cansado — você precisa descansar. Deita na cama. Eu fico perto de você, mas... você precisa deitar bem, relaxar um pouco. Ele respirou fundo, relutante, mas cedeu. — Tá bom... mas só porque você mandou. Os dois seguiram pro quarto. Ele se deitou primeiro, e ela logo deitou ao lado, mantendo uma distância respeitosa no começo. O quarto estava escuro, só com a luz fraca da rua entrando pela janela. Eles ficaram ali, deitados, conversando baixinho. — Sabia que eu já quis aprender a dançar tango? — disse Rafael, quebrando o silêncio. — Tango? — Kelly riu, virando o rosto na direção dele. — Você é todo atrapalhado, Rafael! Não ia conseguir nem fazer o passo básico. — Ei! — ele riu. — Tô falando sério. Mas só ia querer dançar se fosse com você... Ela sorriu, levemente envergonhada. — Bobo. A conversa foi se misturando com risadas leves, até que o silêncio foi tomando conta devagar. Um dos braços dela escorregou por cima do peito dele, e Rafael a envolveu de volta com delicadeza. Adormeceram assim, abraçados, num calor aconchegante de cumplicidade que dispensava qualquer rótulo. --- Mais tarde, por volta das onze da noite, Kelly despertou com o barulho leve do vento lá fora. Olhou para o lado e Rafael ainda dormia profundamente. Ela sorriu com ternura, levantou devagar e foi até a cozinha. Decidiu preparar algo leve — pão na chapa, suco, alguns pedaços de bolo de chocolate que ainda restavam na geladeira. Enquanto arrumava tudo, o celular começou a vibrar. Mensagens insistentes. Ela pegou o aparelho com certa hesitação e leu: Otávio: “Eu quebrei a cara do seu namorado.” “E se eu ver ele de novo, eu vou quebrar ele muito mais.” “Eu sei que você tá com ele, Kelly. Você é minha.” Kelly encarou a tela por alguns segundos, sentindo o sangue ferver — mas não respondeu. Nem uma palavra. Apenas bloqueou o número, silenciosamente, e voltou para a cozinha. Não ia mais se desgastar com ameaças. Assim que tudo ficou pronto, ela voltou pro quarto, tocou de leve no ombro dele: — Rafael... cuidado, acorda devagar. — a voz dela era um sussurro terno. — Vem lanchar comigo. Ele se espreguiçou, ainda meio sonolento, e abriu os olhos devagar. — Já é de manhã? — perguntou confuso. — Não... é só um lanche da madrugada. — ela sorriu. — Mas você precisa comer um pouco. Ele se levantou com um sorriso preguiçoso e foi até a mesa. Sentaram juntos, dividindo o pão, os sorrisos e o silêncio confortável da madrugada. Mesmo com tudo acontecendo ao redor, ali naquele instante, só existiam os dois. Depois do lanche na madrugada, eles limparam tudo juntos, ainda trocando olhares e sorrisos tímidos. Não havia pressa ali... só aquele silêncio bom de quem estava exatamente onde queria estar. — Quer ver um filme? — ela perguntou, com uma caneca de chá quente nas mãos. — Agora? — ele arqueou a sobrancelha, divertido. — Ué, a gente já tá acordado mesmo... e você precisa descansar com leveza. Nada de drama hoje, combinado? — Combinado, — ele respondeu, pegando o controle da TV. — Mas eu escolho. — Desde que não seja terror... — Droga. — Ele riu, e os dois foram até o sofá. Kelly puxou uma manta e os dois se ajeitaram debaixo dela, juntinhos, com o corpo de Rafael ainda um pouco dolorido, mas confortável com a presença dela ali ao lado. O filme escolhido era uma comédia romântica leve. Um daqueles bem bobos, com situações absurdas e exageradas, mas que provocavam risos sinceros. Em um dos momentos mais engraçados, um personagem escorregou numa pista de dança e arrastou o bolo de casamento junto. Kelly gargalhou alto, se inclinando sem querer sobre Rafael. Ele a olhou, contagiado pelo riso. — Se fosse você naquele casamento, ia ser exatamente assim, — ele disse, apontando. — Ai, cala a boca! — ela deu um leve tapa no braço dele, rindo ainda mais. — Você que é todo estabanado! Os dois se olharam... os risos foram silenciando aos poucos, dando lugar a um silêncio diferente. Um silêncio carregado de sentimento, leve, bonito. Rafael aproximou o rosto devagar, e Kelly não recuou. Os lábios se tocaram com suavidade. Um beijo calmo. Paciente. Sem pressa nenhuma. Era como se os dois estivessem dizendo “estou aqui”, “tô com você”... sem usar palavras. Demorou. Quando se afastaram, os olhos ainda estavam fechados por um segundo, como se quisessem guardar o gosto daquele instante. — Você beija bem demais pra quem tá machucado, — ela sussurrou, com um sorriso pequeno. — É o seu efeito em mim, — ele respondeu, encostando a testa na dela, os dedos entrelaçados devagar. Eles não disseram mais nada. Só ficaram ali. Deitados, quietos, com o filme ainda passando, mas completamente esquecidos. A madrugada seguiu serena. E dessa vez, o sono que veio depois não foi de cansaço, foi de paz.
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