Os ciúmes do Otávio

1272 Words
Duas semanas depois O clima na faculdade era de tensão e ansiedade. O dia da prova final tinha chegado, e todos estavam com os nervos à flor da pele. Kelly passou a manhã repetindo mentalmente os tópicos com Otávio, como sempre fazia. Rafael, por outro lado, estava mais confiante do que nunca — e ela sabia que, por trás daquele sorriso, havia muito esforço envolvido. Na hora da prova, cada um em sua sala. Silêncio total. Concentração. Esforço. As canetas correndo no papel. E depois de longas duas horas... o fim. Um a um, os alunos foram saindo. Kelly e Otávio se encontraram no corredor junto com Caio, Leandro, Marcos e João. Logo depois chegaram Renata, Luísa, Isadora e Carla. Todos animados por terem ido bem. — Acho que gabaritei! — disse Marcos, dando um toque em Leandro. — Eu também! — comemorou Isadora. Kelly sorriu, aliviada. Otávio abraçou-a por trás, depositando um beijo no topo da cabeça dela. Foi então que Rafael apareceu, saindo da sala com a prova dobrada nas mãos. Ele olhou em volta e avistou o grupo reunido. Com passos firmes, aproximou-se. — Boa tarde. — Boa tarde, Rafael — responderam todos quase em uníssono, com vozes neutras, mas cordiais. Rafael parou de frente para Kelly e, com um sorriso genuíno, estendeu a prova para ela ver. — Kelly, eu queria te mostrar... e te agradecer. Eu gabaritei. Eu realmente consegui. Os olhos dela se arregalaram com surpresa e alegria sincera. — Nossa, Rafael! Que bom! Fico muito feliz por você! — disse, apertando a mão dele de forma firme, respeitosa. — Mas saiba que isso é mérito seu. Você prestou atenção, estudou direitinho. Foi seu esforço. O que precisar eu estou aqui ...Estudar e conquistar uma boa nota é uma sensação maravilhosa, não é? — É sim. E muito disso foi por sua causa. Obrigado mesmo. Qualquer coisa que eu precisar... — ele hesitou, olhando direto nos olhos dela — ...eu sei com quem contar e saiu . Otávio se mexeu, desconfortável. Estava com o maxilar travado, olhando Rafael como se ele tivesse falado demais. — disse a com a voz firme. — "O que precisar, eu tô aqui"? Sério? Ela virou-se para o namorado, exasperada. — Ai, Otávio, por favor... Por favor. Não começa. Ele só estava agradecendo. Você ouviu. — É sempre assim. Um agradecimento que vem com segunda intenção. — Otávio! — ela sussurrou, tentando manter a calma diante de todos. Percebendo que o clima estava prestes a desandar, Caio se intrometeu. — Gente, vamos lanchar? Tô com uma fome absurda. Bora relaxar um pouco. — Ótima ideia! — disse Renata. — Vamos comemorar essas notas! — Isso, nada de clima r**m agora, por favor — reforçou Luísa, lançando um olhar de aviso para Otávio. — Otávio, não agora, mano — disse João, discretamente. — De verdade, obrigado mais uma vez — falou baixinho, e se afastou. Kelly respirou fundo e segurou a mão de Otávio, que ainda estava tenso. — Eu tô com você. Só com você. Sempre estive. Mas você precisa confiar em mim. Ele não disse nada. Apenas assentiu com um leve movimento de cabeça, enquanto os amigos já seguiam na frente, tentando puxar o clima de volta para algo mais leve. Naquela noite, em casa... A porta foi fechada com força. O estrondo ecoou pela pequena sala. Otávio estava transtornado, o rosto vermelho, as mãos inquietas. Kelly entrou logo atrás, sem dizer nada. Sabia que aquilo ia explodir. E explodiu. — Eu não tô gostando! — ele gritou, se virando para ela. — Não tô gostando disso tudo, Kelly. Você acha que eu sou burro? Que eu não tô vendo? Kelly permaneceu em silêncio, largando a bolsa no sofá. O tom