Os dias estavam pesados para todos. A faculdade já não tinha o mesmo brilho para o grupo unido que, há três anos, havia se formado e fortalecido ali. Caio, Leandro, Marcos e João estavam visivelmente revoltados com o surto de Otávio, mas ainda assim tentavam estar por perto para apoiá-lo — mesmo contrariados, mesmo sem concordar com nada do que ele havia feito. Tentavam acalmar o amigo que afundava na própria fúria.
Já Isadora, Renata, Luisa e Carla... essas não conseguiam nem olhar para a cara de Otávio. O desprezo era evidente. Ele não merecia a confiança delas depois do que havia feito. Elas estavam completamente indignadas com a cena absurda, com a possessividade doentia dele, com o desequilíbrio que ele havia demonstrado diante de todos.
Kelly falava com as meninas por mensagem de voz, mas se recusava a contar onde estava.
— Kelly, pelo amor de Deus, a gente só quer te proteger. Onde você tá? — insistia Renata.
— Não, meninas, eu amo vocês, amo de verdade, mas eu não posso contar onde eu tô — dizia Kelly, a voz embargada, o coração apertado.
— A gente não vai contar pros meninos, juro! — suplicava Luisa.
— Eu sei que não vão... mas mesmo assim, eu não quero dizer. Só me escutem. Eu tô bem. Tá bom?
— Tá bem, amiga... Fica bem, tá? A gente te ama! — disseram quase em coro, já entre lágrimas.
Kelly também conversava com Rafael. Deitada no pequeno quarto de hóspedes da casa dele, abraçada a uma almofada, ela desabafava:
— Rafael, por favor... se você me ama como disse... não deixa ninguém saber que eu tô aqui, por favor...
— Kelly, por mim você pode ficar aqui o tempo que você precisar. Eu vou cuidar de você, te proteger. Pode confiar. Ninguém vai saber — respondeu ele com firmeza, passando carinho e segurança pela voz.
Ainda tremendo, Kelly ligou para a mãe. Queria avisar, precisava do conforto dela, mas também precisava de sigilo.
— Mãe?
— Filha? Bom dia, minha filha... Não, o Otávio não entrou em contato comigo. O que está acontecendo, minha filha?
Kelly começou a chorar.
— Mãe, ele... ele surtou, mãe... Ele começou a quebrar as coisas de casa, os quadros, os retratos, chutou tudo. Gritava, me xingava... dizia que eu era mulher dele, que eu era propriedade dele... Que ia matar o Rafael...
— O quê? Minha filha do céu!
— Tudo isso porque eu estava ajudando o Rafael a estudar pra matéria. Eu só estava na biblioteca com ele, mãe! Só isso! Como sempre faço com outros alunos. A diretora mesma me pediu ajuda. Mas o Rafael... ele mudou. Antes ele me olhava de um jeito... pesado... mas depois que a gente começou a estudar junto, ele passou a me olhar com carinho, com ternura... E o Otávio surtou! Acha que eu tô dormindo com o Rafael! Ele disse que eu tô traindo ele, mãe!
— Meu Deus, Kelly...
— Ontem... aliás, anteontem... de manhã eu saí, fui dar aula, depois fui pra faculdade, e acabei ficando um pouco com o Rafael pra distrair a cabeça. Mas ele descobriu. De noite, mãe... de noite ele surtou de vez! Falou que ia matar o Rafael, que eu era dele... que ninguém ia me tirar dele. Eu só consegui pegar meu computador, meu celular... e sair correndo! Correndo, mãe!
— Filha, onde você está? Meu Deus, meu amor!
— Eu tô na casa do Rafael. Quando eu saí na rua, desesperada, ele apareceu de carro. Se não fosse ele, mãe, eu nem sei o que teria acontecido comigo. Eu não sei se o Otávio seria capaz de me bater... ou me matar... Ele estava transtornado, mãe. Eu nunca vi aquilo nos olhos de ninguém...
— Kelly... minha filha... meu Deus do céu...
— Mãe, calma. Eu tô bem. Eu tô segura. Mas eu não vou voltar pra casa, mãe. Eu não vou desistir da minha vida, do meu sonho. Eu vou continuar na faculdade, vou fazer meu concurso, vou ser PRF, mãe. Eu vou vencer. Eu só queria te contar onde eu estou. Mas, por favor, por tudo, não conta pra ninguém!
— Filha... minha vida... Pode ficar tranquila. Se você tá protegida aí, então eu te protejo com a minha vida também. Ninguém vai saber. Você tem a minha palavra.
— Obrigada, mãe... obrigada. Eu prometo manter contato.