O dia seguinte amanheceu calmo, com o clima agradável na faculdade. A primeira aula se encaminhava para o fim, e Kelly já estava liberada. Otávio, no entanto, teria uma extensão de Direito Penal com o professor Eduardo, uma atividade prática que tomaria o restante da manhã.
Antes de sair da sala, ele foi até a carteira dela e segurou sua mão por alguns segundos.
— Qualquer coisa, qualquer mesmo, me manda mensagem, Kelly. Eu saio da aula, dou um jeito.
Ela sorriu de leve, com ternura no olhar.
— Pode ficar tranquilo, amor. Eu vou ficar bem.
Otávio assentiu com um olhar que misturava confiança e tensão e seguiu pelos corredores. Kelly, então, recolheu seus materiais e desceu tranquila para o pátio, onde ficou sob a sombra de uma árvore, esperando.
Minutos depois, Rafael surgiu, com o olhar já fixo nela.
— Oi, Kelly. Eu... já deixei a sala da biblioteca reservada. Pode ser agora?
— Pode, claro. Vamos.
Caminharam lado a lado até a biblioteca. Kelly mantinha uma postura serena, profissional, enquanto Rafael sorria com uma suavidade controlada.
Dentro da sala reservada, ela abriu o caderno dele, pegou a própria apostila e começou a explicar ponto a ponto sobre tributação, responsabilidade fiscal e os princípios constitucionais da matéria. Rafael prestava atenção... mas seus olhos estavam mais nos traços dela do que nas anotações.
Depois de alguns minutos, ele murmurou, com a voz baixa e um olhar fixo:
— Kelly... com todo respeito... você é linda. Você é uma mulher admirável. Inteligente, firme... intensa.
Ela parou de escrever e levantou os olhos para ele com um semblante sério.
— Rafael, obrigada, mas guarda os elogios, tá? Eu tô aqui pra te ajudar na matéria. Só isso. Você sabe que eu sou comprometida. Meu namorado me ama de verdade. Eu não vou dar margem pra nada que vá além do que estamos fazendo aqui.
Ele abaixou os olhos, mas sorriu, quase com tristeza.
— Eu sei... eu sei disso tudo. E eu juro que eu tento esquecer, mas é difícil. Desde que eu te vi, Kelly... eu tô apaixonado por você. Eu te amo, de verdade.
Ela respirou fundo, fechou o caderno por um instante, mantendo o autocontrole.
— Rafael... Não insista. Eu sou fiel ao Otávio. Não me faça sair dessa sala.
— Eu sei... eu só queria que você soubesse. Porque um dia, Kelly, um dia você ainda vai ser minha. Eu sinto isso. Você vai ver.
Kelly o encarou, com firmeza nos olhos.
— Rafael, se você disser mais uma frase que não seja sobre Direito Tributário, eu levanto e vou embora. Entendeu?
Ele assentiu, vencido, mas com o mesmo brilho insistente nos olhos.
— Tá... vamos voltar pra matéria.
Kelly respirou fundo e abriu o livro novamente, retomando a explicação, mantendo a frieza e o foco. Sabia que a tática dele agora era outra — tentar seduzi-la emocionalmente. Mas ela era mais forte do que isso.
Ela continuaria ajudando… mas vigiando cada movimento.
Os dias seguintes seguiram calmos, pelo menos na aparência. A rotina da faculdade voltava ao normal, com aulas, trabalhos e aquele clima típico de final de semestre.
Kelly continuava ajudando Rafael com Direito Tributário. Algumas vezes na biblioteca, outras na sala de estudos aberta. Sempre objetiva, sempre com o foco na matéria. Rafael tentava manter a compostura, mas ainda deixava escapar comentários e olhares carregados de desejo contido.
Certo dia, no intervalo entre as aulas, Kelly estava sentada com Isadora, Carla, Luísa e Renata, tomando um café e rindo de alguma bobagem que Luísa tinha falado, quando a conversa mudou de rumo.
— E aí, Kelly — começou Isadora, já em tom de curiosidade — como tá sendo esse negócio de ajudar o Rafael, hein? Porque, olha… o Otávio tá puto, amiga. Dá pra ver na cara dele.
Carla completou, sussurrando e arregalando os olhos:
— Tá mesmo! E o Rafael? Ele tá se comportando?
Kelly deu um leve suspiro, revirando os olhos com um meio sorriso.
— Ele não tá fazendo nada demais… por enquanto. Assim, ele parece que tá respeitando. Às vezes solta uns elogios, diz que me ama, que um dia ainda vai ser meu. Mas eu corto o assunto na hora. E volto pro conteúdo.
As meninas trocaram olhares.
— Amiga, isso é complicado… — comentou Luísa, encostando o copo na mesa. — Porque, vamos combinar, o Rafael não é feio, né?
— Não mesmo — disse Renata, rindo. — Ele é bonito, tem um corpo musculoso, é de família boa… é uma tentação!
Kelly deu uma risada sem graça e balançou a cabeça.
— Realmente, ele não é feio. Ele é bonito, inteligente, sabe se portar… Mas o Otávio é o Otávio, né? A gente tem história, ele me ama de verdade. Ele é meu namorado, meu parceiro, meu quase marido. E eu sou completamente apaixonada por ele. Eu nunca teria olhos pra outro homem. Nunca. Podem ficar tranquilas.
As meninas assentiram, ainda com expressões divididas entre alívio e receio.
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Enquanto isso, do outro lado do pátio, os meninos conversavam num canto mais reservado. Otávio estava visivelmente tenso, sentado na mureta, encarando o chão enquanto girava uma tampinha de garrafa na mão.
— Esse negócio tá me incomodando, cara — desabafou ele. — Tô tentando ficar na paz, mas não dá. Dois, três anos esse cara cantou minha mulher. Agora ela fica direto com ele, sozinhos, e ele diz que mudou?
Leandro respirou fundo.
— Cara, eu entendo. De verdade. Mas os professores tão pedindo pra ela ajudar mesmo… e ela sempre foi a aluna mais aplicada. Tem que ver o outro lado também.
Caio tentou aliviar a tensão.
— E ela te ama, Otávio. Todo mundo vê isso. A Kelly nunca deu a******a pra esse tipo de coisa. Tu sabe disso.
— Sei. Mas sabe quando tu sente que tem algo errado? Ele tá diferente. Tá quieto demais. E eu conheço o olhar dele. Ele continua com aquele olhar de fome. Só que agora é um predador disfarçado de cordeiro.
Marcos assentiu, sério.
— Você tem razão em estar atento. Mas também precisa confiar nela. Se tiver qualquer sinal real de que passou do limite, aí sim, age. Mas até lá… confia, irmão. A Kelly é firme.
Otávio suspirou longo, coçando a nuca.
— É… eu só não quero pagar pra ver.
A tensão se mantinha velada, os dias seguiam com a rotina universitária... mas o clima entre Rafael, Kelly e Otávio estava longe de ser pacífico.