O tempo cura

477 Words
Otávio estava perdendo o controle. Desesperado, fazia de tudo para tentar encontrar Kelly. Ligava sem parar. Mandava mensagens a cada hora, como se estivesse sendo sufocado pela ausência dela. Mas ela não atendia. Não respondia. O silêncio era a única resposta que ele recebia. As mensagens se acumulavam no celular dela. “Kelly, por favor, me desculpa.” “Kelly, eu te amo.” “Kelly, volta pra mim.” “Kelly, eu tô desesperado.” Logo depois, vinham as mensagens carregadas de desconfiança e possessividade: “Você tá com ele. Eu sei que você tá com ele.” “Você é minha, Kelly. Minha!” “Volta pra mim, volta pra mim, por favor.” “Kelly, eu tô ficando maluco.” “Kelly, eu tô surtando!” Mas Kelly não respondia nenhuma. Ela lia, respirava fundo, segurava as lágrimas e colocava o celular de lado. Não podia mais ceder. Não podia mais voltar. Rafael fazia tudo o que podia para confortá-la. Não insistia, apenas estava ali. Presente, atento, respeitoso. Saía cedo pra faculdade, sempre cuidadoso pra que ninguém soubesse onde ela estava. Voltava no fim da tarde com todas as anotações das aulas, imprimia textos, organizava cronogramas. Sentava com ela, explicava o conteúdo com paciência. — Vai dar tudo certo, Kelly. Um passo de cada vez... eu tô contigo. Ela se mantinha firme, focada. Havia conversado com a diretora do curso, explicando parte do que estava vivendo, sem entrar em detalhes. Só pediu uma chance de continuar. E teve. Kelly era a aluna mais dedicada do curso de Direito. Brilhante, disciplinada. A diretora compreendeu o peso daquela dor silenciosa e permitiu que ela assistisse às aulas de casa. Com a ajuda das professoras, Kelly assistia tudo ao vivo, pelo computador, em um link privado — os outros alunos nem imaginavam que ela estava conectada, do outro lado da tela, tentando se reerguer. Era assim que os dias estavam passando. Quietos, protegidos. Rafael sendo abrigo, Kelly tentando respirar. Um mês se passou. E nada da Kelly voltar para a antiga rotina. Ela não dava sinais, não cedia às pressões emocionais de Otávio. As mensagens dele continuavam chegando, cada vez mais desesperadas. Mas ela permanecia em silêncio. Enquanto isso, Rafael seguia tentando se aproximar, com carinho e delicadeza. Começou a convidá-la para assistir a filmes no fim da noite. Às vezes comédia, às vezes drama. E nessas noites silenciosas, entre risos contidos e lágrimas abafadas, ela se permitia deitar no sofá ao lado dele. Por muitas vezes, adormecia com a cabeça no ombro dele. Ou no colo dele. Rafael não dizia nada. Apenas acariciava de leve os fios do cabelo dela e ficava ali, olhando pra tela, mas pensando nela. E sem perceber, dia após dia, os dois estavam se aproximando. Como quem cura um ferimento com paciência. Como quem recomeça sem prometer nada, mas oferecendo tudo.
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