dele a fazia encolher por dentro. — Toda vez que eu olho pra vocês dois... aquele jeito dele, aquela calma dele... ele tá te comendo com os olhos e você simplesmente finge que não vê! — ele caminhava de um lado a outro, descontrolado. — E você ali! Rindo! Dividindo coisa! Dando atenção! Explicando, tocando no braço dele... Você acha que eu não percebo? Kelly continuava parada. Os olhos não piscavam. Apenas o som da voz dele preenchia a casa, alto, agressivo, desorganizado. — Você traiu, Kelly? Me diz! Você traiu? — ele gritou, jogando uma almofada longe, fazendo um vaso balançar perigosamente sobre a estante. — Fala logo! Que que tá acontecendo? Ela não conseguia falar. Na cabeça dela, só vinham flashes dos momentos com Rafael... A calmaria de suas aulas. O jeito leve com que ele a escutava. O chocolate que dividiram, o biscoito que ele ofereceu com um sorriso. O silêncio cúmplice entre uma explicação e outra. Era paz. — FALA ALGUMA COISA, KELLY! — Otávio explodiu de novo, encarando-a com fúria. — Você vai me deixar assim? Como se eu fosse o maluco da história? Ela finalmente respirou fundo, olhou nos olhos dele com firmeza e disse: — E eu vou falar o quê, Otávio? Hein? Me diz. O que você quer que eu diga? Você sabe muito bem que eu te amo. — Ela levantou a mão, mostrando a aliança grossa e dourada. — Olha isso aqui! Essa aliança enorme. Foi você quem me deu. Todo mundo vê isso aqui, Otávio. Todo mundo sabe que é minha aliança de compromisso com você. Otávio balançou a cabeça, nervoso, os olhos marejados de raiva e dor. — Eu não tô entendendo por que você tá funcionando desse jeito. Você foi na biblioteca várias vezes. Me diz, você me viu rindo pra ele de forma diferente? Viu ele me beijando a mão? Me agarrando? Me dando presente? Ele hesitou. A voz saiu baixa: — Não... eu não vi. — Então pronto, Otávio! — ela levantou a voz, magoada. — Pra que esse surto todo? Você tá parecendo um paranoico descontrolado! Eu tô te falando sério... se você continuar assim, eu vou deixar você. Ele a encarou, a respiração pesada. — Você vai me deixar? Vai me deixar pra ficar com ele? Kelly se aproximou devagar e disse, com os olhos brilhando de dor: — Não. Eu não vou deixar você pra ficar com ele. Eu vou deixar você... pra viver sozinha. Eu já tomei essa decisão. Eu vou pro dormitório da faculdade. Depois eu me ajeito, vejo um canto pra mim, uma casa, um quarto. Isso aqui, Otávio... essa casa é sua. Tudo aqui é seu. Otávio se sentou, com as mãos no rosto, em silêncio. — E quer saber o que eu acho? — ela continuou. — Eu acho que por você pagar tudo, colocar comida, bancar aluguel, você acha que tem o direito de me controlar. Você acha que tem esse poder. Só pode ser isso, Otávio. — Não fala isso... — ele murmurou. — Quer que eu comece a usar o dinheiro que minha mãe me dá todo mês pra te ajudar? Quer? Eu posso começar a dividir tudo. — Não... você sabe que eu nunca pedi nada. Nunca pedi dinheiro seu. Sempre disse que era pra você gastar com você... — Então por que você me trata desse jeito, Otávio? Por quê? Porque sinceramente... — a voz dela falhou por um instante — ...eu não te reconheço mais. Otávio levantou os olhos. Ela estava ali, forte e quebrada ao mesmo tempo. — O pior de tudo, é que você tá destruindo isso aqui sozinho. Tá acabando com o nosso relacionamento. Sem nenhuma ajuda. Kelly deu um passo para trás, com lágrimas nos olhos, pegou a bolsa e seguiu em direção ao quarto, deixando ele sozinho na sala, mergulhado no próprio abismo de insegurança.
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