Laços Entre Estantes

898 Words
Os dias seguintes ao início das aulas no curso de Direito foram uma mistura de ansiedade e descoberta para Kelly e Otávio. Ambos carregavam nos olhos o brilho de quem havia batalhado para estar ali. A universidade, embora ainda um território novo, começava a se tornar familiar — corredores longos, salas amplas, e aquele cheiro característico de papel, café e possibilidades. Kelly era mais introspectiva, observava tudo em silêncio, captando expressões, tons de voz, sutilezas. Otávio tinha um jeito tranquilo, simpático sem ser invasivo. E essa combinação logo atraiu a atenção dos colegas. Na segunda semana de aula, durante uma das primeiras aulas de Direito Constitucional, a professora Vanessa — uma mulher de fala firme, olhos inteligentes e blazer impecável — entregou aos alunos o primeiro desafio acadêmico em grupo. — Senhores, quero um trabalho em grupos de até quatro integrantes — anunciou, caminhando entre as carteiras. — Tema: Controle de Constitucionalidade no Brasil. Um tema denso, eu sei, mas absolutamente necessário. A entrega será em três semanas. Aproveitem a biblioteca da faculdade. Vocês ainda vão passar muito tempo por lá. Alguns estudantes sorriram nervosos. Kelly e Otávio trocaram um olhar que dizia tudo: trabalhar ali mesmo, na biblioteca, seria o ideal. Evitar convites para a casa de alguém era a melhor escolha, por várias razões — privacidade, praticidade e segurança emocional. Ambos sabiam que manter a vida pessoal reservada era importante, pelo menos naquele início. No final da aula, dois colegas se aproximaram. Júlia, de voz ágil e cabelos cacheados presos num coque alto, e Leandro, um rapaz de fala serena e olhar observador. — Já têm grupo? — perguntou Júlia, ajeitando a alça da mochila. — Ainda não — respondeu Otávio, simpático. — A gente pensou em fazer esse trabalho na biblioteca mesmo. Evita confusão e todo mundo fica focado — comentou Leandro. Kelly assentiu, aliviada por encontrar pessoas com a mesma linha de raciocínio. — Perfeito. Fechado, então — disse ela. Naquela mesma tarde, os quatro se encontraram na biblioteca da faculdade. Era um espaço amplo, moderno, com estantes altas, mesas de madeira clara e janelas de vidro que deixavam entrar a luz dourada do fim do dia. O som era abafado, quase sagrado, como se o silêncio ali tivesse sido esculpido com cuidado ao longo dos anos. Sentaram-se numa das mesas do canto, rodeados por livros de Direito empilhados em torres organizadas por tema. Kelly abriu seu notebook e começou a listar os tópicos essenciais: conceito de controle de constitucionalidade, controle difuso e concentrado, jurisprudência do STF, ações constitucionais... — Posso ficar responsável pela parte histórica — disse Júlia, animada. — Tenho facilidade com datas e evolução legislativa. — Eu fico com a parte jurisprudencial, então — completou Leandro. — Posso buscar alguns casos emblemáticos. — E eu escrevo a introdução e a conclusão — disse Otávio, já digitando algumas ideias. — Depois junto tudo e faço a revisão geral. — E eu posso cuidar da diagramação e normas da ABNT — acrescentou Kelly. — Gosto de deixar tudo visualmente organizado. O trabalho em grupo fluiu com naturalidade. A cada novo encontro na biblioteca, o entrosamento aumentava. As reuniões passaram a ser quase diárias — às vezes para discutir o trabalho, outras vezes para estudar outras matérias: Teoria do Estado, Filosofia do Direito, Sociologia Jurídica. Com o tempo, os quatro começaram a compartilhar também dúvidas, piadas internas, cafés e confidências suaves. Na terceira semana de aulas, outros colegas começaram a se aproximar. Marcos, do grupo de Estudos Sociais Aplicados, pediu para revisar uns resumos. Ana, uma das alunas mais atentas de Introdução ao Estudo do Direito, sentou com eles para discutir o texto de Kelsen. A biblioteca se tornou mais do que um lugar de estudo: virou um ponto de encontro seguro e silencioso, onde se formavam laços que iam além da obrigação acadêmica. Mesmo com essa aproximação, Kelly e Otávio mantinham certos limites. Evitavam falar sobre onde moravam, sobre suas rotinas fora da universidade, e raramente aceitavam convites que envolviam saídas além dos muros da faculdade. Júlia e Leandro, por sorte, compreendiam e respeitavam isso sem questionar. — Vocês já perceberam que somos o grupo que nunca estuda fora da biblioteca? — comentou Júlia, rindo, numa tarde chuvosa em que estavam mergulhados em doutrinas. — O clube da Constituição silenciosa — brincou Leandro. — Clube do “não leva ninguém em casa” — acrescentou Otávio, com um sorriso torto. — Mas leva o trabalho a sério — completou Kelly, com um leve sorriso nos lábios. O trabalho finalizou-se antes do prazo, com um conteúdo impecável e bem fundamentado. No dia da entrega, Vanessa os observou com atenção. — Grupo Kelly, Otávio, Júlia e Leandro? — chamou ela, folheando o material encadernado. — Excelente estrutura. Vocês entenderam o espírito do tema. Muito bem. Foi uma vitória silenciosa, mas poderosa. E mais do que a nota, o que ficou foi a sensação de pertencimento. Entre estantes e doutrinas, entre textos de Constituição e cafés divididos, Kelly e Otávio encontraram algo raro: uma conexão real, sem máscaras, sem obrigações. Ao sair da biblioteca naquele dia, Kelly olhou o céu nublado pela janela alta e sentiu algo dentro dela se acalmar. Otávio caminhava ao seu lado, com os passos sincronizados aos dela. — Vai dar tudo certo — ele disse, sem olhar diretamente. Ela não respondeu. Apenas sorriu. Pela primeira vez, talvez estivesse começando a acreditar.
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