Entre Confissões e Decisões

827 Words
O sol já havia se escondido quando as meninas decidiram se reunir no jardim da casa alugada. A grama estava fria sob as mantas que espalharam, e o cheiro das flores noturnas criava um clima aconchegante. O céu estrelado parecia ouvir cada desabafo com atenção. Estavam todas ali: Kelly, Luísa, Renata, Isadora e Carla. Esta última mais quieta, observando o grupo com o coração leve, diferente das outras. — O Leandro passou o dia inteiro atrás de mim — começou Luísa, com um suspiro. — Montou mesa de café, falou que quer mudar… E eu até acredito, sabe? Mas não é porque ele falou um “eu vou mudar” que eu vou cair nos braços dele assim. — O João ficou parecendo um filhote perdido — disse Renata, rindo baixo. — Tentou me dar banho, fez suco, ficou me olhando como se eu fosse fugir a qualquer momento. E eu? Deixei ele cuidar, mas botei meu limite. Ele errou, ele que lute. — O Caio me olhava com uns olhos de cachorro arrependido — contou Isadora, cruzando os braços. — Eu deixei ele me ajudar, ele foi fofo, mas… Não adianta. Não adianta ser fofo um dia e controlador no outro. Ele tem que mudar de verdade. Kelly ficou em silêncio por um instante, observando a chama de uma vela acesa perto das taças de vinho que tinham levado. Carla apenas ouvia tudo com atenção e carinho, apoiada na almofada, mexendo nos próprios cabelos. — E o Otávio? — perguntou Luísa. Kelly respirou fundo, encarando o céu antes de responder: — A minha situação com o Otávio é muito mais complicada que a de vocês. Ele sempre foi possessivo, desde o começo da faculdade. A gente tem história, sabe? Diferente de vocês, que começaram a se envolver aqui. Eu e ele já tínhamos vivido muita coisa… e ele já me ouviu mil vezes. Ele sabe do meu limite. Eu fui clara, se ele não mudar… eu sumo. Eu juro, eu sumo do mundo. As meninas se entreolharam, sérias por um momento. Até que Renata quebrou o silêncio com um tom cúmplice: — Some dele, mas não some da gente, tá? — Isso! — completou Isadora, rindo. — Some dele, mas me manda sua localização, mulher. — A gente precisa saber onde você tá escondida — disse Luísa, dando um gole no vinho. — Nem que seja pra levar chocolate no esconderijo — brincou Renata. As risadas preencheram o jardim como um abraço coletivo. Aquela amizade era uma rede de apoio, onde cada uma podia cair e ser amparada. Foi então que Carla, que observava tudo até então, se endireitou e disse com a voz doce: — Mas meninas… vocês acham que já estão prontas pra voltar a curtir o restinho da viagem? Faltam poucos dias pra irmos embora. Talvez, se vocês se permitissem uma noite quente, de amor com seus parceiros… O que vocês acham? O silêncio caiu por um segundo. E logo, uma a uma, as respostas surgiram. — Não — disse Renata. — Por mais que eu esteja cheia de desejo… não vou ceder. — Eu também não vou ceder — falou Isadora. — Ele precisa entender que não é só pedir desculpas. — Concordo — disse Luísa. — Por mais que o corpo peça… o coração ainda tá em alerta. — Com certeza — reforçou Renata. — Eles precisam aprender que não se ama com controle. — E eu? — Kelly finalizou, encarando Carla com firmeza. — Eu nem consigo pensar nisso. Porque eu ainda tô magoada. Ainda tô ferida. O Otávio precisa mudar. De verdade. Carla assentiu com um sorriso compreensivo. — Tudo bem. A decisão é de vocês. E o tempo é de vocês também. Do outro lado da casa, na sala, os meninos conversavam entre si. João estava sentado no braço do sofá, de cabeça baixa. Caio andava de um lado para o outro. Leandro suspirava e esfregava o rosto. E Marcos, recostado com tranquilidade, apenas os observava. — Cara… eu fui um i****a — disse João. — A Renata só queria viver, curtir, ser livre. E eu fiquei com medo. Achei que controlar fosse proteger. — Mesma coisa comigo — murmurou Caio. — A Isa é tão viva, tão autêntica. E eu… fiquei com medo de perder ela. E apertei demais. — Luísa me olhou hoje como se não me conhecesse — disse Leandro. — E sabe o que é pior? Eu também não me reconheci no cara que fui ontem. Marcos então se manifestou, com a calma de quem já havia aprendido antes: — Vocês erraram. Mas têm chance de consertar. Agora é com vocês. E, principalmente… com elas. Elas que vão decidir se ainda vale a pena. Os meninos ficaram em silêncio. As risadas suaves do jardim chegavam até eles pela janela entreaberta. E naquele som, havia uma força clara: o amor não era prisão. Era escolha. E naquele momento… todas as decisões estavam nas mãos delas.
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