a crise dos meninos (3)

847 Words
Os quatro caminharam decididos em direção à água, os pés afundando na areia quente, os semblantes mais amenos — mas só por fora. Por dentro, cada um fervia. Otávio foi o primeiro a falar, com a voz firme: — Vocês não vão sair da água nem pra beber nada? Já estão aí faz horas. kelly ergueu uma sobrancelha, sem sair do lugar. — Bom… se vocês não forem surtar pra cima da gente, a gente adoraria tomar uma cerveja gelada. Porque, sinceramente, estamos com a boca seca. Caio deu um sorriso forçado, claramente engolindo o orgulho: — Não, não… a gente não vai falar nada, não. Podem vir. Tá tudo tranquilo. luiza desconfiou do tom, mas fingiu que acreditou. Isadora foi a primeira a sair do mar, escorrendo água pelo corpo bronzeado. As outras vieram logo atrás, secando os rostos com as mãos e se ajeitando nos biquínis com calma, como se nada tivesse acontecido. Sentaram-se nas cangas, ainda molhadas, e os rapazes prontamente foram buscar cervejas bem geladas no cooler, além de uma porção caprichada de batatas fritas da barraca próxima. Marcos distribuiu os copos e sentou ao lado de Carla, que o olhou de canto, ainda atenta. — Tentando manter a paz, é isso? — disse Renata murmurou, bebendo um gole enquanto olhava para Leandro. Ele apenas sorriu, sem responder. Otávio passou um braço pelos ombros de kelly ,mas o olhar dele seguia observando cada gesto dela, cada risada, cada troca de olhares com as amigas. Leandro ,João e Caio também estavam mais calmos — ou fingindo estar. Conversaram amenidades por alguns minutos, comeram, beberam. As meninas, aliviadas com a trégua, voltaram a se soltar aos poucos. Mas entre um gole e outro, trocando olhares cúmplices e silenciosos, os rapazes já tinham algo tramado. Eles não esqueceram. Eles não superaram. E aquela calmaria... era só o começo da vingança silenciosa. Otávio deu uma última olhada para os amigos, e disse baixinho, com um sorriso no canto da boca: — Elas vão sentir o gosto do que é raiva hoje à noite. Esperem. Leandro assentiu. Caio apertou os punhos discretamente. E joao apenas sussurrou para si mesmo: — Agora vai ser do nosso jeito. Marcos só sorria mesmo a Carla não tendo aprontado com ele,ele iria com os meninos. Depois de algumas garrafas de cerveja, as risadas aumentaram, a leveza voltou, e as meninas decidiram se levantar. — Vamos voltar pro mar? — sugeriu Isadora, se espreguiçando com preguiça de verão. — Bora. — respondeu Renata, já pegando a canga e jogando de lado. Elas caminharam de novo rumo às ondas, os corpos bronzeados brilhando sob o sol, os sorrisos despreocupados… mas os olhos atentos. Ainda sentiam os olhares deles nas costas. Assim que a água bateu nas coxas, Kelly lançou: — Meninas… eles estão armados. Luiza ergueu as sobrancelhas: — Mais do que óbvio. Eu vi muito bem o sorrisinho que o Leandro me deu quando me entregou a batata. Ele não é assim. Ele é debochado, mas não daquele jeito. Aquilo era veneno disfarçado. — E o Caio, então? — disse Isadora, passando a mão na nuca molhada. — Muito quieto pro meu gosto. Quando ele cala demais, é porque tá tramando alguma coisa. — E o João? — completou renata— Ai, ai. Com aquele olhar perdido, fingindo que tava tranquilo. Mas eu conheço o bicho. Eles vão sair hoje. Vão nos deixar em casa, fingindo que tá tudo de boa, só pra ver a gente surtando. — Pela cara do Marcos… — falou Carla, entrando de vez na água. — Eu já vi tudo. Ele tá no meio também. Eu nem aprontei com ele, mas ele vai com os meninos. Aposto. Então, meninas, tô com vocês. Pro que der e vier. Kelly riu e lançou o plano com firmeza: — Digo uma coisa, se eles saírem pra curtição… a gente sai também. Simples. Pede um carro, se arruma, joga um perfume bom e vamos curtir uma baladinha. E quando eles chegarem em casa, a gente não vai estar lá. E aí... quem vai surtar de novo são eles. As meninas gargalharam. — O Otávio sabe muito bem que eu não nasci pra ser controlada. Eu tô cheia das palhaçadas dele. Cheia! — disse kelly, já mexendo nos cabelos com raiva disfarçada de charme. — Daqui cinco dias a gente volta pra faculdade, completou. — E vocês sabem que ele vai voltar a surtar com o Rafael, só porque o cara não tira os olhos de mim. p***a, ele sabe que eu tenho olhos só pra ele, que eu amo ele, mas insiste nesses surtos infantis. Renata assentiu: — Essa ideia de apontar, de fazer joguinho, veio do Otávio. Aposto. Ele é o cabeça. Todos eles são terríveis, mas o Otávio é o pior. Kelly concluiu: — Então, se eles vão aprontar… a gente vai aprontar também. Com estilo. Sem surto. Só charme. E ali, entre uma onda e outra, selaram o pacto com uma gargalhada cúmplice e um mergulho profundo. O jogo estava lançado. E dessa vez, as meninas iam jogar melhor.
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